sábado, 31 de maio de 2008

Educação para o optimismo

ATENÇÃO: ESTE POSTE TEM IMAGENS!

AS IMAGENS QUE NÃO SE VÊEM AQUI SÃO TODAS AS QUE OS MEUS AMIGOS PUBLICAM NOS SEUS BLOGUES, DAS SUAS ACTIVIDADES COM ALUNOS. VÊEM-NAS? EU VEJO! OS ALUNOS DA TERESA DO SADO, DA TERESA DO TÂMEGA, AS GÊMEAS DA CLARA DE RESENDE, OS MAIORES DO 12º4, TODOS, TODOS, (estive a citar de cor, mas são todos, até aqueles meus meninos das aulas debaixo do embondeiro):



Depois de ler a parábola das Nove Vacas, que o Terrear e o Revisitar a Educação nos trouxeram hoje e de ler também o lamento da Fátima André acerca de um programa televisivo recente em que se teriam relevado os males da Blogosfera sem referir os bens, lembrei-me de ir à procura de um texto que, ainda no tempo em que Nosso Senhor Jesus Cristo andava pelo Mundo, publiquei no Primeiro de Janeiro, que me deu a honra de, durante anos, me oferecer uma página para expor a minha opinião, à sexta-feira. Por questões temporais, apenas mudei o tempo verbal relativo a um anúncio, lá para o fim, pois sinto que o resto está actual:


"Um dia destes, numa reunião de Professores, uma Colega conseguiu surpreender-me, a mim que estou no ensino há quarenta anos. No meio de um assunto meio morno, ela despertou a minha alma e todos os meus sentidos pedindo a palavra e dizendo: "Apesar de tudo, eu estou optimista. Aliás, sendo professora, só posso ser optimista."
Que maravilha! Que bom se todos nós, professores em especial, tivéssemos este lema de vida! De facto, também eu sinto que à Escola cabe agora, mais do que nunca, transportar o facho da fé no futuro. Os jovens precisam de quem os estimule e lhes dê confiança, num mundo em que tudo parece conluiar-se para a descrença. É a guerra, é a violência, é o desemprego, é a doença. Sim, há disso tudo, mas sentimo-lo mais ainda porque a comunicação gira à volta dessas pragas sociais. O Bem e o Mal são igualmente contagiosos. E nós mostramos mais vezes o Mal do que o Bem. Que esperança podem ter os adolescentes de agora, que estímulo para fazer o seu trabalho, que é estudar, se só vêem cenas de desespero de desempregados? Para quê darem-se ao trabalho de ser gentis, delicados, se o que a comunicação social apresenta é a guerra e a maldade? Para quê preocuparem-se com programas de (in)formação e cultura, se se valoriza o fácil, o mau-gosto, o palavrão?
Então, o que podemos fazer? Tanto! Por exemplo, começar por valorizar o seu trabalho. Evidentemente que têm de estudar. Mas por que havemos de os censurar sempre que não fazem uma tarefa marcada e não os louvamos e incentivamos quando o fazem? Por que não demonstrar esperança neles, nas suas capacidades de reformar o mundo, de encontrar outras opções, agora mais solidárias do que foram as nossas? Por que não mostrar-lhes confiança também relativamente ao nosso próprio futuro, que, afinal, está nas mãos deles? Por que não nos começamos a "mexer" no sentido de exigir que os jornais e a televisão, em especial, dêem mais realce às coisas boas que acontecem? Sabem que estão sempre a acontecer coisas boas? Que há pessoas que não roubam, que não enganam, que ajudam os outros, que têm iniciativas, que se preocupam genuinamente? E que ajudam o vizinho desempregado, que tiram algum do seu tempo para ir visitar um doente, que conciliam onde há desavença? E que são cidadãos anónimos, comuns, mas que fazem as coisas porque têm coragem. E ter coragem " é quando sabes que foste vencido ainda antes de começares, mas começas apesar disso e acabas o que tens a fazer, independentemente do que acontecer. É raro ganhar-se, mas às vezes acontece." Como se lê numa das mais belas obras que já li, "Não matem a Cotovia", de Harper Lee.
Vamos começar, já? Alguém tem de o fazer e tudo começa por pequenos gestos. Às vezes, de forma pouco ortodoxa, até. Como naquele anúncio a uma bebida, (não me lembro qual, mas recordo a mensagem)em que o filho se recusava a continuar a ser mensageiro de recriminações entre os Pais e começa a mentir. Por Amor. Coragem e Amor, que duas belas palavras para terminar esta reflexão!"

sexta-feira, 30 de maio de 2008

Eu quero, eu acredito


Sem autor, como sem autor é a foto que me chegou com o sugestivo título de "Um minuto antes da surra..."
Um dia eu vou nascer outra vez
Sei que vou.
Um dia, vou ser criança, mesmo criança,
Sei que vou.
Um dia, vou ter uma boneca,
não me vou levantar de madrugada,
para ir comprar e trazer às costas
aqueles cem pães de cada dia.
Sim, eu sei que vou.
Um dia, vou ser adolescente,
Sei que vou.
Vou ter uma saia de pregas igual às outras,
Sei que um dia vou usar saiotes, quando eles se usarem,
Sei que vou.
E vou ter um casaco de malha branco, mesmo branco,
Sei que vou.
Vou poder ir à matinée,
Vou ter tempo para estudar a lição
Sentada a uma mesa,
E não encostada a uma porta com uma pedra na mão.
Mas, antes de mais nada,
Eu quero ser mesmo uma criança,
Quero ter uma boneca,
Quero não ter medo à noite,
Nem ter de caminhar pelo musseque na manhã escura
Descalça para poupar os meus sapatos de pano castanhos,
De que depois preciso para o único momento
Em que finalmente quase posso ser criança:
Estar na Escola.
Sabem, a Escola, para muitos de nós,
Ainda é o único lugar,
Em que, às vezes, podemos ser crianças.
Um dia, vou ser uma criança para saber como é.
Eu sei que vou.

Quando não há pão, come-se boroa...

O mar visto da minha mesa de trabalho...


Este ditado, como muitos outros, está ultrapassado, porque hoje a boroa é mais cara do que o pão. Não vou agora esmiuçar as razões, fica para outra altura, mas vou, ainda assim, explicar o título.
Estou para aqui sentada, numa sala virada para o mar, que nem a 30 metros está, vejo os grandes navios de carga pacientemente à espera de poderem entrar e descarregar e mudei de trabalho. Isto é, como não posso ter pão, isto é, fazer um trabalho mais próximo, digamos, de quem mais precisa informação e conhecimento, estou a preparar uma espécie de Seminário para médicos, enfermeiros e técnicos hospitalares sobre a Humanização dos cuidados. Neste caso, será a boroa…
É claro que enquanto preparei o trabalho para apresentar e treinar auxiliares de saúde, tinha, forçosamente, de pesquisar informação aprofundada que me escorasse o trabalho. Ainda bem que o fiz, pois agora estou na posse de material suficiente para esse Seminário de quatro dias, de que fará parte integrante o visionamento do filme “Patch Adams”. Já tinha o trabalho bem adiantado, porque sei que há gente grande suficientemente humilde para ouvir e reflectir sobre aspectos do dia a dia que, por terem entrado na rotina, começam a perder significado. E assim aconteceu. É por estas e outras que sou uma advogada tão entusiasta do namoro após o casamento, de umas flores para alimentar a alma… Porque a rotina, a monotonia, tudo consomem sem chama nem alegria.
Para os auxiliares, subordinei tudo o que apresentei a esta questão: “E se fosse eu?”. A partir daí, de os obrigar a calçar os sapatos do doente, tudo se torna mais fácil. Fácil demonstrar que o sorriso, o tratar pelo nome, a paciência, a aceitação, o acolhimento, o respeito, tudo ajuda o doente, porque é muito diferente ser o “n.º 23 Enfermaria Homens” ou o Sr. Faustino Kalamba. Que uma mão sobre outra mão baixa a febre e diminui a dor. Porque a dor se pode curar com analgésicos mas o sofrimento precisa de ser reconhecido como único da Pessoa.
Daí achar por bem terminar com estas duas citações:
Não há riqueza maior que a saúde do corpo, nem contentamento maior que a alegria do coração. É melhor a morte do que uma vida amarga e o descanso eterno, mais que uma doença prolongada.
(Eclesiastes 30, 16-17)

Os corpos não sofrem; as pessoas sofrem. (Eric Casad)


Pois a posição não é muito confortável para escrever, mas se não pudesse escrever ainda seria pior. Além disso, a paisagem é linda e calmante. Portanto, Deo gratias.

quinta-feira, 29 de maio de 2008

Tudo o que Deus faz é pelo melhor...

Amigos, vou contar-vos uma história que li há muitos anos, num manual que utilizei quando ensinei uma disciplina que se chamava "Língua e História Pátria": Era uma vez um rei que tinha um conselheiro que muito prezava pela sensatez dos seus conselhos. Este apreço caía mal nos invejosos e o nosso conselheiro tinha os seus inimigos do peito. Ora era pendor seu, sempre que tinha que aconselhar o rei sobre as medidas a tomar sobre qualquer coisa difícil, terminar com a expressão "Tudo o que Deus faz é pelo melhor".
Bem, um dia o princípe, filho único, num torneio caíu do cavalo e morreu e quando todos foram apresentar os pêsames, o nosso conselheiro lá foi, disse o que o coração lhe transmitia, mas acabou com a frase sacramental:"Tudo o que Deus faz é pelo melhor e V. Majestade tem de conformar-se, porque pode ser que esta infeliz morte tenha livrado o príncipe e o reino de alguma calamidade maior".
O rei ficou sentido e os invejosos logo aproveitaram para o atiçar e dizer que um conselheiro tão insensível merecia a morte. Tanto disseram e falaram que o rei, num ímpeto, mandou um carrasco a casa do conselheiro com ordens para lhe dar um golpe fatal assim que ele aparecesse. Ora o dia estava quente e o conselheiro estava no seu quarto, muito à vontade, mas quando ouviu, à porta, dizer que vinham da parte de el-rei, enfiou um roupão à pressa e veio a correr pelas escadas. Tropeçou no roupão, caiu, partiu uma perna e o carrasco não teve coragem de dar o golpe num homem caído no chão. Voltou ao palácio, disse ao rei o que se tinha passado, o rei pensou e disse que ficava tudo por ali. Já agora, ainda queria ver o que o conselheiro lhe diria quando ficasse bom...
Daí a um mês, agarrado a duas bengalas, o conselheiro foi ao paço real e o rei perguntou-lhe se ele ainda achava que tudo o que Deus faz é pelo melhor. Resposta do conselheiro:" Certamente, Majestade! Quem sabe sabe o que me aconteceria se não tivesse partido a perna!" Aí o rei caíu em si e pensou que, de facto, se ele não tivesse partido a perna, estaria morto.
Bem, no dia 26 de Maio, levantei-me cedo e fui meditar à beira mar. Levava vestido um bubu, que é um trajo comprido, até aos pés, e andava ali à babugem onde o mar encontra a praia. Estava a olhar para dentro e de repente vi que uma onda grande se vinha formando e que me iria molhar toda. Dei meia volta para fugir, virei o corpo todo, mas o meu pé direito ficou onde estava. Tinha fracturado os ossos que ligam o peróneo ao pé, além dos ossos do tornozelo. Fui operada na terça-feira, tenho 6 parafusos e uma placa de 15 centímetros, tive alta hoje e estou agora a chegar a casa e a pôr-me em dia convosco.
Posso trabalhar sentada numa cadeira, com o pé lesionado em cima de outra e na segunda-feira retomo as minhas actividades em pleno. Até lá tenho que treinar com duas canadianas, mas vai correr tudo bem. Hei-de publicar aqui uma foto com o meu glorioso pé direito armado em importante e sei que tudo o que Deus faz é pelo melhor.

domingo, 25 de maio de 2008

Cara de Avó

Aqui estou, em toda a minha glória, cabelo ao vento, com cara de Avó Pirueta. Para ver se este meio sorriso chama ao palco O Escondido Sorriso Imenso. Tirada no dia 15 de Maio, ao pôr do sol, com o mar ao fundo.
No meu lado esquerdo, só parte cabe na foto, o meu coração, a minha Caixinha de Afectos. Onde há sempre lugar para mais um que queira entrar.

S. Francisco de Assis

Embora saiba que este poste vai aparecer com data de 24 de Maio, como o anterior, aliás, estou, de facto, a escrever a 25, só que não sei nem tenho por aqui ninguém que saiba, actualizar a data e a hora. Estamos, portanto, num Domingo. Por outro lado, ainda que já conheça, com os olhos da alma, todos os que enchem, (mas deixando sempre espaço para quem quiser vir), a minha Caixinha de Afectos, queria deixar aqui um leve intróito explicativo: eu não sou nenhuma fundamentalista religiosa, nem freirática e muito menos beata!
Tenho falado últimamente muito em orações, Deus, Amor, e outros temas correlaccionados, apenas porque se entroncam em tudo o que estou a fazer. Não imaginam o que tenho aprendido, a estudar para poder partilhar (outra definição para ensinar)! E, ultimamente, no tempo certo, aprendi muito sobre a diferença entre "sofrimento" e "dor". Depois, a gente lê o nosso Raul e ele acorda-nos tão suavemente para outras realidades que estão mesmo à nossa frente e muitas vezes não identificamos...
Por isso apeteceu-me, a mim que nasci no dia de S. Francisco de Assis, "O Louco de Deus", publicar a sua Oração. Um Poema de Renúncia, chamo-lhe eu.
Senhor,
Fazei de mim um instrumento da Vossa Paz;
onde houver ódio, que eu leve o Amor;
onde houver ofensa, que eu leve o Perdão;
onde houver discórdia, que eu leve a União;
onde houver dúvida, que eu leve a Fé;
onde houver erro, que eu leve a Verdade;
onde houver desespero, que eu leve a Esperança;
onde houver tristeza, que eu leve a alegria;
onde houver trevas, que eu leve a Luz.

Senhor,
Fazei que eu procure mais:
Consolar que ser consolado,
compreender que ser compreendido,
Amar que ser amado.

Pois é dando que se recebe,
É perdoando que se é perdoado
E é morrendo que se ressuscita para a Vida Eterna.



Deixem-me falar de Amor



Fala-se tanto de amor! Sim, de amor, assim, com letra pequena, porque não vale nada.
É uma palavra gasta, velha, desperdiçada. No entanto, na minha opinião, para crentes e ateus, para todos os Homens e Mulheres, só o Amor pode servir de padrão de Vida, porque ele tudo ensina, tudo conduz, tudo enforma, para tornar o nosso tempo neste mundo digno de ser vivido.
S. Paulo sabe que eu o acho um tanto pragmático, ter-lhe-ia feito bem talvez ter vivido um Amor terreno para lhe dar mais um pouco de aceitação do que somos, mas tem páginas admiráveis e a famosa Epístola aos Coríntios é um dos meus textos de eleição. Comemorámos, o meu Marido e eu, o nosso 40º aniversário de casamento no dia 3 de Maio de 2003. Ao princípio, ele achou ridículo: ninguém comemora, com uma festa aberta a convidados, 40 anos de casamento! Mas nessa tarde, na Missa celebrada especialmente para o efeito, ele leu a Epístola aos Coríntios (eu tinha pedido licença para tal, visto que não era a do dia) e depois – espanto dos espantos – quem fez a homilia fui eu. Porque eu queria que toda a gente soubesse que aquele Homem me tinha amado, a mim, com todas as minhas imperfeições, daquela maneira. Porque eu tive Pai e Mãe, mas quem me ajudou a crescer e a ser o que sou, foi o meu Marido, o Pai dos meus Filhos. E que me aconselha e ajuda ainda hoje. Se eu o quiser ouvir…
Daí a 23 dias, no dia 26 de Maio, faz, portanto, amanhã 5 anos, morreu como merecia, em paz e suavemente, durante a sua querida e imprescindível sesta da tarde. Nunca soube definir, até hoje, se devia agradecer ou zangar-me por não se ter despedido de mim. Eu não estava em casa. Então, para quem a não tiver à mão de ler, aqui vai a Epístola:

Ainda que eu fale as línguas dos homens
e dos anjos, se não tiver Amor,
serei como o bronze que soa
ou como o címbalo que retine.
Ainda que eu tenha o Dom de profetizar
e conheça todos os mistérios e toda a ciência,
ainda que eu tenha tamanha fé, a ponto
de transportar montanhas,
se não tiver Amor, nada serei.

E ainda que eu distribua todos
os meus bens entre os pobres
e ainda que entregue o meu próprio corpo
para ser queimado,
se não tiver Amor,
nada disso me aproveitará.

O Amor é paciente, é benigno,
o Amor não arde em ciúmes,
não se ufana, não se ensoberbece,
não se conduz inconvenientemente,
não procura os seus interesses,
não se exaspera,
não se ressente do mal;
não se alegra com a injustiça,
mas regozija-se com a verdade.
tudo sofre, tudo crê, tudo espera,
tudo suporta.

O Amor jamais acaba.
Mas, havendo profecias, desaparecerão;
havendo línguas, cessarão;
havendo ciência, passará.
Porque em parte conhecemos,
e em parte profetizamos.
Quando, porém, vier o que é perfeito,
o que então o é em parte será aniquilado.

Quando eu era menino,
falava como um menino,
sentia como um menino.
Quando cheguei a ser homem,
desisti das coisas próprias de menino.
Porque agora vemos como em espelho,
obscuramente, e então veremos face a face;
agora conheço em parte e então,
conhecerei como sou conhecido.

Agora, pois, permanecem a Fé,
a Esperança e o Amor.
Estes três.
Porém, o maior deles é o Amor.”

Alguns séculos mais tarde, Santo Agostinho escreveria: “Ama e faz o que quiseres. Se calares, calarás com amor; se gritares, gritarás com amor; se corrigires, corrigirás com amor; se perdoares, perdoarás com amor. Se tiveres o amor enraizado em ti, nenhuma coisa senão o amor serão os teus frutos.”

quinta-feira, 22 de maio de 2008

A Oração do embondeiro

terrear

O embondeiro é uma árvore-símbolo, quase sagrada, que se encontra em África quase em toda a parte. Dá um fruto estranho, que consiste numa pasta branca, que me faz lembrar esferovite e está num invólucro verde acinzentado. Esta fruta, chamada múcua, faz-me lembrar uma outra imagem: a de grandes ratos suspensos da árvore pela cauda… Até há poucos anos considerada quase sem préstimo (embora eu sempre tivesse gostado muito dela), a múcua hoje é usada em profusão em sumos, sorvetes e ainda em chá para, dizem-me, tratar a diabetes.
O embondeiro fascina-me e gosto de me sentar debaixo de um, quando posso e quero pensar. Ele transmite-me uma segurança, um sentimento de protecção, uma dimensão do meu tamanho que não consigo explicar mas que sinto passar da árvore para mim de uma forma quase palpável. É o lugar escolhido, nas comunidades, para se resolverem assuntos importantes e uma “conversa debaixo de embondeiro” é uma conversa para dar conselhos, para partilhar saberes.
Dos seus troncos largos, muito grossos na parte inferior, saem braços (não consigo vê-los como ramos) que se elevam ao céu numa prece permanente. E, por algum dom que não sei se devo agradecer ou lamentar, eu ouço os braços do embondeiro, na sua oração contínua. E o que ouço é isto:

Meu Deus, olha para África!
Estendo os meus braços para Ti,
Creio que me fizeste assim grande e forte
Para que o meu grito chegasse aos Teus ouvidos.
Senhor, olha para os Teus Filhos Africanos,
Temos sede e fome de justiça,
Clamamos pela tua misericórdia.
Porque quando não tivermos fome e sede de justiça,
Também o nosso corpo ficará saciado.
Meu Deus, estendo os meus braços para Ti,
Porque estamos esquecidos e ninguém ouve
Os gritos das nossas crianças quando vão dormir com fome.
Abre os Teus olhos para ver as suas faces secas,
Porque as nossas crianças choram sem lágrimas.
Os meus frutos baloiçam ao vento, Senhor,
E pedem-te que ensines os nossos próprios Irmãos
A olharem para nós fraternalmente.
Não deixes, oh meu Deus, que o pão que mataria a nossa fome
Seja transformado em máquinas de morte entre nós mesmos.
Meu Deus, olha por África,
Porque ela está sedenta de Ti,
E Te ama e respeita em todas as Tuas criaturas:
Vêem em mim a Tua força e estatura,
Respeitam os rios, as montanhas e os vales,
Nunca se esquecem de Ti, chamando-te por mil nomes.
África, África, suplicam os meus braços estendidos!
Abre os Teus ouvidos, ouve a minha voz, Senhor,
Protege-nos com o Teu Amor, somos Teus Filhos também.
O meu povo acredita que Tu falas através de mim,
Vem tratar das suas makas debaixo dos meus ramos
Os mais novos confiam nos conselhos
Que ouvem da boca dos mais velhos
Encostados ao meu tronco robusto.
Não desiludas o meu Povo, Senhor, ouve a minha voz
Que os meus braços elevam até Ti.
Nós esperamos. Sempre esperaremos.
África é, como a fizeste, Tempo e Espaço.

Gaiola dourada

O José Matias disse-me, em comentário, que tinha tido acesso a Luanda, via You Tube e que tinha ficado impressionado. Esperaria informações minhas.
Gostaria de poder responder a todos, provavelmente muitos mais do que o Zé, presumo eu (que sou muito presumida…) mas não sei concretamente qual o vídeo em causa. Fui ver o que havia, sob o título genérico de “Luanda, You Tube) e o que me apareceu de mais recente (data de 13 de Abril) é apenas uma parte ínfima de uma Luanda inexistente. Falta naquela reportagem, com um belo fundo musical, dizer que a baía não está assim, o banco de Angola perdeu a imponência entre as muitas construções de que só está defendido pela Marginal. Falta mostrar os bairros: o Cazenga, a Sambizanga, o Marçal, o Rangel, o Terra Nova, todos os velhos musseques agora superlotados (e promovidos a bairros) mas sem estruturas básicas mínimas.
Mas então por que falo de uma gaiola dourada? Porque eu considero que, embora conheça a realidade real, a verdadeira, para a encontrar tenho que sair da gaiola dourada em que me meto e me metem quando aqui estou. Seja a trabalhar nas mais longínquas comunidades das províncias do interior, quer seja num comunidade próxima de Luanda, apesar de viver sem as chamadas “comodidades” (uma cama, banho, electricidade, variedade de víveres), toda a minha gente me tenta preservar do Mal. E o que é o Mal? São os possíveis assaltos, as pedinchices profissionais, o contacto com pessoas reconhecidas como hostis à presença de brancos, de portugueses, de cristãos, um por um ou por atacado. Guardada, mimada, protegida, como uma Mamã Grande, sei, no entanto, o que se passa. Sei da prepotência de algumas autoridades, do descaminho de bens enviados, da necessidade de “comprar” alguns direitos que, como direitos, são gratuitos na sua essência. Mas também sei dos que lutam pela sua gente, pela sua saúde, por melhor qualidade de vida, que aceitam com uma gratidão que quase me envergonha tudo o que podemos ensinar. Porque, como já disse, a minha “ajuda” consubstancia-se, essencialmente, em ensinar o que sei. E estou sempre disposta a aprender para ensinar o que não sei mas é preciso saber. Porque as minhas possibilidades de acesso ao conhecimento e informação são infinitamente superiores à deles. E ainda porque só por acaso é que eu não sou um deles e perante o meu Criador, serei, certamente, menor que muitos deles.
Neste momento em Luanda, trabalhando com jovens no sentido de os preparar para lidar com pessoas em situação de fragilidade (doença, especialmente sida, velhice, pobreza extrema, orfandade, etc.), estou numa gaiola ainda mais dourada: tenho um bom quarto, banho, electricidade, alimentação variada, INTERNET (Aleluia!), o mar para me acalmar a 20 metros de casa e para eu mergulhar ao domingo a 150m. Quando vou à cidade (estou na Ilha de Luanda, para perceber a situação, o Google Earth ajuda muito), vou de carro com alguém (mas ainda só fui uma vez tratar de um assunto numa gráfica). Tenho aqui tudo, dentro da minha gaiola… Até estranho! É claro que tenho muito, muito que fazer: 4 a 5 horas de formação sobre a tal humanização dos cuidados (que já veio preparada de Portugal), atendimento de pessoas que me querem falar das suas dúvidas, dos seus problemas, dos seus sonhos. Pessoas, sempre jovens, a quem tenho e quero instilar auto-confiança, auto-estima, respeito pelo estudo e pelo trabalho, em especial. Tenho que ajudar em problemas de traduções, de aulas, de corrigir textos, de fazer pontuações. E ao pé de casa há uma escola básica grande, de onde muitos jovens já descobriram que há por perto uma Mãezinha que lhes pode dar umas explicadelas de Matemática e Português…
Mas isso não me inibe, até porque entre Fevereiro e Março estive um pouco mais de fora da gaiola, de saber que Luanda é um exemplo muito real e completo de como uma cidade pode conviver, lado a lado, em dois mundos completamente antagónicos. Creio poder afirmar sem erro que Luanda é, hoje, a cidade mais cara do mundo! É a cidade com o trânsito mais caótico e demorado que se pode imaginar, pois não se pode dizer que haja rede oficial de transportes públicos, há umas carrinhas azuis e brancas, os candongueiros, que levam as pessoas em condições por vezes bastante precárias. Até porque o seu número é enorme e os motoristas julgam-se os donos das ruas. Apenas a reduzidíssima velocidade exigida pelo volume de trânsito justifica que, apesar dos muitos acidentes, haja poucos feridos graves e ainda menos mortos, felizmente. Aqui, tudo parece andar “malembe, malembe” (devagar, devagarinho)
Os hotéis estão cheios a 101%... e o seu preço é o mais alto do mundo. Não há vagas. Porquê? Aterram diariamente no aeroporto dezenas de aviões cheios, de pessoas que precisam de ficar em algum lugar! Vêm pessoas para pesquisar negócios grandes, pequenos, médios. Vêm pessoas à procura de mudar de vida, de emprego, de horizontes. Vêm pessoas para fazer a manutenção dos equipamentos que Angola comprou em Portugal, na Alemanha, na Rússia, em todo o mundo. Os meus colegas de almoço são 4 engenheiros checos com que me vou entendendo com o inglês deles. Vem gente boa, vem gente oportunista, vem gente de toda a qualidade e procura o seu nicho nesta Babel.
Nunca, em lugar nenhum, vi a ostentação e a pobreza (não falo de miséria, que também há, mas isso, para mim, é outra coisa) tão co-existentes lado a lado. Nunca encontrei tanta gente capaz de ajudar por pura gratuitidade ao pé de quem nos quer multar por tirarmos uma fotografia de um local em que tal é permitido (depois a multa resolve-se a “conversar”, sendo que “conversar” é um eufemismo). Há violência? Há, sim. Primeiro, a “violência” do incómodo pelo pedir constante das crianças, que mais tarde se transforma em quase extorsão e, depois,, se não encarreirarem, acaba em gangue. Mas nada que eu possa, em sã consciência, achar mais visível do que em outros países. Pelo contrário.
E depois, temos sempre aquela ideia de que Angola é tão rica e, no entanto, está tão demorada a melhoria do padrão de vida: os sistemas de saúde, de transporte e, especialmente, porque está na base de tudo, a Educação, dizemos todos, deveriam já ter atingido um melhor nível. Mas a paz é recente e o dinheiro não compra o conhecimento! É preciso tempo para formar pessoas e isso é a maior dificuldade.
Todavia, eu continuo irremediavelmente apaixonada por Luanda, por Malange, por Viana, pelo Úcua, por Kibaxi, pelo Rio Kuanza, pela Barra do Dande, pelo Mussulo, pelo Cabo Ledo, pelas estradas e picadas, por estas gentes todas, pobres e ricos, bons e menos bons, porque quero acreditar que, de facto, a maior parte das vezes, “o Homem é o Homem e a sua circunstância”.
Vou contando. Zé, para ti, em especial, o pedido: identifica-me o acesso. E fica a saber que se eu tivesse que escrever uma carta ao Menino Jesus só sobre a “minha África”, Senhor meu, que tarefa imensa!

terça-feira, 20 de maio de 2008

Carta ao Menino Jesus...aos soluços (3º Soluço)


Menino Jesus, lá estive a ouvir a pequena, são coisas de coração jovem, penso que a nossa conversa de pé de embondeiro a ajudou. Obrigada por me teres mandado o Espírito Santo. Mas, continuando, chegou a altura de Te pedir que nos dês mais capacidades intelectuais. É urgente, porque parece que somos quase todos um tanto apoucados. Pelo menos a Português e a Matemática. A não ser assim, de quem é a culpa? Entretanto, deixa-me interromper esta lista de pedidos para te agradecer o que inspiraste ao Dr. Nuno Crato quando ele disse que nós não somos menos capazes mas que temos uma grande tendência de seguidismo para modernices pedagógicas que não dão em nada. Também achei que ele tinha razão ao dizer que é, principalmente, a incapacidade de saber falar, ler escrever e interpretar Português que causa as desgraças da Matemática. Eu sei que o senhor causa engulhos a muita gente, mas, na minha, acho que ele neste caso tem razão.
Portanto, apesar de saber que estou a pedir muito, atrevo-me a mais isto: dá-nos uma boa Ministra da Educação, sensata, que saiba ouvir e que não desconfie praticamente de todos os professores. Como pode alguém amar uma obra e desprezar os operários? Dá-nos, meu Menino, Professores competentes e, se possível, “fascinantes”. Se quiseres ver qual é a diferença, dá uma vista de olhos às aulas e aos bloguistas da minha caixinha de Afectos. Aí, no que diz respeito a bons Professores, Tu, Divino Mestre, sabes bem que não basta saber: é preciso amar o que se faz, ter entusiasmo (ter Deus dentro de si, que é o que quer dizer, etimologicamente, diziam os gregos). Não é para qualquer um. Sabes, às vezes, reflectindo na Tua Vida e nos Teus amigos, acho que os professores precisavam de ter a impulsividade de Pedro, o Amor de João e o pragmatismo de Paulo. Que achas? Terei razão? Além disso, temos uma língua maravilhosa e destruímo-la sempre que podemos. As orações que os homens compuseram para te louvar, Senhor, são mais belas em Português, mas se não pões mão nele, um dia destes começamos o Pai-Nosso com um ”É assim” e terminamos com um “prontos”, em vez de “Amém”.
Voltemos aos portugueses em geral. Olha que até parece má-vontade de Teu Pai, a Primeira Pessoa da Santíssima Trindade! Deu-nos um Portugal lindo (embora nós tenhamos feito os possíveis para o tornar feio, na maior parte dos casos onde metemos as mãos), deu-nos um clima fantástico, mas achou que já era o suficiente e esqueceu-se do Povo. Nascemos um bocado cansados, duvidamos antes de vermos e acreditamos em coisas que nem podemos garantir que existam. Olha, já que estou a pedir, então dá trabalho aos desempregados e vontade de trabalhar a todos, torna os empresários mais socialmente envolvidos, inspira-os a fazerem os seus negócios com rectidão. E não te esqueças de uma habilidadezinha que faça fechar as fábricas de armamento e outra que dê um enjoo natural e eficaz pelo tabaco. Tens é que pensar numa alternativa para quem fica sem trabalho, mas haverá impossíveis para Ti?
Acho que a lista vai longa e está na hora de acabar. Posso pedir mais uma coisinha? Senhor, mata a Fome do Mundo. Toda a Fome. Primeiro, a fome-fome. Depois a fome que o homem tem do Bem, tantas vezes sem o saber. A fome de Amor, a fome de Saber, a fome do Belo, a fome da Alegria, a Fome de Ti. Amem.
Desculpa o atrevimento, mas eu confio no Teu Perdão. Tua, Carmo

Carta ao Menino Jesus ... aos soluços (2º Soluço)

O que precisamos de Ti, de Ti que conheces os nossos mais íntimos pensamentos, que tens contados até os cabelos da nossa cabeça, que nos perdoas ainda antes de termos pecado, tão grande é o Teu Amor, é explicar-nos que o Amor é algo tão belo e tão perfeito que não se pode avaliar com dinheiro. Aliás, não há dinheiro que compre o Amor. Mas seria o Amor pela coisa pública que nos daria bons e verdadeiros políticos e governantes e não esta gentinha que só pensa em si própria. E nem a si ama, ou pelo menos é o que parece pelas figuras tristes que fazem, pelo ridículo a que se prestam. Dá-nos, pois, bons governantes. O Amor terminaria com a solidão dos velhos, pobres e doentes. O Amor não permitiria que se fizesse humor com o sofrimento e a deficiência. O Amor evitaria que fosse preciso haver Casas Pias ou Casa do Gaiato. O Amor acabaria com palavras como “guerra” e “fome”.
O Amor pela Verdade não poria o Natal a começar em Outubro, como se tivesses sido um impaciente prematuro. Porque nasces inteiro todos os dias, sempre que nós agimos como Tu o farias. Bem, mas agora, em Teu nome, ainda fico mais ofendida quando querem fazer de Ti um prematuro. É que, por estes tempos, até os verdadeiros prematuros terão vergonha de o ser. Para ninguém pensar que eles também fazem parte de uma famosa metáfora. Além disso, também te matam antes do tempo. Até a Páscoa, a Passagem da Tua vida terrena, através da Morte, para a Ressurreição, qualquer dia estamos a vender ao quilo, como amêndoas e pão-de-ló e ainda mais os ovos de chocolate, porque somos muito bons a aprender coisinhas assim, que não interessam “nem ao Menino Jesus”, como a gente diz, invocando o Teu nome em vão.
Senhor, faz-nos aprender o valor do Tempo, a usar o Tempo, a dar Tempo ao Tempo. É uma das maiores graças que nos podes dar. Jesus, Tu que discutias com tanto tino e profundidade aos 12 anos, com os estupefactos doutores da Lei, não tens à mão um pouco de sensatez para distribuir pelos nossos doutores de agora, de leis e de outras coisas? A sensatez também é uma forma de Amor, muito necessária em outras circunstâncias. Por exemplo: já viste como é que os portugueses estão endividados? E como continuam a endividar-se alegremente? E não achas, Senhor, uma traição social que os senhores do dinheiro recorram a tantas formas sedutoras para tentarem os pobres portugueses, levando-os a querer mais e sempre mais?
Agora, um aspecto melindroso. Nem sei bem como Te hei-de falar disto. Bem, o melhor é ir a direito e dizer claramente a que me quero referir: a sexualidade. Meu Jesus, a questão põe-se e só queria pedir-Te que pusesses um pouquinho de pudor na cabeça das pessoas. Não confundas, por favor, este pedido com qualquer intenção, da minha parte, de estar do lado dos que defendem “vícios privados, públicas virtudes”. Sei quanto abominas a hipocrisia, talvez o pecado que mais Te magoe. Mas, Senhor, um pouco mais de vergonha, menos exibicionismo, mais castidade verdadeira, tudo isso deveria, certamente, transformar-se num Amor mais amplo, que a todos envolveria sem ninguém excluir. E protege os pequeninos, Senhor, porque parece não haver quem os guarde nem ensine para o verdadeiro afecto.
(Agora, imagina, é alguém que diz que precisa de me falar em particular. Já marcou duas vezes hora e duas vezes faltou, mas não é preciso perdoar setenta vezes sete?)

Carta ao Menino Jesus … aos soluços… (1º Soluço)


Meu Querido Menino Jesus,
Desculpa vir alterar a pacatez desta fase do ano, em que faltam ainda 7 meses para Te celebrarem de uma forma que não acredito ser do teu agrado, mas és a minha última esperança. Sei que deves estar admirado por receber uma carta… Afinal, agora a maior parte das crianças nem sabe que Tu nasceste entre os homens, que mamavas no seio de Tua Mãe, dormias e choravas, um bebé como os outros. E que viveste até aos 30 anos como os outros judeus, trabalhando, rindo e sofrendo, até ao momento em que decidiste receber o Baptismo de João, foste para o deserto meditar e começaste a pregar o Amor como única Lei. Eles não sabem que nasceste da forma mais humilde imaginável, de acordo com os quatro Evangelhos e a visão que S. Francisco de Assis, o Louco de Deus, teve desse momento, ao criar o presépio. Agora só sabem de um velhinho bonacheirão, vestido de vermelho e que viaja num trenó puxado por sete renas, a quem chamam o Pai Natal. Sem desprestígio para o pobre e generoso Bispo Nicolau, que muitas vezes se deve lamentar no Teu ombro por tanta loucura, bem sabes que é apenas mais uma americanice. Tem paciência. Também Te digo que, se calhar, é uma sorte: como algumas crianças agora são educadas a quererem tudo sem esforço, acho, meu Bom Jesus, que até a Ti faltaria a paciência para tantos e tão desenfreados pedidos.
Menino Jesus, resolvi escrever-te porque sinceramente só em Ti posso ver alguma esperança para receber aquilo que Te quero pedir. Nada de concreto, em espécie ou substância, mas Tu és, precisamente, o Mestre capaz de dar o que precisamos. És o Único, aliás. Porque, meu Menino, eu quero pedir-Te bastantes coisas, mas para Portugal. Se puderes dar o que para nós peço, alguma coisa me há-de chegar a mim.
Então, deixa-me lá fazer a minha lista e não Te admires se achares que junto no mesmo saco coisas importantes com outras que o podem parecer menos. Mas também Tu soubeste receber com igual coração tanto os cordeirinhos, o leite e os queijos dos pastores como o ouro, incenso e mirra dos Magos.
Olha, para começar, Senhor, precisamos de brio. Sabes que descobri que há muita gente que não sabe sequer o que é que significa “brio”? Descobri-o, porque tenho a mania de dizer muitas vezes, especialmente àquelas pessoas que nem para aquecer querem trabalhar, que “quem tem brio, não tem frio”. Coisas que se diziam dantes, quando ainda andavas pelo mundo. Precisamos de brio, pois, de uma boa porção de amor-próprio, de muito amor pelos outros. Isso sei eu que nos podes dar, pois Tu és o Amor em si mesmo: “Não há maior Amor do que dar a vida pelos Amigos”.
(Se não Te importas, interrompo aqui, porque tenho ali uns jovens que precisam de saber lidar com a Dor. Podes dar-me uma ajudinha?)

Algumas histórias reais

Gostaria de partilhar convosco um sorriso multisignificativo ao contar-vos uma história de que tive conhecimento directo e ainda há pouco. Digamos que foi em Mumemo, Moçambique. Aqui vai ela:
A partir do ano lectivo de 2005, os alunos têm que ter aulas de Educação Musical no ensino básico e, entretanto,houve alguém, entretanto sem trabalho, que se prontificou a dar essas aulas. Perguntaram-lhe se ele estava preparado e ele disse que sim. Até se admirou com a pergunta. Afinal, na opinião dele, quem é que não estaria preparado para dar uma disciplina tão agradável? E lá iniciou as aulas, com grandes cantorias, que se ouviam em todo recinto da Escola, por sinal bem grande e que foi totalmente construída e equpada pelo governo espanhol.
Ora acontece que, para facilitar a vida aos poucos professores que há para tantos alunos, o programa já vem com planificações: nesta aula dá-se isto, na seguinte ensina-se aquilo, e assim por diante. Até que um dia a directora lhe perguntou se ele já tinha começado a ensinar a escrever e a ler na pauta. Se já tinha dado as notas. Pauta? O que era uma pauta? Parecia até uma palavra feia. Não, não tinha ensinado nada sobre essa tal pauta, de que ele nunca tinha ouvido falar... E sobre as notas, então isso não era só no fim do período? Ainda agora tínhamos começado o ano já queriam notas? E assim lá se foi um professor de música à viola.
É que o pobre pensava que a pauta era aquela folha que se preenche no fim de cada período, com as classificações obtidas, vulgo "notas". E para cantar não era preciso muito mais do que ter voz, mesmo que desafinada
Esta história, por acaso, fez-me pensar em o que é que aconteceria em Portugal se também procurássemos saber o que certos mestres o que andam a ensinar. Provavelmente, não nos espantaríamos de encontrar igualmente professores de música que não conheciam a pauta de lado nenhum, com o devido respeito pelos que sabem...
Porque, de facto, não podemos fingir que não sabemos que muita coisa vai mal entre os professores...
PS. O sorriso multisignificativo quer dizer que não é de troça: é do risível da situação a que se junta uma certa tristeza por tal circunstância poder ainda ocorrer.

domingo, 18 de maio de 2008

Será uma premonição?


Bem, é em inglês, mas é bem representativo...
Esta foto foi tirada em Kibaxi em Março. Com o pleno consentimento do próprio. Creio que, mesmo a brincar, dá para assustar um bocadinho. Ou será que basta o som das palavras? A ver vamos, como diz o cego...

Porque hoje é Domingo e eu gosto das Pessoas

O que eu desejo pra você

Desejo primeiro que você ame,

E que amando, também seja amado.
E que se não for, seja breve em esquecer.
E que esquecendo, não guarde mágoa.
Desejo, pois, que não seja assim,
Mas se for, saiba ser sem desesperar.

Desejo também que tenha amigos,

Que mesmo maus e inconsequentes,
Sejam corajosos e fiéis,
E que pelo menos num deles
Você possa confiar sem duvidar.
E porque a vida é assim,

Desejo ainda que você tenha inimigos.

Nem muitos, nem poucos,
Mas na medida exacta para que, algumas vezes,
Você se interpele a respeito
De suas próprias certezas.
E que entre eles, haja pelo menos um que seja justo,
Para que você não se sinta demasiado seguro.

Desejo depois que você seja útil,

Mas não insubstituível.
E que nos maus momentos,
Quando não restar mais nada,
Essa utilidade seja suficiente para manter você de pé.

Desejo ainda que você seja tolerante,

Não com os que erram pouco, porque isso é fácil,
Mas com os que erram muito e irremediavelmente,
E que fazendo bom uso dessa tolerância,
Você sirva de exemplo aos outros.

Desejo que você, sendo jovem,

Não amadureça depressa demais,
E que sendo maduro, não insista em rejuvenescer,
E que sendo velho, não se dedique ao desespero.
Porque cada idade tem o seu prazer e a sua dor e
É preciso deixar que eles escorram por entre nós.

Desejo por sinal que você seja triste,

Não o ano todo, mas apenas um dia.
Mas que nesse dia descubra
Que o riso diário é bom,
O riso habitual é insosso e o riso contínuo é insano.

Desejo que você descubra,

Com o máximo de urgência,
Acima e a respeito de tudo, que existem oprimidos,
Injustiçados e infelizes, e que estão à sua volta.

Desejo ainda que você afague um gato,

Alimente um cuco e ouça o joão-de-barro
Erguer triunfante o seu canto matinal
Porque, assim, você se sentirá bem por nada.

Desejo também que você plante uma semente,

Por mais minúscula que seja,
E acompanhe o seu crescimento,
Para que você saiba de quantas
Muitas vidas é feita uma árvore.

Desejo, outrossim, que você tenha dinheiro,

Porque é preciso ser prático.
E que pelo menos uma vez por ano
Coloque um pouco dele
Na sua frente e diga "Isso é meu",
Só para que fique bem claro quem é o dono de quem.

Desejo também que nenhum de seus afitos morra,

Por ele e por você,
Mas que se morrer, você possa chorar
Sem se lamentar e sofrer sem se culpar.

Desejo por fim que você sendo homem,

Tenha uma boa mulher,
E que sendo mulher,
Tenha um bom homem
E que se amem hoje, amanhã e nos dias seguintes,
E quando estiverem exaustos e sorridentes,
Ainda haja amor para recomeçar.

E se tudo isso acontecer,Não tenho mais nada a te desejar.

(Original de Victor Hugo adaptado por Vinícius de Morais)

Desejo, ainda, com todas as fibras do meu Querer
Que vos permitam ser o que desejam,
sem pesos nem medidas falsas e inúteis,
isto é, Professores,
Homens, Mulheres, Cidadãos, de corpo inteiro
(Original da Avó Pirueta, adaptado pelo meu Amor por tudo o que Deus fez)

sexta-feira, 16 de maio de 2008

FÁBULA COM CARAPUÇA

Amigos, vou partilhar convosco o relatório de uma visita de estudo


Uma fábula com carapuça, para quem o não saiba, é aquela cuja moralidade serve na cabeça de alguém. Dada esta explicação prévia, vamos à fábula:
Era uma vez uma Escola cujos pedagogos decidiram levar os seus discípulos à cidade de Atenas, à Assembleia, para que os jovens aprendessem, pelo exemplo, com os que discutem os superiores interesses do Povo. Como parecia uma missão altamente nobre, (os objectivos que se perseguiam eram os de acordar os jovens para a importância da Cidadania e os deveres dos eleitos perante os eleitores), enviaram arautos à frente. Era sua missão pedir autorização para assistir a tão importante acontecimento e, ainda, sensibilizar tão insigne instituição, na pessoa dos seus membros, para o facto de, a assistir aos seus trabalhos, estarem jovens numa idade altamente mimética.
Chegou, finalmente, o dia em que, após longa viagem, para alguns até penosa, pedagogos e discípulos se dirigiram à Assembleia. Estes estavam conscientes da transcendência do acontecimento: sabiam, a exemplo do que lhes era ensinado na Escola, da necessidade de uma postura respeitosa, da obrigação de um silêncio absoluto. Mais: embora todos tivessem ido munidos de uns curiosos instrumentos que lhes permitiam falar com qualquer pessoa em qualquer lado, (os Gregos, eram, de facto, muito inteligentes...), tinham facilmente abdicado deles, dado que era proibido utilizá-los no recinto. Era fácil provar, sem margem para dúvidas, que os tais aparelhos perturbavam os que ouviam os oradores. E os jovens sabiam que era uma falta de respeito falar enquanto outros tratavam de assuntos de relevo e de interesse geral.
À hora determinada, pedagogos e discípulos estavam à porta da Assembleia, confiantes em ir assistir a algo de memorável. O que, de facto, aconteceu. Infelizmente, não no sentido esperado.
Para grande espanto dos jovens, muitos membros da Assembleia estavam ausentes. Outros, chegaram atrasados. Parecia que, de manhã, a discussão se tinha arrastado, atrasando o almoço. Chegavam, uns atrás dos outros, aos pares e aos trios, falando com desembaraço, assinavam o livro de ponto diligentemente e… E depois, alguns saíam outra vez após escassos minutos, outros conversavam com os vizinhos sem prestar a mínima atenção aos oradores, passeavam por entre as filas de cadeiras, parando aqui e ali, outros desapertavam um tanto a toga para, mais à vontade, dormitarem na segurança das últimas filas e, finalmente, muitos, mas muitos mesmo, comunicavam com o exterior por meio de instrumentos iguais aos que os discípulos tinham obedientemente deixado nas antecâmaras. Os jovens assistiam a tudo de boca aberta, perante a aflição dos seus pedagogos e do chefe do hemiciclo que olhava ora para os seus subordinados ora para os assistentes nas galerias. Após cerca de duas horas, praticamente ocupadas com assuntos de antes da ordem de trabalhos, numa discussão sem garra nem glória, pedagogos e discípulos retiraram-se, desiludidos.
Os pedagogos suspiravam entre si: “E foi para isto que viemos de tão longe? Valia mais eles ficarem só com os nossos exemplos”.

Qualquer semelhança com a realidade não é mera coincidência nem acaso...

quinta-feira, 15 de maio de 2008

O Bambu chinês e a Gestação do Oculto


“Dizem que existe na China uma espécie de bambu absolutamente particular. Se semearmos uma semente em terreno propício, temos que nos prover de paciência… Com efeito, no primeiro ano não acontece nada: nenhum caule se digna sair do chão, nem o menor rebento. No segundo, também não. No terceiro? Nadinha! E no quarto? …Isso sim!
Só no quinto ano é que o bambu lança finalmente o seu rebento para fora da terra. Mas agora, num só ano, ele vai crescer doze metros: que “recuperação” espectacular A razão é simples: durante cinco anos, enquanto nada acontece à superfície, o bambu desenvolve secretamente prodigiosas raízes no solo graças às quais, chegado o momento, está em condições de fazer uma entrada triunfal no mundo visível, à luz do dia. (…)
O bambu chinês ensina-nos muitas e importantes coisas: Primeiro, mostra-nos que não é por não vermos que nada se está a passar. Depois, indica-nos que certas mudanças bruscas ou, por vezes, instantâneas, podem ser o resultado de uma lenta evolução que não nos é perceptível. (…)
Podemos observar o fenómeno do bambu chinês em muitos e variados domínios humanos. Ignorá-lo leva-nos muitas vezes a interpretar mal determinadas situações, seja alarmando-nos inutilmente com uma aparente falta de mudanças positivas, seja assentando a nossa calma na ausência enganosa de mudanças negativas, que não tardarão, contudo, a revelar-se.
Em matéria de educação, por exemplo, certas crianças progridem de de maneira constante e regular, enquanto outras parecem estagnar, não evoluir, acumulando atrasos. No entanto, entre elas encontram-se muitas “crianças-bambu” que, chegadas a um certo estádio da sua imperceptível maturação interior, vão repentinamente dar passos gigantescos no seu desenvolvimento, apanhando e por vezes ultrapassando aquelas em relação às quais as julgávamos atrasadas. (…)”
In “A rã que não sabia que tinha sido cozida e outras lições de Vida”, Olivier Clerc, Publicações Europa-Américo
Amigos, vim carregada de livros mas poucos trouxe, por excesso de peso, para Leitura-prazer. Trouxe comigo um pequeno desconhecido, de capa verde, cujo título me saltou à vista e acordou a minha curiosidade. Apesar de ter de me levantar às seis horas, não consigo deitar-me cedo, porque há sempre acertos a fazer para os trabalhos do dia seguinte mas isso não consegue vencer o meu hábito de quase 60 anos de ler SEMPRE antes de dormir. Encontrei lá , no tal livro, esta alegoria que achei interessante (aliás todas elas o são e se encontram nas acções mais triviais da nossa vida diária). Impressionou-me, sobremaneira, aquela frase: “não é por não vermos que nada se está a passar.” E muitas vezes nós é que não queremos ver, porque depois de saber, não se pode ignorar…
Até sempre.

quarta-feira, 14 de maio de 2008

Angola em que vivo

Os trajes tradicionais, muito coloridos, enchem os meus olhos de vontade de os ter a todos...

Luanda, 2008
Estou em Angola pela 5ª vez em 3 anos, depois de aqui ter vivido os primeiros 23 anos da minha vida. Esta Luanda já não é a “minha” Luanda, nem o deveria ser. Esta minha Luanda de agora dói-me e enche-me a alma, ao mesmo tempo. O seu crescimento desmesurado, sem estruturas mínimas, provoca um caos enorme. O tráfego automóvel é indescritível, a pobreza vê-se a olho nu.
Mas há um calor humano, uma azáfama incessante, um acreditar contra todo o desespero que me enche de Esperança. Portanto, Raul do Imenso sorriso, quero dizer-te que o prédio da Cuca ainda existe. Lembra-te de que eu sou do tempo da construção da fábrica da Cuca, na Estrada do Cacuaco. Foi o senhor Paulino, um diletante (sei-o agora) que era hóspede em casa do meu pai e o que me disse que o Menino Jesus punha presentes nos sapatinhos, que ganhou o concurso para o primeiro rótulo. Mas na Marginal, o prédio da cerveja rival, a Nocal, ainda é mais alto.
Aliás, a construção vê-se crescer minuto a minuto, em todo o espaço, a uma velocidade e custo inexplicáveis. O espaço é tão valioso como ouro e não consigo imaginar os limites do futuro.
O velho e belo Banco de Angola, ainda é imponente, no seu cor-de-rosa desmaiado por muitos sóis e chuvas. A baía, a minha belíssima e querida Baía de Luanda, aquela que mais se assemelhava a Guanabara, está a ser modificada. Raramente lá passo, mas aperta-se-me o coração ao vê-la, quase toda já tapada com areia. Dizem que é para construir um parque temático, mas, sinceramente, não sei de quê.
O Mussulo, a Corimba, o Cabo Ledo, a Ilha, continuam a ser praias maravilhosas, com água de onde não apetece sair. Nossa Senhora da Muxima continua com a sua festa a 13 de Maio, pois embora Muxima signifique “coração”, Nossa Senhora da Muxima é Nossa Senhora de Fátima.
Ontem houve várias procissões nocturnas, tão parecidas com as nossas que, se fossem de dia e com foguetes, esqueceríamos a falta do rosmaninho e pensaríamos estar a ouvir João Villaret a dizer “A Procissão”…
A Maianga ainda é uma zona nobre, a Cidade Alta está mais reservada, pois aí funciona o Palácio do Governo e várias altas instituições. O velho cinema Restauração foi abaixo e agora está lá o Palácio da Assembleia Nacional. Por detrás, o velho Parque Heróis de Chaves ainda se chama Parque Heróis de Chaves. O Hospital D. Maria Pia dividiu o nome com o da primeira esposa de Samora Machel – Josina Machel.
A Rua dos Combatentes chama-se agora Comandante Valódia, mas por cada uma pessoa que a designa por este nome há dez que lhe chamam simplesmente “os Combatentes”. A Rua D. António Barroso deve ter 50 pessoas a dar-lhe este nome em vez do que lá está na placa e que nem recordo.
Já não há o cinema Miramar, o Nacional chama-se agora “Chá de Caxinde”, o Tropical continua com o mesmo nome. O Mercado de Quinaxixe, situado no Largo do Quinaxixe, que já tinha sido chamado, não sei por que bulas, Largo dos Lusíadas e depois, Largo da Maria da Fonte (!)
continua fechado e a fazer uma falta enorme. A Livraria Lello nem chega a ser uma pálida chama do que foi, mas há-de arribar.
A antiga Câmara, sobre a Mutamba, de onde não saem nem onde chegam machimbombos, é agora o Palácio do Governo da Província de Luanda.
E o povo? O povo é um povo orgulhoso, que quer ter voz activa, que se assume como uma velha civilização, ainda que diferente. Antigas tradições estão a ser recuperadas, mesmo ao nível daquilo que se chama “as melhores famílias”: o alambamento (festa em que o noivo entrega à família da noiva uma espécie de dote ou arras - quem se lembra de “Arras por foros de Espanha? – e tanto maior quanto mais importante ele se quiser fazer ver). Os nomes antigos começam a tornar-se comuns, como Nfulu para menina (quer dizer “bonita”) ou Landas, nome masculino que significa “sábio”. Há muitas crianças, graças a Deus, as mulheres vestem com bom gosto, são bonitas, bem feitas, uma tentação para quem vem sozinho… Os homens são vaidosos, capricham no vestuário e gostam de trazer os sapatos reluzentes de graxa.
Malange, Kibaxi, Viana, Úcua, Sumbe, Gabela, muito envelhecidas porque o seu povo veio para Luanda e não mostra vontade de voltar. O sul, com o seu clima mais ameno, está a crescer mais ordenadamente e está de encher o coração.
Hei, minha gente Africana, chegou? Eu nunca me canso de falar destas terras.

O que faço por aqui?

Pôr de sol Africano, num santuário de embondeiros


Depois de percorridos mil caminhos
Para chegar a mim,
Descobri que a rota mais directa
Era sair de mim.
Muitos me perguntaram, curiosos,
“África, porquê e em que nome?
Não vês perto de ti tantos desejosos
Tantos também com Fome?”
Lembrei-me então da parábola
Em que Jesus falou das migalhinhas
Que ao cair da mesa dos eleitos
Alimentavam as bocas pobrezinhas.
Procurei, pois, fazer algo no meu espaço
Procurei dar o meu Tempo, um Bem imperecível
Mas ninguém aceitou o meu regaço,
Nem precisou do meu ombro disponível.
Quem me procurou não precisava
E a quem me ofereci não aceitou.
E África a clamar, dentro de mim,
Mais uma vez, bem alto, me chamou,
Como uma Mãe a gritar pelo filho ausente.
Tive mesmo de lhe dizer “Presente”
E vim, e fui, e vim.
Que faço? perguntam
Sigo as regras que eu própria estabeleci:
Faço o que sei, onde for preciso,
Pois esse é o trabalho que escolhi.
Numa comunidade terrivelmente pobre,
Onde terei que ser pobre também.
Não posso nem quero ser diferente,
Eles são meus Filhos, eu sou Mãe.
Aprendo e ensino a fazer Pão
Com inesperados ingredientes;
Construímos o forno, em união,
Preparamos a terra e as sementes.
Descubro em cada dia uma nova oferta
Que o Senhor me traz sem a pedir
E procuro manter a alma aberta
Para aprender a melhor amar e a sentir.
Outras vezes, procuro humanizar
Tudo o que está associado à Dor
E sinto uma alegria singular
Por cada novo gesto de um velho Amor.
“Mas o que fazes? Perguntam outra vez
E outra vez respondo sem mentir.
Faço o que é preciso em cada vez,
Faço o que me pedem sem pedir.
O que me dá mais Alegria e mais Calor
É trabalhar com mulheres e com crianças.
Gosto de sentir-lhes a cabeça no regaço,
que procurem sempre o meu Abraço,
E encho esse abraço de esperanças.
Gosto de ajudar as mulheres em seu labor.
Porque a Mulher Africana é heroína
Desde que o sol se levanta, de manhã.
São os seus ombros, ainda que menina
Que carregam as sementes do Amanhã.
A Mulher Angolana, se eu mandasse,
Teria uma estátua em cada rua.

terça-feira, 13 de maio de 2008

Será que isto serve de resposta?

Adivinhem o que isto é, antes de lerem. Aposto que não haverá muitos que acertem à primeira...

Amigos,
Hoje vou deixar a Senhora Ministra em paz e responder por este meio a todos os que me perguntam o que faço. Já enviei fotos com meninos a quem ensino, antes de mais, a ser meninos, em Viana, já mandei fotos com um grupo de mulheres de Quibaxi, onde cozinhámos em conjunto o que havia, arranjámos remédios, falámos da necessidade de espaçar as gravidezes, etc. Neste momento estou em Luanda, por acaso muito bem instalada (parece férias...), com o mar a 20 metros de um lado e a 100 metros do outro. Estou a dar 4 horas de formação por dia a pessoas sem habilitações, que fazem trabalhos hospitalares indiferenciados, e a quem procuro instilar a noção de humanização. Porque é de uma necessidade estrondosa. No dia 26 vou para uma Província que ainda não está definida, ajudar a formar mobilizadores. Para isso, escrevi o ano passado um livrinho, cuja edição foi paga por uma empresa angolana, e do qual transcrevo o ponto 5.6., Higiene pessoal e Higiene do Ambiente. Mobilizadores são pessoas mais expeditas que trabalham comigo e depois ficam responsáveis pela implementação do que aprenderam, em termos de saúde, higiene, alimentação, vida familiar, economia doméstica, etc. nas suas comunidades

5.6. Higiene pessoal e higiene do ambiente
A Higiene ajuda a prevenir as doenças, a conservar a saúde e a impedir o contágio de doenças infecciosas. Quando falamos de higiene, estamos a falar da higiene da pessoa, da roupa, dos alimentos, da casa e do quintal, se o houver. Com as crianças, praticamente desde que nascem, deve haver todo o cuidado: fraldas limpas, biberões bem lavados, roupas limpas e próprias para a temperatura, comida bem cozinhada e livre de micróbios, moscas, etc. Tome banho sempre que puder; se não puder, lave a cara, os pés e os braços todos os dias, de manhã e à noite. Use sabão azul. Lave os dentes depois de comer. Ensine o se filho a fazer tudo isto.
Use roupa lavada, por dentro e por fora, lave os alimentos antes de os cozinhar e lave as mãos muitas vezes. Estes são outros cuidados que deve ter.
Construa uma espécie de torneira com um garrafão e uma mangueira ou como se mostra na figura. (Não pude pôr aqui a figura, fica para a próxima...). Não tussa nem espirre para cima dos alimentos e das outras pessoas e não mexa em alimentos com feridas a descoberto. Cubra os cortes ou feridas que tiver.
A nossa casa deve ser arejada, estar sempre bem varrida, sem buracos por onde possam entrar ratos, cobras e insectos. O lixo atrai as moscas e as águas sujas chamam os mosquitos. Varra o seu pátio e enterre o lixo como foi dito antes. Queime folhas de eucalipto, nime, laranjeira, limoeiro ou outras ervas ou folhas do mato com bom cheiro, porque além de perfumarem a casa afastam os mosquitos. Quando lavar a louça, é melhor deixá-la a escorrer do que secar com panos. Mas cubra-a por causa das moscas e outros animais.
Uma das maneiras de termos realmente higiene no lugar onde vivemos é termos latrinas, se não pudermos ter retretes.
Uma latrina deve ser construída perto de casa mas nunca a menos de uns 20 a 25 metros de qualquer local onde haja água, para não estragar a água. Pode fazer-se com chapas de zinco, tijolo, blocos e cobrir o tecto com o que for mais fácil e útil ao mesmo tempo. A fossa da latrina deverá ter uns três metros de fundo por um de abertura. Um bidão velho, metido no solo e depois coberto também pode servir. Pense na cobertura da fossa, onde vai fazer o buraco para as fezes caírem dentro dela. O buraco não pode ser muito grande por causa das crianças e arranje uma tampa com alça para levantar e baixar.
De vez em quando deite um pouco de terra ou cinzas para cima das fezes. As cinzas vão afastar as moscas e o mau-cheiro e ajudam a formar estrume que depois vai tornar a terra mais rica e produtiva. Ensine as crianças a usar a latrina, a limpar-se e a ter cuidado depois: lavar as mãos. Ensine as meninas a limparem-se da frente para trás, porque assim evita a passagem dos micróbios para a vagina. A saúde, sua e dos seus filhos, é aquilo que, para si, deve ter mais valor.
Ajude-nos a ajudá-lo, a si e à sua comunidade.
Aprenderam alguma coisa? Poiséu aprendi a construir latrinas, fornos e coisas assim, para poder ensinar. Sabem, ninguém me ensinou isso na Universidade. Mas eu sempre pensei que a universidade era para nos ensinar a pensar e a agir. A fazer, aprendemos depois, na Vida. Meus Queridos, façam o favor de ser felizes!

segunda-feira, 12 de maio de 2008

Sugestões para a Senhora Ministra da Educação

Senhora Ministra da Educação,
Excelência,

Estou a escrever-lhe de Luanda, Angola, e creio que a distância física a que nos encontramos me dá a objectividade necessária para lhe dar umas pequenas ideias. Fartei-me de comprar livros para aprender a fazer xaropes com plantas, a descobrir as últimas ervas comestíveis, a ver o que se pode dizer e fazer para humanizar pessoas a quem as necessidades prementes de viver, paradoxalmente, desumanizaram. Foi nesse afã que tentei encontrar uma obra com dicas para Ministros da Educação, mas a procura deve ser pequena, porque não encontrei nada, depois de buscar neste mundo e no outro. No entanto, fortalecida com este sentimento africano de que os seniores valem por si só e têm o respeito de todos como “mais velhos”, atrevo-me a pedir-lhe autorização para lhe enviar algumas conclusões a que cheguei nesta já longa vida de mestra e aprendiz, assim como algumas sugestões.
E além disso, com estas, os Amigos da minha Caixinha de Afectos vão ficar a saber que estou bem e me recomendo. Ah, se a Senhora Ministra não se importasse, faria aqui um pequeno desvio só para dar uma Abraço especial ao Existente Instante (a Senhora sabe que nós, os bloguistas, aproveitamos para nos crismarmos e eu acho este nome de uma poesia imensa, embora não seja o único). Pois, meu Querido Existente Instante, foi a surpresa mais bonita que recebi, assim que me consegui organizar em termos de Net. O que não foi fácil… Mas o facto de teres interrompido a tua suspensa espera para me mandares um abraço foi um verdadeiro presente. Desculpem os outros Afectos da Caixinha, mas eu sempre apreciei a parábola do Filho Pródigo e encontrei uma vaga similitude entre as situações…
Primeiro, Senhora Ministra, queria sugerir-lhe que pusesse alguém do Ministério a ler blogues. Vai ver a categoria de Professores que tem e vai fazer-lhe bem. Porque eu tenho cá uma impressão de que nos Ministérios se esquece como é a Vida real. Por isso, eu concordo com a Avaliação. Mas AVALIAÇÃO como deve ser, para separar (e premiar) os cavalos dos burros. Não para humilhar nem vender formações esquisitas, como já começa a aparecer.
Depois, queria dizer-lhe que considero que a Educação é o mais importante Ministério do Governo, porque é na Educação que está o futuro. Poderia e deveria bater o pé nas reuniões, falar grosso e fazer-se valer. Mas para isso precisaria de ter o que não tem: uma quantidade de gente capaz (Professores, claro) por detrás, a dar-lhe apoio. Sabemos que tem o apoio do Primeiro-Ministro, mas olhe que nem sempre “vale mais ser Ministra por um dia do que Professora toda a Vida”, que me perdoe D. Luísa de Gusmão.
Lembre-se de que ninguém sensato faz obras de fundo em casa com os móveis e a família lá dentro. Se o faz, é barafunda na certa e as obras não acabam em bem. E se os obreiros não estiverem consigo, nunca mais chega a lado nenhum.
Não siga aquele dito (não é ditado) que refere que "antes faça mal do que se estrague". Em Educação é mais do que perigoso - pode ser criminoso.
Feche para balanço, como fazem as empresas, e seja realista. Como não se pode fazer tudo ao mesmo tempo (nem se deve), comece pelo princípio: reorganize completamente o ensino pré-primário e o 1º ciclo. Para fazer essa reorganização, não convoque uma comissão muito grande. Grande nau, grande tormenta. Quando há muita gente, a responsabilidade dilui-se. Escolha poucos, mas bons.
A maior parte dos membros dessa pequena comissão haveria de ser composta por professores desse nível escolar, embora deva ter alguns outros elementos para ter uma visão externa e de conjunto, com especial realce para os que vão pegar nas crianças no ciclo segionte.
Ouça os Pais e os Professores, o que não quer dizer forçosamente que tenha que ouvir os sindicatos. (Manterei esta opinião até ver os sindicatos defenderem outra coisa que não sejam direitos, sem se pronunciarem sobre deveres). Mesmo no caso dos Pais, desconfie dos dirigentes de Associações de Pais "profissionais". (A maior parte das vezes estão mais interessados no facilitismo do que na Educação dos seus filhos e educandos).
Quando remodelar (porque um dia lá terá que ser…) aqueles órgãos intermédios, que, muitas vezes, só andam a empatar-se uns aos outros, não "devolva" os técnicos que os constituem à Escola. Deveria dar-lhes possibilidade de escolherem se querem mesmo voltar. A Senhora Ministro sabe muito bem que muitos deles se transformaram nisso porque não gostavam de ser professores.
Assim, aqueles que demonstrassem não ter, de facto, perfil para educar, para formar, poderiam ganhar o mesmo e ficar numa espécie de limbo, a fazer umas coisas que têm que ser feitas e ocupam pessoas mais válidas. Por exemplo, fazer as estatísticas, confirmar os dados dos concursos dos professores, etc….
Dos programas do ensino pré-primário faria obrigatoriamente parte a aprendizagem de regras simples como cumprimentar, responder ao cumprimento, agradecer, pedir por favor, sentar-se quando a tarefa assim o exigir, partilhar e ser feliz.
A regra acima obriga a fazer um exame aos educadores para verificar até que ponto estão aptos e dispostos a fazer cumprir o programa definido, mas obrigatoriamente com Amor e Alegria. Nesse caso, seja exigente, porque estes são os verdadeiros alicerces. E como a oferta é maior (pelo menos, parece) do que a procura, quem não servir que vá fazer outra coisa.
Mande avaliar as Escolas Superiores de Educação. Quantos dos seus mestres já estiveram em situação normal de aula de crianças com que vão trabalhar os seus pupilos?
Pense em impor uma regra derivada da situação acima: todos os professores de professores deveriam dar aulas um ano nos níveis para que preparam os futuros professores. Para que não se repita aquela anedota “tu não sabes e eu já me esqueci”.
Quando os pais fecharem as escolas a cadeado, faça cumprir a lei, pois julgo que se incorre em duas faltas: actuação abusiva sobre bens do Estado e impedimento do exercício das acções para educar, que são obrigatórias até ao fim do 3º ciclo, pelo menos por agora.
Aliás, não se preocupe muito com estas acções ou com as greves. Preocupe-se com o que lhes está na origem e, se houver fundamento, seja Grande e corrija os erros. Não há nada que se pague mais caro do que erros em Educação e a prova está aí à frente de quem quiser ver.
Não permita que haja pessoas a “ensinar” que digam "há-des", "tu fizestes" ou "póssamos" e que não gostem de ler. Nem de sorrir.
Senhora Ministra, não quero abusar do seu tempo, mas ainda tenho mais no meu baú de Avó. À disposição de V. Exa. despeço-me com os mais respeitosos cumprimentos, Maria do Carmo Cruz

PS. Desculpe não levar imagem mas estou com uns problemazitos...

sexta-feira, 9 de maio de 2008

Deixem dizer-vos hoje

Era uma vez uma Pessoa que descobriu que não poderia viver sem Amor (talvez porque soubesse o que era). Mas ela tinha Amor à sua volta: dos Filhos, dos Amigos, e ainda de tanta outra gente que ela já não sabia destrinçar se eram Filhos, se Amigos. Mas faltava-lhe alguma coisa: a Escola, especialmente uma Escola viva e, de uma forma quase dolorosa, o convívio com os jovens, os Alunos.
Faz o que pode para colmatar esse vazio e uma das vias que usa é visitar a sua última Escola. Lá, sem o saber, recebeu um presente imenso: disseram-lhe que “se fosse ao terrear era capaz de encontrar gente com as preocupações dela”. E até iria encontrar muitas grelhas de avaliação, porque o José Matias Alves (“lembras-te?”, perguntaram-lhe então) era o “dono do blogue”. Bem, a necessidade das grelhas não vem ao caso, até porque não tem nada a ver com Professores.
E essa vossa Amiga foi ao terrear e apaixonou-se por uma quantidade de gente: primeiro, o Zé, que conhecia, mas superficialmente, de outras guerras. Depois, em catadupa, a Fátima André, o Raul do Sorriso Imenso, a Anabela do Tâmega, a Teresa do Lindo Nome, o Existente Instante, a Isaura das partilhas, a Renard que a vê lendo-a, a Teresa de Dusseldorf, a Elsa do retrato sinestésico, a Rosário que perdeu o ânimo (momentaneamente, espera-se) e até, sempre com tanto gosto, o cumpadre do Oeste. E depois, quando notou que poderia estar a perturbar os blogues por onde se andava a aninhar, ela resolveu criar o seu próprio blogue.
Essa Mulher feliz sou eu, a mesma menina que não teve a boneca que pediu no seu primeiro Natal. O que só prova que tudo pode mudar para melhor (Zé, esta conclusão é para juntar à tua parábola dobre a justiça da Justiça). Mas é para todos que estou a escrever. É a todos que quero agradecer a porta que abriram para eu entrar, as boas vindas com que fui recebida, as vossas palavras sempre embaraçosamente gentis. Como já disse à Isaura, o meu corpo, objecto físico, vai partir, mas o meu espírito, múltiplo e infinito porque é uma chispa do Espírito que o criou, fica convosco mesmo indo comigo.
Vou ter, certamente, menos tempo para reflectir e partilhar as minhas reflexões convosco. Ou não… Afinal, nada é definitivo! Mas vou ver-vos todos os dias, vou sentir-me não só a Amiga mas também a orgulhosa Mãe, Irmã, Avó (lembremo-nos dos Corações Adolescentes do Raul e especialmente da Vera e também do Maracujá da Anabela), de todos vós. E Colega, mas assim mesmo, Colega, com letra grande. A sentir as vossas alegrias, tristezas e angústias
Quero deixar-vos uma mensagem de Esperança. Aliás, quero devolver-vos, acrescentada, a Esperança na Educação que me deram e que tão profundamente vos agradeço. As coisas estão feias, reconheço. As dificuldades são muitas, não duvido. As deserções doem, eu sei. A falta de reconhecimento pela função do Professor é injusta, sinto-o na minha carne também.
Mas, mesmo assim, eu julgo que os Professores são a última Esperança deste Portugal que se estilhaça em coisas mesquinhas. Nós, Professores, nunca usámos a força que temos, em comunhão (como no dia dos 100.000) para revolucionar. E precisamos de ser revolucionários. Não só por uma Avaliação justa. Não só por nós, mas pelos nossos jovens, todos, mesmo os que nos desesperam (esses mais do que ninguém), pelos que não têm maneiras, pelos que são grosseiros, violentos, indiferentes.

Vocês todos, aqui nomeados, são a minha Esperança no Futuro dos meus netos. E esse é, para mim, o melhor elogio que vos posso deixar.
Um abraço apertado da Avó Pirueta.
PS. Por me orgulhar disso, aqui vos mando mais alguns nomes por que sou conhecida: Mãe Bom-Dia, Mãe Descomplica, Irmã. São só alguns…


quinta-feira, 8 de maio de 2008

Um dia tive seis anos e não sabia...

Um dia tive seis anos e era véspera de Natal.
Alguém me perguntou onde é que poria os meus sapatos.
Os meus sapatos? Os meus únicos sapatos, de pano, castanhos?
“ - Ah, disseram-me, não sabes, não faz mal.
Podes pô-los em qualquer lugar,
Porque o Menino Jesus há-de adivinhar.”
E para que queria o Menino Jesus os meus sapatos?
Eu só tinha aquele par…
E depois, o que haveria de calçar para levar para a Escola?
“ - Não te preocupes, Menina. Ele é que tos vai encher
Daquilo que o teu coração quiser.”
“ - Sim? Então, uma boneca, pode ser?
Não tenho uma boneca. Só quero uma boneca!”
“ - Sim, esta noite, dorme bem,
Porque Ele não gosta de acordar quando vem
E gosta de dar quando ninguém vê.”
“ - Ai, sim? Então porquê?”
“ - Porque Ele é Jesus, Filho de Deus, é Deus e nosso Irmão.”
Ai, com que alvoroçado coração
Me fui deitar naquela noite longa.
Fechei os olhos com força, com vontade,
E de manhã acordei para a verdade:
Os meus sapatos estavam lá, como os deixei,
Vazios.
Procurei no quarto todo, era tempo do calor
Mas os meus ossos estavam frios.
Esta recordação apenas para lembrar
Que é preciso cuidado ao prometer
Porque depois se espera receber.

terça-feira, 6 de maio de 2008

Acabou-se, disse a Raposa ao Lobo

Pronto, aqui vão as últimas. Aceito, de bom grado, todas as críticas construtivas e com paciência cristã as outras...
21. Nunca deixe o quadro por limpar. É um mau exemplo e uma falta de consideração pelo Colega e alunos que vêm a seguir.
22. Não comente as aulas, atitudes ou estratégias dos seus Colegas. No entanto, se lhe parecer que algo de grave se está a passar, não ignore. Fale, discretamente, com o Director de Turma para ver o que se passa.
23.Tenha cuidado em não manifestar preferência ou má vontade contra quaisquer alunos, individualmente, ou na globalidade da turma. Além de ser um procedimento deselegante, é altamente desmotivador.
24. Se tiver alunos que, de forma clara, se distinguem pelas suas capacidades, não deixe de os ver só porque eles sabem. Desafie-os: dê-lhes trabalhos ou problemas mais exigentes, peça a sua colaboração para explicar alguns assuntos, mas tenha o maior cuidado em não lhes alimentar o ego. Aliás, só deve recorrer a estas estratégias se o aluno estiver de acordo. Quando não se actua, a maior parte das vezes, estes alunos consideram-se "invisíveis" para o Professor, sentem-se abandonados e desmotivados, e chegam a detestar a Escola.
25. Promova trabalhos de grupo, porque o Aluno vai precisar de saber trabalhar com outros na vida profissional, no mundo do trabalho. Mas esteja atento e não deixe que alguns se aproveitem do trabalho que não realizaram.
26. Embora, como se disse, as mudanças sejam contínuas e rápidas, saber trabalhar para realizar um projecto é uma ferramenta indispensável para o futuro. Se não conhece as técnicas, esteja atento, porque há obras que tratam do assunto e há acções de formação apropriados.
27.Participe nas actividades não lectivas, tais como visitas de estudo, semanas temáticas, festas da Escola, seminários ou palestras. A sua presença será especialmente importante nas actividades organizadas pelos alunos.
28. Quando for solicitado a dar opinião ou a participar em iniciativas dos Alunos, procure corresponder, mas não faça o trabalho por eles. Ajude-os a assumir as suas responsabilidades.
29. Se os alunos demonstrarem, da forma adequada, que desejam discutir determinado assunto na sua aula, não diga logo que não: muitas vezes, essas conversas, desde que as não deixemos descambar para a brincadeira, são mais importantes do que os conteúdos programáticos. Tenha apenas cuidado para que eles não se entusiasmem a querer repetir a receita com muita frequência. Aliás, faça-lhes ver que a sua cedência, ainda que justificada, exige uma contrapartida - terão de estar mais atentos e participar mais activamente nas aulas seguintes para não descontrolar o seu planeamento.
30. Saiba estar. Isto é, vista com bom gosto, sobriamente, sem pedantismo. Sente-se, levante-se e caminhe de acordo com as regras da boa educação. Lembre-se de que, para a maior parte dos seus alunos (mesmo de muitos que vêm em carros de luxo), os professores são, praticamente, as únicas referências para aprenderem a estar e a agir de acordo com as regras de boa educação.


Bem, aqui deixo as minhas sugestões. Não tratam de avaliação, não estão escritas em eduquês e, lendo os comentários aos blogues da minha caixinha de Afectos e outros mais desafectos, pensei que talvez não fossem descabidas. Se o forem, desculpem qualquer coisinha...

Aqui vão os 10 do meio...

Cá vão mais 10. Nada do outro mundo, como verão:
11.Seja amável. Sorria, mas seja firme, se for caso disso. Não siga aquele velho conselho de "não mostrar os dentes até ao Natal".
12. Muitas vezes, infelizmente, vai ter alunos difíceis. Peça ajuda adequada para agir com segurança mas lembre-se de que, a maior parte das vezes, a insubordinação, a má educação, o mau comportamento, a falta de hábitos de trabalho acontecem porque nem os pais nem os outros professores antes de si se preocuparam com as Pessoas que existem dentro dos alunos.
13.Leia pelo menos um bom jornal nacional por dia. Além de ficar a par do que se passa, há sempre numerosos assuntos que nos podem servir de introdução ou motivação às aulas.
14. Sempre que se proporcionar, pergunte coisas aos alunos sobre assuntos que eles dominam e "deixe-se" ensinar. Da música ao futebol, das novas tecnologias às linguagens codificadas, há todo um mundo que pode descobrir. E é importante saber o que interessa aos alunos.
15. Por favor, não considere que a sua disciplina é a mais importante de todas e nunca, mas nunca, faça qualquer referência de menos consideração por qualquer outra disciplina.

16. Faça um esforço para saber como é que a sua disciplina pode interagir com outras. Promova reuniões com outros professores e não julgue que as interacções só podem ocorrer em disciplinas afins. Se aprofundar esta ideia, não lhe faltarão surpresas.
17.Seja cordial: cumprimente os seus alunos ao entrar, despeça-se quando sai, deseje bom fim-de-semana nas aulas de sexta-feira, peça o que tiver que pedir por favor e não se esqueça de agradecer.
18. Exija limpeza na sala e não se coíba de mandar limpar quem suja, seja o tampo da carteira com mensagens bonitas ou feias, seja lançar papéis para o chão.
19. Do mesmo modo, utilize linguagem adequada e não permita o uso de termos grosseiros ou indelicados perto de si.
20.Lembre-se de que não é apenas Professor dentro da sala de aula. Também o é nos corredores, no bufete, no refeitório, no recreio. Aja sempre como tal e não finja que não vê coisas que não permitiria na sua sala de aulas.

Desculpem a presunção

Amigos, todos nós sabemos que as opiniões e os conselhos se dão, o que, para muita gente, não é grande elogio. Este é o primeiro Mas. A seguir, preciso de confessar que não tenho a certeza de estar devidamente actualizada. No entanto, ouso publicar aqui, dividido em três postagens (será assim que se diz?), para não cansar, 30 conselhos que "arrumei" há uns 5 ou 6 anos para quem quisesse ser professor. Aqui vão os 10 primeiros:
"Há uma obra de Robert D. Ramsey, "501 Dicas para Professores", publicado pela Replicação, que gosto de abrir, numa página qualquer, e ler. Faço-o quase sempre com um sorriso e aquele menear de cabeça que significa "é isto mesmo!"
Ora, sem querer plagiar a referida obra, que tem como subtítulo " Ideias, estratégias e sugestões devidamente testadas", eu gostaria de pedir, humildemente, autorização para que me deixassem também apresentar alguns conselhos e sugestões. Vamos a isto:
1.Por favor, vá para Professor por gosto e vocação. Nenhuma licenciatura fará de si, de per si, um bom Professor. Além de que será, certamente, um ser humano infeliz, o que se repercutirá nos seus alunos.
2.Seja optimista - as coisas podem sempre correr melhor do que nós pensámos.
3.Seja franco - se estiver doente ou mal disposto, seja sincero e diga aos seus alunos que tem os seus próprios problemas e espera que eles não compliquem. Os jovens podem ser muito generosos.
4.Cultive-se - tudo avança e se modifica a alta velocidade, especialmente no campo do conhecimento. Não se deixe ficar para trás. Actualize-se continuamente. O lema agora é "aprender ao longo da vida".
5.Ensinar e aprender é Trabalho, mas não é uma expiação. Não precisa de usar muito "folclore" mas lembre-se de que já lá vai o tempo do "magister dixit". Estude a sua "gente", descubra estratégias e materiais, puxe por eles. Fale com Colegas e partilhe ideias e não só.
6. Faça os possíveis por mostrar que aquilo que ensina tem utilidade e, por favor, nunca menospreze a importância da sua disciplina.
7.Lembre-se de que um Professor é sempre Professor de Português. Use o registo de língua adequado à situação de aula e tenha um cuidado extremo naquilo que escreve.
8.Se pensa ou sabe que tem problemas de expressão escrita a nível de ortografia, estrutura frásica ou pontuação, aja de imediato. Adquira os livros que o podem ajudar, peça ajuda a amigos muito especiais e de confiança, use o corrector ortográfico do computador e leia bons autores portugueses. Dos que sabem mesmo escrever.
9. Tenha o máximo cuidado ao redigir os testes. Como sabe, há regras. Respeite-as. Seja claro no que pede, não utilize vocabulário que não usa normalmente nas aulas, parta do mais fácil para o mais difícil, dê sempre a conhecer a cotação de cada questão porque os alunos poderão ter necessidade de optar por uma ou outra questão, se tiverem problemas de tempo e não se esqueça de uma ou duas questões para que alguns alunos possam mostrar a diferença.
10.Não demore semanas a corrigir os testes e, se marcar trabalhos de casa, faça a sua correcção. Os alunos respeitam mais facilmente um Professor que entrega os testes com a brevidade possível e faz a sua correcção formativamente, isto é, de modo a que ela sirva para que os alunos aprendam o que não sabiam ou corrijam alguma ideia errada.
(Por motivos óbvios, ando um pouco atrapalhada com o tempo. Ainda não aprendi a fazer apresentações de jeito. Em Julho, se Deus quiser, vou aprender.)

Parábolas de sempre - Jesus e o futebol

No blogue Revisitar a Educação, a Fátima postou uma parábola de hoje. Lembrei-me, ao lê-la, de que eu tinha a mania de andar com um daqueles livrinhos do Padre Anthony Mello na carteira. Para quê e porquê? São pequeninos, podem ler-se em qualquer lado, quase não ocupam espaço e, de vez em quando, davam-me muito jeito. Imaginem um dia em que, como a Catarina muito bem disse, “Professora, hoje estamos todos com as hormonas muito agitadas”.
Resposta: “Caríssimos, para acalmarem, vou fazer um pequeno intervalo e ler-vos uma história”. E lia mesmo. Às vezes, ficávamos a dissecá-la, outras vezes a história já era lida com a promessa de que ficaria para conversa de intervalo.
Pois vou contar (não transcrever, porque os livros andam todos emprestados) a parábola de Jesus e o futebol. Sei-a quase de cor:
Soubemos, eu e alguns Amigos, que Jesus nunca tinha visto um desafio de futebol e resolvemos levá-lo a assistir a um jogo entre Católicos e Protestantes. A tarde estava magnífica, o campo estava cheio de adeptos calorosos e as duas equipas jogavam denodadamente, os Protestantes vestido de xadrez banco e preto e os Católicos de azul e branco.
De repente, os Católicos marcaram um golo e Jesus entusiasmou-se: gritou, bateu palmas, levantou-se do lugar, atirou o chapéu ao ar. Uma alegria.
Mas, daí a pouco os Protestantes marcaram também e Jesus fez a mesma coisa: gritou, bateu palmas, levantou-se do lugar, atirou o chapéu ao ar.
Olhámos uns para os outros e um dos Amigos que estava mesmo por detrás de Jesus tocou-lhe no ombro para lhe chamar a atenção e perguntou: “- Então, como é isso? Por quem é que estás a torcer?”
Jesus respondeu calmamente: “Torcer? Mas eu não vim torcer por ninguém, eu vim ver o jogo, vim divertir-me”.
A parábola não acaba aqui mas eu confesso um truque: quando a lia no 10º ano acabava aqui e ela já dava pano para mangas.
Logo no princípio do 11º ano, para ver quantos “centímetros tinham crescido por dentro”, eu arranjava – era tão fácil - maneira de voltar a ler a história e era interrompida pouco depois: “- Professora, essa já conhecemos. ”
“- Não conhecem o fim, que vos vou ler agora: Então, o Amigo que tinha interpelado Jesus virou-se para os que estavam ao lado e disse: Olha, mais um ateu!”
Pois é: somos crentes e ateus, sempre, ao mesmo tempo. Depende daquilo em que queremos acreditar. Mas esta é apenas uma das milhentas conclusões possíveis.

segunda-feira, 5 de maio de 2008

Gostei!

Hoje fui ao meu Centro de Saúde pedir um atestado de robustez física. Fui aprovadíssima, graças a Deus. Este atestado, com outra documentação de que ando a tratar, talvez (um talvez muito talvez) me livre de andar sempre em viagem, isto é, me permita permanecer mais tempo legalmente nas minhas Áfricas. Eu compreendo as razões destas leis da emigração: é claro que é suspeito uma velhinha como eu andar sempre a correr para o consulado… Outro dia, um outro “freguês” que esperava também a vez e já me conhecia da sala, perguntou-me, penso que (não juro) a brincar: “Você faz contrabando de quê?” e aquele diabinho bom que tenho respondeu imediatamente: “Olhe, de petróleo! Levo para lá um garrafão cheio de água e trago-o cheio de petróleo!”
Bem, mas o que interessa é que enquanto estive à espera de vez no Centro de Saúde, limpo, com duas funcionárias pacientes, li o jornal E consolei-me! Nas páginas 22 e 23 do Público, Avelino Leite, delegado regional do Norte do IEFP, diz ali umas verdades como punhos! (Por que se dirá isto? Gostaria de saber!) Ele atreve-se a dizer que é preciso levar os jovens a optar pelas profissões tradicionais. Não está a dizer para os nossos jovens irem como aprendizes praticar para serem carpinteiros ou sapateiros, como os seus Avós. E farta-se de dar exemplos concretos. É claro que fala dos cursos intermédios, mas com uma sólida base de formação académica. Que possa servir de lastro se e quando, no futuro, o jovem quiser ir mais adiante. Recomendo.
Depois, o Director, José Manuel Fernandes, no seu editorial (página 42) “Finlândia, Portugal ou como nunca aprendemos o essencial”), bem, esse deu-me um certo gozo, porque até parece que leu o meu poste do dia 1, a carta que mandei à Senhora Ministra. Mas já ontem, nas Cartas ao Director, uma Professora de Setúbal tinha arregaçado as mangas e dito umas verdades muito bem ditas. Baseada em factos que seriam cómicos se não fossem trágicos.
Ouvi dizer que os ministros têm, entre os assessores, um ou alguém à sua responsabilidade, que lhes dá conta do que os jornais dizem a respeito de cada Ministério. Será verdade? Há censura prévia na selecção para não incomodar Suas Excelências? Começo a duvidar de que o tal cargo exista… ou de que não haja censura prévia…

O Tempo é tão relativo!

Parto para Angola no próximo sábado. O tempo resolve correr desenfreadamente e eu procuro não me assustar. “Já levas os livros de Inglês que o Paulo pediu? E a camisola do Sporting para o Dudu? Já escreveste o texto para ler no dia 12 na sessão de abertura da Comemoração da Semana de Enfermagem? Já puseste na mala aquele livro sobre plantas curativas? Já…?”
Tenho que aproveitar bem o tempo que o banco me dá para hoje. Por isso, vou partilhar com os que, por acaso, não conheçam esta parábola dos tempos modernos:
Imagine que existe um BANCO que, todas as manhãs, adiciona à sua conta 86.400 euros. Este banco, contudo, não transita saldos de um dia para o outro, não permite acumulações: quem usou, usou e quem não usou, perdeu! Todos os dias abre uma nova conta. Todas as noites elimina os saldos do dia anterior.
Se não utilizar o seu saldo diário, você é o único a perder, pois não tem uma segunda hipótese de utilizar o que sobra. Não existe reforço do saldo diário: por isso devemos viver o presente com o saldo de hoje. O que faria?... Imagino que retiraria todos os dias a quantidade que não tinha gasto, não é verdade?
Pois bem: todos nós temos um banco assim: …… o seu nome é TEMPO.
Todas a manhãs, o Banco do Tempo adiciona às nossas contas pessoais 86.400 segundos.
Todas as noites, esse mesmo banco retira das nossas contas e dá como perdida qualquer quantidade do saldo em tempo que não foi usado em algo proveitoso.
• Para entender o valor de um ano, pergunte a um estudante que reprovou nos exames.
• Para entender o valor de um mês, pergunte a uma mãe que olha para o seu bebé prematuro...
• Para entender o valor de uma semana, pergunte ao operário que não recebeu o salário semanal…
• Para entender o valor de uma hora, pergunte aos namorados que esperam para se encontrar...
• Para entender o valor de um minuto, pergunte ao viajante que perdeu o comboio...
• Para entender o valor de um segundo, pergunte a uma pessoa que esteve quase a ter um acidente...
• Para entender o valor de um milésimo de segundo, pergunte ao desportista que só ganhou a medalha de prata nas olimpíadas
O TEMPO NÃO ESPERA POR NINGUÉM…!