Sinto que preciso de dizer algumas palavras, essenciais e imprescindíveis, para todos os que lêem o meu blogue e que, a pouco e pouco, deixaram de ser meus leitores e se transformaram em Amigos. E o que preciso de vos dizer é isto:
Amigos, eu sou eu e não quero ser aquilo que escrevem sobre mim. Tenho que vos explicar, por que me sinto embaraçada, por que sinto um certo pudor ao ver a minha vida apresentarem como se fosse algo de transcendente.
Não desejo isso, não quero nem posso ser exemplo para ninguém. Tenho muitos defeitos e houve também muitos erros na minha vida. Ser Pessoa, julgo eu, é ser assim. Não sou santa nenhuma: sou impaciente para com os lentos, por exemplo. Nem sequer tenho a certeza de ter sido uma boa Mãe, eu que sempre quis ter Filhos e que me orgulho deles até à medula. Gostaria de ter sido mais discreta em muitos momentos da minha vida. Nem se fui boa esposa de um Marido perfeito.
Tive uma vida difícil? Sim, os meus pais eram muito pobres e tiveram uma vida muito dura. Costumo sempre ter o cuidado de dizer que não eram maus: eram pobres. Mas eu devo ter tido um Anjo da Guarda especial, porque estava sempre ali, a segredar-me aos ouvidos o que deveria dizer para obter o que queria, nem que fossem uma mentirinhas…
Sou perseverante, é verdade, mas isso é mais teimosia do que outra coisa. E depois aquelas leituras na meninice (inexistente) mostraram muitos lugares, pessoas, situações, que eu queria conhecer. E não seria no musseque, casada aí com uns 16 ou 17 anos (“este clima puxa muito por elas, quanto mais depressa casarem, melhor”… era o raciocínio reinante), com o primeiro pretendente que desse jeito à economia familiar que eu iria descobrir o mundo. Teimosa, teimosa, venci o meu pai pelo cansaço.
Depois, Deus começou a interferir directamente. Teve pena de mim e no dia 15 de Abril de 1958 tive um grave acidente de viação. Muito grave. Podem pôr gravidade à vontade… Tornei-me quase a mascote do Hospital Maria Pia, aqui em Luanda. Chorei quando fui para casa.
Por causa desse acidente tive que ir a Portugal, em 1960 e conheci o meu Marido, no dia 29 de Abril desse ano, às 18.50h, no alto de uma serra, onde parava a camioneta que me trazia de Coimbra. Foi Amor à primeira vista. Andava no antigo 5º ano e tinha 18 anos. Voltei para Angola, fiz o 6º e 7º, acabei no dia 19 de Agosto de 1962. Continuei a trabalhar em casa, isto é, na loja, porque a loja e a casa interpenetravam-se. No dia 9 de Janeiro de 1962 o meu Marido chegou a Angola. Mexi-me para ele ir, mexi-me para lhe arranjar emprego, eu própria fui trabalhar como dactilógrafa no Tribunal de Relação de Luanda, entre 20 de Agosto de 1962 e 28 de Fevereiro de 1963, (ganhava 2400$00), casámos no dia 7 de Março de 2003, uma quinta-feira. Ele não compareceu. Tinha ficado enterrado com um jipe do estado nos cafunduns de Judas mas conseguiu avisar. E eu consegui convencer o padre Luigi a casar-me com o meu pai. Éramos meia dúzia de Amigas. Dos de até hoje.
Depois, ele, o meu Marido, deixou-me abrir, incentivou-me, lisonjeou-me, criou todas as condições para eu florescer. Sempre. Sempre. Sempre. Trabalhei muito, mesmo muito. Não sei se fiz bem. Tinha medo, porque tinha três filhos e havia uma nuvem por cima da nossa cabeça como casal sob a forma de uma doença degenerativa da espinal medula. Esses medos estiveram sempre connosco, nunca os partilhámos com ninguém, praticamente.
Volto a acusar-me de ter trabalhado demais, fora de casa. Aquela infância trabalhosa tinha-se tornado um vício e eu fazia muitas coisas. Julgo (mas a julgar já morreu um jumento…) que, por orgulho, fazia demais para ninguém me acusar de falhar nuns lados para brilhar nos outros. Afirmo-o, pois as testemunhas estão vivos. Tenho um imenso orgulho de ter sido Professora, amada, estimada. Também tenho as testemunhas e os testemunhos. Mas, por favor, nada disto era mais do que a minha estrita obrigação. Só lhe punha Amor, mais nada.
Vamos agora ao voluntariado: fazer voluntariado é uma graça que Deus me deu para preencher o vazio do coração. Só. Não tem valor nenhum se for anunciado com trombetas. Ele gratifica por si. Já chorei muitas vezes de alegria, de comoção, pelo que o voluntariado me deu. Especialmente em Moçambique, onde todos são tão pobres e dóceis. Onde há uma beleza tão interior na maior parte das pessoas. E a paisagem! Ver os montes do Gurué, na terra do chá, as ilhas, as praias, o Tofo, o Tofinho. Quando me desloco por ar (só se tiver que ser, porque além de me ficar caro, me rouba a possibilidade de convívio) e vejo a costa do Índico dou por mim a rezar: “Senhor, guarda estas praias. Preserva-as da ganância e do mau gosto! Por favor”.
Agora vou menos vezes a Moçambique porque venho sempre de lá com o coração destroçado de saudade. Começo a sofrer uma semana antes de partir. E depois é uma auto-recriminação que pode durar mais duas ou três semanas. Receita médica: ajuda e ajuda-te, não vás!
Não faço nada que mereça esta “publicidade” do Raul e da Teresa. Fico encabulada. Porque eu quero apenas ser feliz. E agora só posso ser feliz assim. O meu coração não está morto para o outro tipo de Amor. Mas é este que, agora, me pode dar a paz, a felicidade. Não é para publicitar! Aliás, a publicidade só tem utilidade se vender a ideia. Há por aí muita gente infeliz, porque desocupada. Tome conta de alguém. Ou de algo. Tome conta de um Jardim da Cidade. Chateie o vereador, vivifique o jardim. Faça com que haja lá música ao sábado e ao domingo à tarde. Faça uma venda de velharias para um fim qualquer que seja útil e necessário. Finte a ASAE e promova a venda de bolos caseiros e de biscoitos.
Seja Avó de alguém que não tem Avó ou Avô. Conte histórias. Arranje um namorado só porque ele está só. Vão ao cinema e vejam o filme de mão dada no escurinho. Tudo isto é voluntariado. E não é nada demais.
A minha vida não é nada demais, repito. Não sou nenhuma heroína, nem pouco mais ou menos. Só tenho duas qualidades: um grande sentido de justiça e um grande Amor pelas Pessoas. E, acreditem, sou só eu, a Avó Pirueta…. Coitadinha, pobrezinha, com um pé partido e muita vontade de se mexer…
Mas OBRIGADA pela Intenção!
Mostrar mensagens com a etiqueta voluntariado. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta voluntariado. Mostrar todas as mensagens
segunda-feira, 9 de junho de 2008
quarta-feira, 14 de maio de 2008
O que faço por aqui?
Pôr de sol Africano, num santuário de embondeirosDepois de percorridos mil caminhos
Para chegar a mim,
Descobri que a rota mais directa
Era sair de mim.
Muitos me perguntaram, curiosos,
“África, porquê e em que nome?
Não vês perto de ti tantos desejosos
Tantos também com Fome?”
Lembrei-me então da parábola
Em que Jesus falou das migalhinhas
Que ao cair da mesa dos eleitos
Alimentavam as bocas pobrezinhas.
Procurei, pois, fazer algo no meu espaço
Procurei dar o meu Tempo, um Bem imperecível
Mas ninguém aceitou o meu regaço,
Nem precisou do meu ombro disponível.
Quem me procurou não precisava
E a quem me ofereci não aceitou.
E África a clamar, dentro de mim,
Mais uma vez, bem alto, me chamou,
Como uma Mãe a gritar pelo filho ausente.
Tive mesmo de lhe dizer “Presente”
E vim, e fui, e vim.
Que faço? perguntam
Sigo as regras que eu própria estabeleci:
Faço o que sei, onde for preciso,
Pois esse é o trabalho que escolhi.
Numa comunidade terrivelmente pobre,
Onde terei que ser pobre também.
Não posso nem quero ser diferente,
Eles são meus Filhos, eu sou Mãe.
Aprendo e ensino a fazer Pão
Com inesperados ingredientes;
Construímos o forno, em união,
Preparamos a terra e as sementes.
Descubro em cada dia uma nova oferta
Que o Senhor me traz sem a pedir
E procuro manter a alma aberta
Para aprender a melhor amar e a sentir.
Outras vezes, procuro humanizar
Tudo o que está associado à Dor
E sinto uma alegria singular
Por cada novo gesto de um velho Amor.
“Mas o que fazes? Perguntam outra vez
E outra vez respondo sem mentir.
Faço o que é preciso em cada vez,
Faço o que me pedem sem pedir.
O que me dá mais Alegria e mais Calor
É trabalhar com mulheres e com crianças.
Gosto de sentir-lhes a cabeça no regaço,
Para chegar a mim,
Descobri que a rota mais directa
Era sair de mim.
Muitos me perguntaram, curiosos,
“África, porquê e em que nome?
Não vês perto de ti tantos desejosos
Tantos também com Fome?”
Lembrei-me então da parábola
Em que Jesus falou das migalhinhas
Que ao cair da mesa dos eleitos
Alimentavam as bocas pobrezinhas.
Procurei, pois, fazer algo no meu espaço
Procurei dar o meu Tempo, um Bem imperecível
Mas ninguém aceitou o meu regaço,
Nem precisou do meu ombro disponível.
Quem me procurou não precisava
E a quem me ofereci não aceitou.
E África a clamar, dentro de mim,
Mais uma vez, bem alto, me chamou,
Como uma Mãe a gritar pelo filho ausente.
Tive mesmo de lhe dizer “Presente”
E vim, e fui, e vim.
Que faço? perguntam
Sigo as regras que eu própria estabeleci:
Faço o que sei, onde for preciso,
Pois esse é o trabalho que escolhi.
Numa comunidade terrivelmente pobre,
Onde terei que ser pobre também.
Não posso nem quero ser diferente,
Eles são meus Filhos, eu sou Mãe.
Aprendo e ensino a fazer Pão
Com inesperados ingredientes;
Construímos o forno, em união,
Preparamos a terra e as sementes.
Descubro em cada dia uma nova oferta
Que o Senhor me traz sem a pedir
E procuro manter a alma aberta
Para aprender a melhor amar e a sentir.
Outras vezes, procuro humanizar
Tudo o que está associado à Dor
E sinto uma alegria singular
Por cada novo gesto de um velho Amor.
“Mas o que fazes? Perguntam outra vez
E outra vez respondo sem mentir.
Faço o que é preciso em cada vez,
Faço o que me pedem sem pedir.
O que me dá mais Alegria e mais Calor
É trabalhar com mulheres e com crianças.
Gosto de sentir-lhes a cabeça no regaço,
que procurem sempre o meu Abraço,
E encho esse abraço de esperanças.
Gosto de ajudar as mulheres em seu labor.
Porque a Mulher Africana é heroína
Desde que o sol se levanta, de manhã.
São os seus ombros, ainda que menina
Que carregam as sementes do Amanhã.
A Mulher Angolana, se eu mandasse,
Teria uma estátua em cada rua.
Gosto de ajudar as mulheres em seu labor.
Porque a Mulher Africana é heroína
Desde que o sol se levanta, de manhã.
São os seus ombros, ainda que menina
Que carregam as sementes do Amanhã.
A Mulher Angolana, se eu mandasse,
Teria uma estátua em cada rua.
Subscrever:
Comentários (Atom)