segunda-feira, 9 de junho de 2008

Explicação Imprescindível

Sinto que preciso de dizer algumas palavras, essenciais e imprescindíveis, para todos os que lêem o meu blogue e que, a pouco e pouco, deixaram de ser meus leitores e se transformaram em Amigos. E o que preciso de vos dizer é isto:
Amigos, eu sou eu e não quero ser aquilo que escrevem sobre mim. Tenho que vos explicar, por que me sinto embaraçada, por que sinto um certo pudor ao ver a minha vida apresentarem como se fosse algo de transcendente.
Não desejo isso, não quero nem posso ser exemplo para ninguém. Tenho muitos defeitos e houve também muitos erros na minha vida. Ser Pessoa, julgo eu, é ser assim. Não sou santa nenhuma: sou impaciente para com os lentos, por exemplo. Nem sequer tenho a certeza de ter sido uma boa Mãe, eu que sempre quis ter Filhos e que me orgulho deles até à medula. Gostaria de ter sido mais discreta em muitos momentos da minha vida. Nem se fui boa esposa de um Marido perfeito.


Tive uma vida difícil? Sim, os meus pais eram muito pobres e tiveram uma vida muito dura. Costumo sempre ter o cuidado de dizer que não eram maus: eram pobres. Mas eu devo ter tido um Anjo da Guarda especial, porque estava sempre ali, a segredar-me aos ouvidos o que deveria dizer para obter o que queria, nem que fossem uma mentirinhas…
Sou perseverante, é verdade, mas isso é mais teimosia do que outra coisa. E depois aquelas leituras na meninice (inexistente) mostraram muitos lugares, pessoas, situações, que eu queria conhecer. E não seria no musseque, casada aí com uns 16 ou 17 anos (“este clima puxa muito por elas, quanto mais depressa casarem, melhor”… era o raciocínio reinante), com o primeiro pretendente que desse jeito à economia familiar que eu iria descobrir o mundo. Teimosa, teimosa, venci o meu pai pelo cansaço.
Depois, Deus começou a interferir directamente. Teve pena de mim e no dia 15 de Abril de 1958 tive um grave acidente de viação. Muito grave. Podem pôr gravidade à vontade… Tornei-me quase a mascote do Hospital Maria Pia, aqui em Luanda. Chorei quando fui para casa.
Por causa desse acidente tive que ir a Portugal, em 1960 e conheci o meu Marido, no dia 29 de Abril desse ano, às 18.50h, no alto de uma serra, onde parava a camioneta que me trazia de Coimbra. Foi Amor à primeira vista. Andava no antigo 5º ano e tinha 18 anos. Voltei para Angola, fiz o 6º e 7º, acabei no dia 19 de Agosto de 1962. Continuei a trabalhar em casa, isto é, na loja, porque a loja e a casa interpenetravam-se. No dia 9 de Janeiro de 1962 o meu Marido chegou a Angola. Mexi-me para ele ir, mexi-me para lhe arranjar emprego, eu própria fui trabalhar como dactilógrafa no Tribunal de Relação de Luanda, entre 20 de Agosto de 1962 e 28 de Fevereiro de 1963, (ganhava 2400$00), casámos no dia 7 de Março de 2003, uma quinta-feira. Ele não compareceu. Tinha ficado enterrado com um jipe do estado nos cafunduns de Judas mas conseguiu avisar. E eu consegui convencer o padre Luigi a casar-me com o meu pai. Éramos meia dúzia de Amigas. Dos de até hoje.

Depois, ele, o meu Marido, deixou-me abrir, incentivou-me, lisonjeou-me, criou todas as condições para eu florescer. Sempre. Sempre. Sempre. Trabalhei muito, mesmo muito. Não sei se fiz bem. Tinha medo, porque tinha três filhos e havia uma nuvem por cima da nossa cabeça como casal sob a forma de uma doença degenerativa da espinal medula. Esses medos estiveram sempre connosco, nunca os partilhámos com ninguém, praticamente.
Volto a acusar-me de ter trabalhado demais, fora de casa. Aquela infância trabalhosa tinha-se tornado um vício e eu fazia muitas coisas. Julgo (mas a julgar já morreu um jumento…) que, por orgulho, fazia demais para ninguém me acusar de falhar nuns lados para brilhar nos outros. Afirmo-o, pois as testemunhas estão vivos. Tenho um imenso orgulho de ter sido Professora, amada, estimada. Também tenho as testemunhas e os testemunhos. Mas, por favor, nada disto era mais do que a minha estrita obrigação. Só lhe punha Amor, mais nada.

Vamos agora ao voluntariado: fazer voluntariado é uma graça que Deus me deu para preencher o vazio do coração. Só. Não tem valor nenhum se for anunciado com trombetas. Ele gratifica por si. Já chorei muitas vezes de alegria, de comoção, pelo que o voluntariado me deu. Especialmente em Moçambique, onde todos são tão pobres e dóceis. Onde há uma beleza tão interior na maior parte das pessoas. E a paisagem! Ver os montes do Gurué, na terra do chá, as ilhas, as praias, o Tofo, o Tofinho. Quando me desloco por ar (só se tiver que ser, porque além de me ficar caro, me rouba a possibilidade de convívio) e vejo a costa do Índico dou por mim a rezar: “Senhor, guarda estas praias. Preserva-as da ganância e do mau gosto! Por favor”.

Agora vou menos vezes a Moçambique porque venho sempre de lá com o coração destroçado de saudade. Começo a sofrer uma semana antes de partir. E depois é uma auto-recriminação que pode durar mais duas ou três semanas. Receita médica: ajuda e ajuda-te, não vás!
Não faço nada que mereça esta “publicidade” do Raul e da Teresa. Fico encabulada. Porque eu quero apenas ser feliz. E agora só posso ser feliz assim. O meu coração não está morto para o outro tipo de Amor. Mas é este que, agora, me pode dar a paz, a felicidade. Não é para publicitar! Aliás, a publicidade só tem utilidade se vender a ideia. Há por aí muita gente infeliz, porque desocupada. Tome conta de alguém. Ou de algo. Tome conta de um Jardim da Cidade. Chateie o vereador, vivifique o jardim. Faça com que haja lá música ao sábado e ao domingo à tarde. Faça uma venda de velharias para um fim qualquer que seja útil e necessário. Finte a ASAE e promova a venda de bolos caseiros e de biscoitos.
Seja Avó de alguém que não tem Avó ou Avô. Conte histórias. Arranje um namorado só porque ele está só. Vão ao cinema e vejam o filme de mão dada no escurinho. Tudo isto é voluntariado. E não é nada demais.

A minha vida não é nada demais, repito. Não sou nenhuma heroína, nem pouco mais ou menos. Só tenho duas qualidades: um grande sentido de justiça e um grande Amor pelas Pessoas. E, acreditem, sou só eu, a Avó Pirueta…. Coitadinha, pobrezinha, com um pé partido e muita vontade de se mexer…
Mas OBRIGADA pela Intenção!



10 comentários:

Fátima André disse...

Minha querida Carmo,
Todos os seres humanos têm defeitos. Mas ele há pessoas de excepção que merecem elogios enquanto estão vivas. Eu gosto mais de elogiar os vivos do que os mortos, se bem que alguns pelo tempo que distam de mim, não tenho outra forma.
Carminho, ninguém lhe chamou santa, pelo menos que eu tenha dado conta, mas trilha um caminho de santidade. E um acaminho de santidade não é nada de transcendente. Está ao alcance de todo o ser humano. Basta que AME. Por isso, é preciso espalhar testemunhos de AMOR.
A palavra AMOR, deve ser a mais proferida em todo o Universo, mas nem todos os que a utilizam conhecem o AMOR. A Carmo tem essa felicidade. E só o que faz é partilhá-lo por aqueles que O não conhecem. Isso é um dom.
Porém, não deixa de ser um exemplo, um modelo de vida, do qual partilhamos com um certo orgulho por termos tido a oportunidade de nos cruzarmos consigo no comboio da vida.
NADA ACONTECE POR ACASO!
TUDO O QUE DEUS FAZ, É PELO MELHOR!

Só agora vi este post, mas deixei-lhe um desafio no blog do Raul. Independentemente do que aqui escreveu, não me move das minhas intenções. Está dito e escrito. É público o desafio. A Carmo é livre de o aceitar ou não.
Um abracinho :)

Fátima André disse...

Voltei... só para dizer que também sou muito perseverante... bom, confesso, também alguma teimosia ;)
bj*****

JMA disse...

Bem
te
com
pre
endo!

Abraço

Luis Neves disse...

Bom dia Maria do Carmo,
Depois de ler a entrevista que deu ao Raul e seus alunos, apeteceu-me logo enviar uma frase que a Mª Lourdes Pintasilgo dirigiu aos amigos, quando fez 70 anos.
- Tudo se reunifica, se recompõe numa clareza em que ecoam, do longe da minha juventude, as palavras da obra-prima de Claudel, "L'annonce faite à Marie" quando Violaine diz a si mesma: 'Sou Violaine, tenho dezoito anos, sou livre, tudo é perfeitamente claro e estou muito contente'. É o que no fim desta festa me apetece dizer "
Rápidas recuperações para o pé, para continuar todo o bonito trabalho e distribuir muito carinho e afecto , ai aos nossos amigos de angola.

RENARD disse...

Avó:

Tem de perdoar o meu encantamento em relação a si. Sou jovem e ainda não vivi o suficiente para ter a fortuna de encontrar muitas pessoas como a Avó.
Mesmo que tivesse conhecido mais, confesso que o encantamento seria o mesmo.
Sabe porque retribuo o seu amor? Porque a amo por ser "totalmente humana e frágil", citando o meu Principezinho.
Quem me conhece sabe que não sou impressionável. Não sou fácil de conquistar e mesmo depois de ganhar confiança, estou sempre de pé atrás.
Qualquer outra forma seria contra a minha natureza de Renard...
ADMIRO-A! E pronto! Se se sente encabulada por isso peço desculpa mas estou no meu direito!
Sabe o que é verdadeiramente amar? Não é amar alguém apesar dos seus defeitos. É, sim, amar pelos seus defeitos!
Sabe, ainda tenho as minhas duas avós. O meu avô paterno não o conheci pois morreu antes de eu ter nascido. O meu avô materno é o meu herói. Faleceu quando eu tinha os meus 13 anos e é um pedaço de mim que nunca recuperarei. Mas para perceber o significado que ele tinha para mim, deixo-lhe o link para o texto que escrevi sobre ele:
http://allineedtoleavebehind.blogspot.com/search?q=hefesto
Tal como a Avó, era totalmente humano com os defeitos que essa condição agrega a si. No entanto sabia Amar! Com todas as duas forças AMAVA!
E a falta que me faz sentir o seu abraço...

Beijinhos

Anabela Magalhães disse...

Só quero dizer que o texto está lindo e que também eu te compreendo.
Bjs grandes

Anabela Magalhães disse...

Só quero dizer que o texto está lindo e que também eu te compreendo.
Bjs grandes

Batata disse...

O melhor de sermos humanos é precisamente podermos ser TUDO, nao é verdade? Com a minha curta idade, ao ler este post passei a admirar a sua extensa experiência.

Parabéns pelo texto, testemunho tão sincero...



>>> Mariana Silva

Raul Martins disse...

Querida mulher de mil e um nomes
De mil saberes,
de mil dizeres,
tu própria dás a resposta ao que pretendemos:
"a publicidade só tem utilidade se vender a ideia".

É isto que queremos incutir nos nossos jovens.
Que têm que lutar.
Ter objectivos e encontrar o sentido da vida.
Que as tristezas e o espírito de sacrifício fazem parte da vida, assim como os sonhos. Que não podem ser uma geração "rasca" que corre o risco de se tornar numa geração adulta que só vai viver de subsídios ( e voltaremos a falar de oportunidades perdidas); que o que hoje os pais lhe dão foi construído, muitas vezes, com muito sacrifício.
E temos que lhes mostrar as pessoas simples como a Carmo (com os seus defeitos, acredito, e as suas virtudes) que tem uma história de vida que deve ser contada e partilhada porque já estou cheio de ouvir badalar mil e um personagens, daqui e dalí, e que espremidas não valem nada. São ídolos com pés de barro que à mínima trepidação esboroam. Ainda há dias, no Rock in Rio, uma das estrelas que por lá foi cantar, uma jovem ainda, parece, porque eu não vi, se estatelou no palco e quase que não se aguentava em pé. E estas estrelas aparecem nos focos da televisão e espremido não dá nada. Eu sei que há outras estrelas a quem eu tiro o chapéu, Bob Geldolf ( de quem a Carmo e a Anabela falaram), O Bono dos U2 (de quem a minha Émy e os meus filhos são fãs) e muitos outros.
E as televisões passam mil e uma notícias que em nada educam os nossos jovens, os nossos filhos. Então, temos que “fazer publicidade” e “vender”, também, os nossos programas para que eles também se apercebam que há gente que aponta outros caminhos. Que são uma “seta”. Que muito fazem por este mundo. Ainda no Natal tivemos o prazer de ter connosco o D. Manuel Martins que cativou os nossos jovens, falou-lhes ao coração e teve a doçura de estar no meio deles. É destes exemplos que os nossos jovens precisam.
Carmo, mãe Carmo, Avó Pirueta, Carmito, Compincha, Encantadora de animais... Não leve a mal pela “publicidade”. É que você é uma mais valia. É uma energia positiva para nós e para os nossos jovens. Para as mães, para as avós, para as mulheres.
Não se preocupe. Peço perdão é se estamos a abusar da sua bondade.
Um dos seus admiradores. E não se esqueça de que é responsável por aqueles que tem cativado.

Maria do Carmo Cruz disse...

Amigos, que vos hei-de dizer? Senão que tenho medo de que, como na Bíblia, quem recebe o seu prémio aqui já o recebeu? Porque nós podemos achar longo este caminho da Vida, mas é só um curto hiato para a Outra. Onde peço e espero encontrar-me com os que Amei e Amo. Obrigada, do coração. Só posso querer fazer mais e melhor, para bem dos precisam e para não vos desiludir. A todos vós, filhos do Coração, uma prece: que eu seja digna de vós. Um beijo, Carmo