sexta-feira, 18 de julho de 2008

Sistema de Avaliação de Desempenho da Educação de Angola


Só para variar, vou falar hoje do Decreto7/08, de 23 de Abril, que apresenta o Sistema de Avaliação de Desempenho, "adequado à matriz do novo Estatuto da Carreira dos Docentes do Ensino Primário e Secundário, Técnicos Pedagógicos e Especialistas de Administração da Educação".
Lembrei-me de mostrar algumas cláusulas, talvez porque uma das coisas positivas que o Primeiro Ministro fez lá ontem em Luanda foi concertar o envio de 200 Professores portugueses para ajudar no ensino secundário. Como devem ter ouvido, esses Professores (espero que mereçam a maiúscula) vão ser remunerados com um fundo criado a partir do pagamento de Cabora- Bassa. Uma espécie de justiça poética...
Eu tenho pena de não ser mais nova para poder solicitar o ingresso neste contingente. Mas não posso pensar que ainda sou capaz e tenho de me consolar com a ideia de que posso fazer outras coisas. Contudo, quero frisar que esta Resolução é do melhor que há: os Angolanos querem aprender e não têm quem os ensine. Embora espere que alguém se lembre de fazer uma formação específica para os Professores que aderirem... Porque estas coisas, para serem a sério, não é é como alojar pessoas em bairros onde é preciso saber viver e não os ensinar antes, não os enquadrar...
Bem, mas vamos ao Sistema de Avaliação:

Artigo 2º: Objectivos da Avaliação:
a) despertar nesses trabalhadores a necessidade de superação constante, capacitando-os científica e pedagogicamente para as suas tarefas quotidianas;
b) incentivá-los para a disciplina pessoal no cumprimento de todas as tarefas diárias ou periódicas que concorram para a planificação, organização ou execução da actividade laboral;
c) contribuir para o aumento do seu prestígio social e brio profissional.

Artigo 4º: Incidência
1. A avaliação do desempenho do pessoal docente, técnicos pedagógicos e especialistas de administração da educação incide sobre a actividade docente, a gestão e administração da educação, a disciplina profissional e as tarefas complementares, em conformidade com a Secção I, do Capítulo IV, do Estatuto da Carreira dos Docentes do Ensino Primário e Secundário, Técnicos Pedagógicos e Especialistas de Administração da Educação.
2. A atribuição da classificação negativa determina suspensão na contagem de tempo de serviço, relativa ao período a que a avaliação de desempenho se reporta, para efeitos de promoção.
3. A atribuição de duas classificações negativas consecutivas é condição suficiente para a instauração de processo disciplinar, por incompetência profissional".

Hoje fico por aqui. Julgo (só agora tal ideia me veio à mente) que não estou a cometer nenhuma ilegalidade. Porque, se os que por aqui passarem demonstrarem interesse, tenciono ainda acrescentar o carácter da avaliação, as classificações, a graduação dos indicadores de avaliação. Interessantes e muito tangíveis.
O simples facto de 200 Professores poderem ir para Angola ensinar, provavelmente outros Professores, enche-me de orgulho e faz-me sentir feliz. Aviso, contudo, que eu já falo muito "angolês" quando por lá ando...

quinta-feira, 17 de julho de 2008

Mensagem nº3: Viagem do Governo a Angola: Boas-maneiras

OS IMPORTANTES COMEM À PARTE

Telefonaram-me a contar e eu não queria acreditar. Por cá, não tinha ouvido falar do caso, mas também me parecia que, para visita secreta, era gente a mais. Bem, o caso é este: neste momento está a decorrer em Luanda a FILDA e hoje era o dia de Portugal. Então, mais ou menos em cima da hora (pelo menos é o que me pareceu, porque eu leio jornais), o nosso Primeiro Pinistro, acompanhado dos Senhores Ministros das Finanças, da Economia, dos Negócios Estrangeiros, Secretários de Estado da Cooperacão e do Comércio e o senhor Presidente do antigo ICEP (nem me lembro como é a sigla agora), decidiram comparecer.
Bem, o Primeiro Ministro tinha encontro com Sua Exa. o Presidente da República angolano e os restantes ministros e mais gente foram para a Feira. Que diabo, sempre era o dia dedicado a Portugal! Acontece que, à volta do Pavilhão português, havia gente de muito interesse e interesses: grandes investidores, angolanos, portugueses e outros estrangeiros, Gestores dos maiores Bancos, etc.
Como é costume nestas situações, convive-se, trocam-se ideias e contactos, faz-se diplomacia. E, como de costume também, há sempre uma espécie de buffet, onde as pessoas se vão servindo do que há para comer e beber, em pé, claro.
Tudo normal, tudo como se faz em todo o lado. Só que os nossos ministros e demais acompanhantes não estiveram a conviver, nem a trocar cartões, nem a conhecer pessoas, nem a sondar negócios, nem a, simplesmente, comer, em pé, daquele buffet, juntamente com esses pessoas que poderiam ser vitais para os interesses portugueses.
Por incrível que pareça, o nosso pessoal político, segundo a minha fonte, que considero fidedigna, estiveram a almoçar, sozinhos, sentados, numa sala preparada para o efeito, onde foram devidamente servidos. E que, por acaso, permitia ver-se de fora para dentro...
Imagine-se a extraordinária lição de politesse, de cortesia, de saber-estar, de delicadeza, de diplomacia e de savoir-faire que deram os nosos políticos.
Gostaria de dizer "Não posso crer", mas infelizmente, tanto pela fonte da informação, como pelo que conheço destes encontros, sou obrigada a dizer que lamento, mas acredito. E que tal comportamento não é aceitável, pela arrogância que encerra, nem em Angola nem em lugar nenhum. É preciso respeitar a casa que se visita!
Valha-nos ao menos a entrevista do nosso Primeiro Ministro, ao Jornal de Angola, três páginas e que me parece não envergonharem ninguém.
Quando será que se cria um Centro de Formação para candidatos a Ministros? Olhem que é muito necessário...

Mensagem nº2 de hoje: Ainda vai haver mais uma de última hora e importante...

Caro 1984,
eu concordo com praticamente tudo o que diz. Aliás, vê-se que você sabe o que diz. Pelo seu pseudónimo, presumo que seja um pouco pessimista. Está no seu direito. Como eu estou no meu direito de ser uma optimista militante.
Mas o que eu queria deixar bem vincada é a minha convicção de que podemos sempre mudar algo, nem que seja pouco, para melhor. E estou convencida de que essa força que muda, que quebra resistências e constrangimentos que querem manter tudo de acordo com o paradigma milenar, (mesmo quando já se provou que ele está não funcional) vem, normalmente de uma certa ingenuidade, de um certo lirismo que guardamos ou da infância ou de tempos imemoriais mais puros, em que vivemos e já esquecemos.
Sou crente, sou católica praticante, bastante ecuménica para o gosto de certos sacerdotes, mas essa Fé que tenho também me ajuda a acreditar que não precisamos de duvidar de tudo, de descrer de tudo. E, especialmente, ajuda-me quando me lembra que há algo de divino em mim. Pois fui feita à imagem e semelhança de Deus. Por isso fico cega de ira (pecado mortal) quando vejo cobardes a atacar opiniões anonimamente, como estiveram a fazer no Existente Instante.
Gosto muito do Clube dos Poetas Mortos, mas, de facto, há outros de que gosto mais. E gostei muito de ir ver o link que tão simpaticamente me recomendou. Espero, sinceramente, que as nossas diferenças não sejam inconciliáveis...

Hoje, acordei assim


Hoje, acordei assim: a apetecer-me Carlos Drummond de Andrade. Gostei tanto de reler os sinais que os partilho para quem se esqueceu ou tem medo de esquecer...




Quando encontrar alguém e esse alguém

fizer seu coração parar de funcionar por alguns segundos,

preste atenção: pode ser a pessoa

mais importante da sua vida.


Se os olhares se cruzarem e, neste momento,

houver o mesmo brilho intenso entre eles,

fique alerta: pode ser a pessoa que você está

esperando desde o dia em que nasceu.


Se o toque dos lábios for intenso,

se o beijo for apaixonante, e os olhos se encherem

d'água neste momento, perceba:

existe algo mágico entre vocês.


Se o primeiro e o último pensamento do seu dia

for essa pessoa, se a vontade de ficar

juntos chegar a apertar o coração, agradeça:

Algo do céu te mandou

um presente divino : O AMOR.


Se um dia tiverem que pedir perdão um

ao outro por algum motivo e, em troca,

receber um abraço, um sorriso, um afago nos cabelos

e os gestos valerem mais que mil palavras,

entregue-se: vocês foram feitos um para o outro.


Se por algum motivo você estiver triste,

se a vida te deu uma rasteira e a outra pessoa

sofrer o seu sofrimento, chorar as suas lágrimas

e enxugá-las com ternura, que

coisa maravilhosa: você poderá contar

com ela em qualquer momento de sua vida.


Se você conseguir, em pensamento, sentir

o cheiro da pessoa como

se ela estivesse ali do seu lado...


Se você achar a pessoa maravilhosamente linda,

mesmo ela estando de pijamas velhos,

chinelos de dedo e cabelos emaranhados...


Se você não consegue trabalhar direito o dia todo,

ansioso pelo encontro que está marcado para a noite...


Se você não consegue imaginar,

de maneira nenhuma, um futuro sem a pessoa ao seu lado...


Se você tiver a certeza que vai ver a outra

envelhecendo e, mesmo assim, tiver a convicção

que vai continuar sendo louco por ela...


Se você preferir fechar os olhos, antes de ver

a outra partindo: é o amor que chegou na sua vida.


Muitas pessoas apaixonam-se muitas vezes

na vida poucas amam ou encontram um amor verdadeiro.


Às vezes encontram e, por não prestarem atenção

nesses sinais, deixam o amor passar,

sem deixá-lo acontecer verdadeiramente.


É o livre-arbítrio. Por isso, preste atenção nos sinais.

Não deixe que as loucuras do dia-a-dia o deixem

cego para a melhor coisa da vida: o AMOR !!!
(Vou estar muito atenta...)

quarta-feira, 16 de julho de 2008

Não sei se isto é bloguisticamente correcto, mas...

O caso é este: um Amigo deixou-me um comentário relativamente ao poste "E que tal uma controversiazinha?" e eu discordei . Ao responder, veio-me ao pensamento que seria um assunto para um poste. Portanto, deixei lá a resposta, mas vou postá-la aqui também. Cá vai:


Caríssimo G,
dou-te razão em tudo o que dizes, agradeço os conselhos e as sugestões, mas... "a entrada maciça das mulheres no mercado de trabalho" teria de ser assumida como uma mudança como as outras e teriam de ser encontradas as soluções adequadas. Julgo que concordarás comigo que às mulheres não foi imposta, de nascença, a obrigação de serem as guardiãs únicas da família e da educação dos filhos.
O que tem acontecido, na minha opinião sentida na pele, é que as mulheres entraram para mais um mercado de trabalho (porque ser dona de casa e mãe e esposa já e TRABALHO!) quando os homens não estavam lá para o fazerem. Provaram do fruto proibido e gostaram. E têm preferido sacrificar-se e acumular dois empregos (ser Mãe, Esposa - detesto esta palavra - governanta, gestora doméstica e ainda ter uma profissão) a entrar em lutas abertas por uma verdadeira igualdade.
Porque as lutas das feministas não ajudam nada as mulheres. Eu não quero ser Homem. Mas quero não ser obrigada, só por ser Mulher, a ter mais trabalho e obrigações. E é isso que se vê, mas felizmente a diminuir. Sendo que a culpa da actuação dos homens é muitas vezes das suas mães...
Mais outro "contudo": o problema agora é que, apesar de vivermos cada vez mais tempo, muitas mães e pais julgam que ele, o tempo, é pouco para "gozar a vida". E demitem-se de serem Pais e Mães. Raramente, se é que é possível, se podem meter dois proveitos no mesmo saco... Deixam a tarefa à TV, às playstations e à Escola. Ora a Família pode tomar muitas formas e até acredito que não são os divórcios necessários que causam mais traumas ou problemas aos filhos. Chamo "divórcios necessários" àqueles que são impossíveis de resolver de outra maneira, porque a vida em comum se tornou uma guerra contínua. Porque também acredito que a maior parte dos divórcios é fruto do egoísmo. Ninguém cede um milímetro...
Um casamento é um investimento e qualquer pessoa se preocupa com os investimentos que faz, esquecendo-se muitas vezes de que, ao investir no casamento, está a investir no Futuro: será mais feliz, trabalhará melhor, será menos doente, terá filhos mais felizes e educados, encarará o envelhecimento com mais coragem e disponibilidade de espírito. E depois estas coisas multiplicam-se pelo efeito "bater de asas da borboleta".
Olha, decidi neste preciso momento que vou vou postar esta resposta ao teu comentário. Técnica de marketing... Só lhe acrescentei uns pinguitos...

terça-feira, 15 de julho de 2008

No País dos Senhores "Olhe"

Toda a gente sabe como os nomes próprios, que durante séculos se mantiveram numa grande monotonia, mudaram nas últimas décadas. De tal maneira que voltou a ser chique chamar-se Maria. Simplesmente. Evidentemente que a falta de imaginação que se fazia sentir, em que os filhos recebiam o nome do pai ou do avô, foi amplamente superada pela oferta das telenovelas, campo fértil onde germinam Vanessas, Marlenes, Carinas e Vânias. Os rapazes têm sofrido menos e aí, além dos Brunos, Diogos e Tiagos, que crescem como cogumelos, penso que os inspiradores serão mais os cantores que as mães preferiam. Não é impunemente que se tem 20 anos porque é muito natural que, por isso, um mancebo se chame Marco.
Bem, e onde é que nós queremos chegar? Eu, pelo menos, quero demonstrar que há um nome que nunca vi registado em nenhum índice onomástico, que tanto serve para pessoas do sexo masculino como feminino e que se mantém com todo o vigor. É "Olhe". Por exemplo, a maior parte das sogras que conheço, podem ter escrito no BI que se chamam Mafalda ou Maria da Conceição, mas é quase certo que o genro ou a nora a tratem, carinhosamente, por "Olhe". Deve ser um petit nom.
Mas não é só na família. Quando se vai na rua e se está atrapalhado porque não sabemos como havemos de ir dar a um determinado sítio, é muito fácil resolver o problema - olhamos para o primeiro paisano ou paisana que esteja por perto e salta a pergunta: "Olhe, como é que se vai para a Escola Ramalho Ortigão?"
Vou contar-vos como é que costumo responder. Se são muito jovens, como duas garotas que há tempos me fizeram esta pergunta ao pé da Igreja da Antas, respondo assim: "Bom dia, minhas meninas. Ora vamos lá começar tudo do princípio. Vocês vão para aquele passeio de onde vinham, olham para um lado e para o outro, atravessam se não houver carros à vista e dizem-me:
- "Bom dia. Fazia o favor de nos dizer como é que, daqui, se vai ter à Escola Ramalho Ortigão?"
E continuo: "Vamos lá representar isto, como se fosse no teatro. Toca a ensaiar. Vão para o lado de lá e façam o que eu disse".
Não sei o que elas pensaram, mas medo não tiveram, porque tenho um ar muito inofensivo e cara de avó. Lá voltaram atrás, fizeram tudo como lhes tinha ensinado e chegou a hora de eu corresponder à delicadeza da pergunta:
- " Bom dia, minhas lindas. Mas que meninas tão bem educadas! Olhem, estou com um bocadinho de pressa, mas logo que foram tão delicadas a perguntar, vou acompanhar-vos até ali abaixo para vos explicar melhor, está bem?"
- "Muito obrigada", disseram em uníssono.

Perguntei-lhes como é que se chamavam, por que iam à Escola (afinal era só um ponto de referência, porque se iam encontrar com umas amigas ali perto), disse-lhes o meu nome e, em ar de brincadeira, ainda lhes disse que nunca se esquecessem de que Portugal era o país do "Se faz favor" e do "Obrigado(a)" e que não era simpático chamar a atenção das pessoas pelo nome de "Olhe". Riram-se, disseram que nunca tinham pensado no assunto mas, de facto, era verdade e, no fim deste encontro de uns 10 minutos, se tanto, pagaram-me da melhor maneira a que eu poderia aspirar: "A senhora é professora, não é?"
Ah, já me esquecia de dizer que nós chamamos aos outros "Olhe" e há muitos "Olhes" que, quando comunicam connosco pela escrita, dizem que o seu nome é "Anónimo". Estranho, não é?

E que tal uma controversiazinha?

Muitos de entre aqueles que enchem a minha Caixinha de Afectos têm lido, sorrido, comentado, Rubem Alves. Um senhor por quem fiquei de amores desde que o conheci... Ora ontem à noite, ao correr de uma pequena pesquisa na net aparece-me um texto a comentar "Gaiolas e asas". Lembram-se? As Escolas devem dar asas e não aprisionar. Ora, apear do meu Amor sem remédio, não contesto que Rubem Alves se permite hoje dizer muitas coisas com que só sonhou. E faz ele muito bem! Mas também não nos faz mal nenhum ler e confrontar opiniões. Por isso, aqui deixo o tal comentário, já com quase 7 anos:

Das crianças e dos pássaros
José Nivaldo Cordeiro, 5 de dezembro de 2001

Há algo em comum entre as crianças e os pássaros, mais precisamente entre crianças em idade escolar e os pássaros aprendendo a voar? Parece haver um paralelo bem cruel: as crianças que não conseguem aprender algo para a vida, hoje em dia confundido esse algo com o escolaridade formal, fracassam e podem morrer, assim como os pássaros, ao fazerem seu primeiro vôo, fazem a sua prova de fogo, a diferença entre sobreviver e morrer jovem. Quem, como eu, costuma ver os programas do Canal Discovery, que mostra a vida selvagem, e também ler revistas de divulgação científica sobre o assunto, sabe que a taxa de mortalidade de jovens pássaros é elevada nesse instante capital da sua existência.
Há ainda uma metáfora implícita na comparação: a aquisição de conhecimento como a aquisição de asas para os grandes e pequenos vôos da existência. De fato, aqueles que não têm a luz do saber estão condenados à uma vida rasteira, terrestre, não apenas do ponto de vista material, mas sobretudo do ponto de vista espiritual. É uma metáfora apropriada.
O artigo que o educador, psicanalista, escritor e professor emérito da Unicamp, Rubem Alves, publicou hoje na página três da Folha de São Paulo usa a metáfora de modo absolutamente inapropriado e diria mesmo equivocado. O título do artigo é "Gaiolas e asas". O tema me atraiu a atenção, pois creio que um dos problemas centrais dos tempos modernos está ligado precisamente à formação da juventude, pois os núcleos tradicionais de formação, especialmente na sua parte moral - a família e as igrejas - estão perdendo espaço para concorrentes que não podem substituí-los, basicamente os meios de comunicação - com destaque para a televisão - e as escolas. Às famílias caberia sobretudo encarregar-se da solidez moral da criança e do adolescente, mas a instabilidade muito freqüente do núcleo familiar, e a ausência prolongada dos pais a trabalhar, têm deixado as crianças aos cuidados das comunicações eletrônicas e das escolas. As crianças ficam, por assim dizer, órfãs de seus principais educadores.
Ruben Alves diz que lhe ocorreu um aforismo: "Há escolas que são gaiolas. Há escolas que são asas". Até aí, um dito espirituoso que, visto mais de perto, não significa muita coisa. Diz mais: "Esse simples aforismo nasceu de um sofrimento: sofri conversando com professoras de segundo grau, em escolas de periferia. O que elas contam são relatos de horror e medo. Balbúrdia, gritaria, desrespeito, ofensas, ameaças... E elas, timidamente, pedindo silêncio, tentando fazer as coisas que a burocracia determina que sejam feitas, como dar programas, fazer... avaliações. Ouvindo os seus relatos, vi uma jaula cheia de tigres famintos, dentes arreganhados, garras à mostra - e as domadoras com os seus chicotes, fazendo ameaças fracas demais para a forças dos tigres".
O que o educador, psicanalista e professor quis nos dizer com isso? Que os pobres passarinhos, por culpa da burocracia, que exige a aplicação de programas e critérios de avaliação de desempenhos, por fazer isso, são transformados em tigre ferozes e indomáveis.
Ele está completamente equivocado. E não é apenas na periferia que vemos esse tipo de fenômeno. Eu mesmo tinha filhos em escola privada de renome, situada da Vila Nova Conceição, em São Paulo, na qual o mesmo fenômeno ocorria. Os relatos que ouvia eram de horror, de atos cometidos pelos herdeiros das mais finas famílias da cidade de São Paulo. Então investiguei o problema e concluí que a origem do mesmo estava no uso de métodos pedagógicos errados, licenciosos, que premiam a desobediência e a falta de educação dos alunos, que reduzem a autoridade dos mestre a nada, que adulam adolescente em fase de formação como se eles soubessem já de alguma coisa. Coloquei os meus garotos em escola mais rigorosa - nominalmente o Colégio Bandeirantes, em São Paulo, e o problema acabou, pois ali se exige disciplina e desempenho acadêmico e aqueles que não estão interessados em estudar são convidados a procurar outra instituição de ensino. Resolvi o problema dos meus filhos, mas não o da educação em geral, obviamente. Mas ficou a experiência.
Então posso dizer que o raciocínio do ilustre educador contem dois erros em sua gênese: a de que o problema está nas escolas da periferia da cidade e que os culpados pelos pássaros serem transformados em tigres sejam as exigências formais de programa e avaliação. Penso que é o contrário: onde essas exigência foram atenuadas e abolidas a desordem foi instalada e o respeito devido pelos alunos aos mestres desapareceu, levando com ele o sentimento de hierarquia entre alunado e o professor, essencial para que haja ordem na sala de aulas. O respeito devido ao mestre é na verdade o respeito ao Saber.
Aí o ilustre professor incorre em um terceiro erro, ao fazer a seguinte afirmação: "Violento, o pássaro que luta contra o arame da gaiola? Ou violenta será a imóvel gaiola que o prende? Violentos, os adolescentes de periferia? Ou serão as escolas que são violentas? As escolas serão gaiolas?"
Obviamente que ele não percebeu a inversão da própria afirmação inicial: que os adolescentes são violentos como tigres. Agora as escolas é que são violentas porque supostamente prendem os aluno? Está correto isso? É claro que não, a começar pelo fato de que ninguém, se não quiser, precisa ir à escola, por mais que o Estado e suas leis e mesmo os pais digam o contrário. Inúmeros jovens simplesmente não vão à escola porque se recusam a ir e ninguém tem o poder de demovê-los. Os que vão é porque querem. Então, por princípio, a escola não aprisiona ninguém. Não obstante, o comportamento desses jovens torna-se, na sala de aula, selvagem. E por que? O ilustre professor não responde, mas continua a sua argumentação sofística:
"Mas eu pergunto: nossas escolas estão dando uma boa educação? O que é uma boa educação?" E tenta responder: "O que os burocratas pressupõem sem pensar é que os alunos ganham uma boa educação se aprendem os conteúdos dos programas oficiais. E, para testar a qualidade da educação, criam mecanismos, provas e avaliações, acrescidos de novos exames elaborados pelo Ministério da Educação... Mas será que a aprendizagem dos programas oficiais se identifica com o ideal de uma boa educação?"
Ora, o nosso psicanalista não percebeu que entrou aqui com uma pergunta que ficou sem resposta e respondeu a uma pergunta que não foi formulada, ficando escondido o lapso de raciocínio. Comportamentos civilizados na sala de aulas (ou a sua falta) nada têm a ver com conteúdo programático de coisa nenhuma e muito menos ainda com critérios de avaliação. Têm a ver com a formação moral dada (ou deixada de dar) pelo país, pelas igrejas, pelos meios de comunicação, pelas escolas, pela postura reta (ou pusilânime) dos mestres, pelos instrumentos pedagógicos utilizados. Um coisa é o que se dá como conteúdo - e é de se esperar uma harmonia do conteúdo programático das disciplinas pelo País afora - legítimo papel a ser desempenhado pelo Estado. Outra coisa é a educação essencial que prepara o jovem para o ato de aprender - os bons modos. Uma coisa é o que deve ser (ou não) dado, outra a predisposição dos jovens para receber o que se lhes oferece.
Na verdade, o nosso professor emérito deixa de reconhecer que a nossa sociedade tem crescentemente desvalorizado os mais velhos e valorizado os mais jovens, os filhos valem mais que os pais (há algo mais emblemático do que a Bolsa-escola, que remunera o moleque e não o pai, que é responsável e frequentemtemente não encontra os meios para exercer a responsabilidade como desejaria? Por que não Bolsa-pai ou Bolsa-mãe, que manteria a hierarquia geracional e a dignidade dos progenitores? Dá para imaginar alguns bolsistas a dizerem: "se tentar me enquadrar, não vou à escola e aí então não tem bolsa", numa completa inversão de valores). Que o problema está na quebra da hierarquia entre os que sabem e os que não sabem. Que essa revolução cultural é o princípio de toda a confusão escolar, a começar pela falta de disciplina que descamba para comportamentos grupais violentos e incontroláveis. A burocracia e o Estado não têm culpa nisso; as crenças pseudopedagógicas, sim, pois estão na raiz da quebra da necessária hierarquia.
Depois, para fechar com chave de ouro o artigo, cita Nietzsche, afirmando que "O sujeito da educação é o corpo, porque é nele que está a vida". Será? A vida na verdade é a síntese entre corpo e alma e o corpo morto é ainda um corpo, logo a proposição dele - e a de Nietzsche, e aqui me refiro explicitamente ao Zaratustra, no discurso "Dos Desprezadores do Corpo" - está errada. Nietzsche tem uma exposição confusa das suas idéias, que podem apoiar muitas outras idéias confusas, mas a sua obra, vista em conjunto, tem um sentido e pode ser interpretada e compreendida para além das confusões das partes isoladas. E se há alguém que experimentou com toda a intensidade as experiência da alma, foi Nietzsche, cujo corpo foi um exemplo acabado de fraqueza. Mas isso já é uma outra história, a merecer ela própria um artigo.
O que o ilustre educador quer afirmar é que a inteligência é ferramenta e brinquedo do corpo. Ora, isso não é possível. Nós não somos robôs, como no AI do Spillberg. Aliás, os robôs desse roteiro do Kubrick adquirem alma e seus corpos não são mais senhores de nada, o que vale é o coração (metafórico, claro, significando o Amor) e a compreensão, em resumo, a alma. Ela, sim, é o sujeito, o que nos torna semelhantes a Deus, o que nos dá o discernimento, o livre arbítrio, a capacidade para compreensão, única na criação, a tornar-nos, a nós próprios, criadores. O corpo, a matéria em si, nada é.
"Brinquedos que me permitam voar pelo caminhos da alma", afirma o meritório mestre. Alma ou corpo? Ficou a dúvida, pelo menos a minha. "Assim, todo professor, ao ensinar, teria que se perguntar: 'Isso que vou ensinar, é ferramenta? É brinquedo'. Se não for, é melhor deixar de lado".
O erro do ilustre Rubem Alves é achar que ensinar (e aprender) é uma brincadeira de crianças. Não é. É o que de mais sério se pode fazer durante toda a vida. E refletir sobre essa dualidade ensino/aprendizado é tarefa para filósofos e o ensinar mesmo exige do mestre uma postura de filósofo. É preciso restabelecer a ética essencial e a hierárquica que deve existir entre mestres e discípulos - alunos e professores - mas essa ética tem que ser desenvolvida como uma crença geral, que começa em casa - os pais são os primeiros mestres - e acaba nas escolas. Infelizmente, o que vemos é a repetição, à exaustão, do bordão da musiquinha ordinária que diz em seu refrão: "Não confie em ninguém com mais de trinta anos". Assim não há hierarquia que resista e, muito menos, sistema educacional eficiente para a vida. Nossos tenros passarinhos terão muita, mas muita dificuldade, para sair do ninho em direção a uma existência mais alta. Infelizmente.