quinta-feira, 26 de junho de 2008

Problemas de Sedução

Hoje consolei o coração ao passar pelos blogues da minha Caixinha de Afectos. Bons textos ligados à Educação, de gente séria, que sabe do que fala, que pensa e pesa o que diz. Belos textos de Poetas e de Pensadores, que nos põem a olhar para a realidade circundante com olhos novos. Parábolas e fábulas, de que andava precisada. Mas, sabe-se lá porquê, a mim apetece-me falar de "sedução".
Creio que acontece com toda a gente - tenho palavras de que gosto muito, outras que detesto e outras de que desconfio. Uma das que pertencem a esta terceira categoria é "sedução".
Como sempre tive a mania de fazer "profundas" análises e introspecções (o que talvez tenha a ver com o signo de Balança, que não o é apenas de pessoas indecisas, como para aí se diz, mas também gente de um amor entranhado ao que é justo...), até já cheguei a identificar esta desconfiança com o meu primeiro trabalho…

Fui escriturária no Tribunal de Relação de Luanda entre 20 de Agosto de 1962 e 28 de Fevereiro de 1963 e a minha principal tarefa era dactilografar os acórdãos de sessões em que o Desembargador-Presidente recorria a frequentes expressões em Latim. Ora acontece que eu era a única funcionária que sabia Latim, tinha acabado o 7º Ano antigo com uma classificação mais do que honrosa e deram-me a "honra" de passar à máquina os tais acórdãos. O problema é que o tal Desembargador com quem trabalhava, não sei se por gosto ou acaso, só tratava de "Crimes de Sedução". Sim, aqueles casos em que uma donzela aceitava entrar em partilhas muito íntimas do seu corpo e dos prazeres acrescidos (ou não) com um "sedutor", sob promessa de casamento. Promessa de que depois o dito se esquecia rapidamente. Senhores, isto nos idos dos anos 60, do século passado, fazem lá ideia do que uma pobre e recatada menina de 20 anos aprendeu naqueles acórdãos sobre a dita "sedução"?
Poderá ser, pois, daí, mas desde então a palavra "sedução" cheira-me a embuste. E fico sempre preocupada quando alguém de responsabilidade na Educação - ministros, directores regionais, professores, pais - diz que a Escola, o Professor, têm de seduzir o Aluno. Não têm, não senhor, pelo menos na minha opinião. Isto, se querem dizer, com "sedução", fazer com que os alunos não queiram deixar a Escola. Aliás, na minha opinião, "seduzir" é a mais fácil de todas as soluções, mas receio que não vá longe.
Eu, Maria do Carmo Cruz, queria que os meus alunos já tivessem tido a sorte de alguém lhes ter ensinado que a Escola é precisa, que aprender é próprio do ser humano, que não é apenas brincadeira nem castigo - é apenas outra espécie de Trabalho, também próprio do Homem, que se vai adequando à medida que crescemos. Senão, ensinava eu.

Depois, era minha obrigação dar-lhes gosto em fazer aquele Trabalho de estar comigo 3 horas semanais, pelo puro prazer de aprender e reflectir sobre coisas novas e não tão novas. Era minha obrigação usar estratégias e metodologias à medida da sua idade, dos conteúdos programáticos, do interesse para a vida deles um dia, para que sentissem vontade de voltar, e isso sem recorrer a actuações de animação cultural, exceptuando recursos como visitas de estudo, colóquios com profissionais, visionamento de filmes, utilização da tecnologia que tivesse à mão e valorizasse o conteúdo.
Fui e sou Professora, gosto de ensinar, gosto de partilhar com alegria. Sei que não há prémio melhor do que, ao dar aula sem olhar para o relógio, ouvir um "oh" de desapontamento quando toca. Sim, mas sou e era Professora, e mesmo hoje recusar-me-ia a ser animadora social ou cultural. Essa função é outra, muito respeitável, mas eu só quero seduzir quem quer ser seduzido e, portanto, não necessita de manobras de sedução. Porque recorrer ao Melhor, fazer o Melhor, querer o Melhor quando ensinamos e aprendemos não é seduzir, é a única maneira como sei trabalhar. A sedução pode vir apenas por acréscimo e será bem-vinda mas não é o prato especial da ementa...

8 comentários:

Anabela Magalhães disse...

Recorrer ao Melhor, fazer o Melhor, querer o Melhor quando ensinamos e aprendemos é seduzir, e é a única maneira como sei trabalhar.
Como vês, Carmo, aproveitei as tuas palavras. Tirei-lhe só o não.
Porque não estou de acordo contigo. A sedução chega-nos também através do trabalho esforçado e do gosto com que damos o corpo ao manifesto. :D
Beijocas
Anabela

Maria do Carmo Cruz disse...

Oh minha Princesa: pois não estamos nada em desacordo. Estamos de acordadíssimo!O que eu digo é que faço o que faço por gosto, por ser a única maneira de o saber fazer, não por receita para seduzir por seduzir.
Ainda não me esqueci daquele governo que tinha a "Paixão pela Educação"... Nem de escolas que quando vêem os alunos a fugir, precisamente porque as pessoas deixaram de trabalhar pelo gosto de fazer, começam a escrever cartas que são depositadas nas caixas postais da vizinhança, a elogiar as salas, os computadores e o ambiente, em que até ainda se ouvem os passarinhos...
Se alguém de juízo se iria deixar seduzir assim! Enfim, uma operação plástica como outra qualquer. Ai, hoje não estou a gostar nada de mim!
Olha, sei que o Clap, Clap, Clap é teu Amigo, mas qual é o blogue do rapaz? Não fui capaz de o encontrar para lhe retribuir a simpatia da visita...
Um beijinho. E vai pondo o fato de banho à vista... Avó Pirueta

ematejoca disse...

O teu artigo e comentário sao excelentes, como sempre.
E fartei-me de rir com a seducao da donzela. Bom tempo, em que as donzelas eram deduzidas ... havia uma porcao maior de erótica!

Mil sorrisos para ti!

Fátima André disse...

Carmo, minha querida, acho que ando mais numa atrapalhação do que numa de sedução, mas enfim... é do final de ano. O PDI... e consegui, hoje, ao fim de 20 anos de serviço faltar a uma vigilância de exame. Eu devia de ter desconfiado de ter uma manhã livre, tenho que ir ao Oftalmologista e talvez a mais alguma especialidade... a primeira é desencantar um atestado médico. Isto tem lá algum jeito para justificar 2h. E trabalhei que nem uma moira da parte da tarde... isto porque me calhou em rifa secretariar a Reunião de Conselho Pedagógico. Mais valia ter ficado o dia todo em casa.
Vou alinhavar ou desalinhavar a acta ;)
Beijinhos.

Anabela Magalhães disse...

Ok, Carmo, ok...
Provavelmente foi do calor, infernal, aqui por Amarante!!!
Quanto ao Clap é nosso colega, de artes...
Se clicares em sima do seu nome nos comentários vais ter a casa dele direitinha. de qualquer modo aqui te deixo o endereço
http://clapclapclappp.blogspot.com/
Quando o abrires vai-te aparecer um aviso qualquer sobre conteúdos...Kakakakaka
Cá para mim é ele a reinar com a nossa cara!!!
Bjs

BC disse...

Como não sou professora, não tenho a vossa experiência, mas tenho a minha opinião.
Quando um aluno está numa aula e não olha a toda a hora para o relógio, quando um aluno quando toca não vai a correr para a porta
(a não ser que esteja aflito para fazer xixi :)),and so on...and so on....então eu acho que ele está seduzido e não está ali a fazer um frete, esse aluno quer mesmo "SABER" e "APRENDER"
Mas ainda existe muita coisa mal a nível do ensino,as crianças têm que perceber, que é para elas que
os professores trabalham (nem todos infelizmente).
E JÁ SEDUZI A AVÓ.
Beijinhos e continue a seduzir

Pedrita disse...

olá, descobri seu blog no geocrusoe. eu me preocupo bastante com as questões da infância, os direitos da criança e acho que estamos muito longe do ideal. mas precisamos batalhar sempre. me emociona encontrar uma professora apaixonada pelo seu ofício. beijos, pedrita

Anabela Magalhães disse...

Ai eu não acredito que escrevi em sima!!!!!!!!!!
Foi mesmo do calor em cima da minha cabeça!!!!!!!!!!!!!
Sorry