segunda-feira, 30 de junho de 2008

Gaiolas e asas


Este fim de semana andei lendo muito autor brasileiro. Dá pra notá? Pois é, uma das graças que eu devo ao meu Criador, quando achou que eu poderia ser assim uma professora de línguas com algum gosto, foi ter me dado uma enorme capacidade de apanhar acento, sotaque. Às vezes fica até um tanto embaraçoso... Pois, eu me deliciei (apesar dos constrangimentos existentes) com esta teoria de Rubem Alves. E por isso, vou partilhá-la com vocês...
Os pensamentos me chegam de forma inesperada, sob a forma de aforismos. Fico feliz porque sei que Lichtenberg, William Blake e Nietzsche frequentemente eram também atacados por eles. Digo "atacados" porque eles surgem repentinamente, sem preparo, com a força de um raio. Aforismos são visões: fazem ver, sem explicar. Pois ontem, de repente, esse aforismo me atacou: "Há escolas que são gaiolas. Há escolas que são asas".
Escolas que são gaiolas existem para que os pássaros desaprendam a arte do vôo. Pássaros engaiolados são pássaros sob controle. Engaiolados, o seu dono pode levá-las para onde quiser. Pássaros engaiolados sempre têm um dono. Deixaram de ser pássaros. Porque a essência dos pássaros é o vôo.
Escolas que são asas não amam pássaros engaiolados. O que elas amam são os pássaros em vôo. Existem para dar aos pássaros coragem para voar. Ensinar o vôo, isso elas não podem fazer, porque o vôo já nasce dentro dos pássaros. O vôo não pode ser ensinado. Só pode ser encorajado.
Esse simples aforismo nasceu de um sofrimento: sofri conversando com professoras de segundo grau, em escolas de periferia. O que elas contam são relatos de horror e medo. Balbúrdia, gritaria, desrespeito, ofensas, ameaças... E elas, timidamente, pedindo silêncio, tentando fazer as coisas que a burocracia determina que sejam feitas, como dar o programa, fazer avaliações... Ouvindo os seus relatos, vi uma jaula cheia de tigres famintos, dentes arreganhados, garras à mostra - e a domadoras com seus chicotes, fazendo ameaças fracas demais para a força dos tigres.
Sentir alegria ao sair de casa para ir à escola? Ter prazer em ensinar? Amar os alunos? O sonho é livrar-se de tudo aquilo. Mas não podem. A porta de ferro que fecha os tigres é a mesma porta que as fecha com os tigres.
Nos tempos de minha infância, eu tinha um prazer cruel: pegar passarinhos. Fazia minhas próprias arapucas, punha fubá dentro e ficava escondido, esperando... O pobre passarinho vinha, atraído pelo fubá. Ia comendo, entrava na arapuca e pisava no poleiro. E era uma vez um passarinho voante. Cuidadosamente eu enfiava a mão na arapuca, pegava o passarinho e o colocava dentro de uma gaiola. O pássaro se lançava furiosamente contra os arames, batia as asas, crispava as garras e enfiava o bico entre os vãos. Na inútil tentativa de ganhar de novo o espaço, ficava ensanguentado... Sempre me lembro com tristeza da minha crueldade infantil.
Violento, o pássaro que luta contra os arames da gaiola? Ou violenta será a imóvel gaiola que o prende? Violentos, os adolescentes de periferia? Ou serão as escolas que são violentas? As escolas serão gaiolas? Vão me falar sobre a necessidade das escolas dizendo que os adolescentes de periferia precisam ser educados para melhorarem de vida. De acordo. É preciso que os adolescentes, que todos, tenham uma boa educação. Uma boa educação abre os caminhos de uma vida melhor. Mas eu pergunto: nossas escolas estão dando uma boa educação? O que é uma boa educação?
O que os burocratas pressupõem sem pensar é que os alunos ganham uma boa educação se aprendem os conteúdos dos programas oficiais. E, para testar a qualidade da educação, criam mecanismos, provas e avaliações, acrescidos dos novos exames elaborados pelo Ministério da Educação.
Mas será mesmo? Será que a aprendizagem dos programas oficiais se identifica com o ideal de uma boa educação? Você sabe o que é "dígrafo"? E os usos da partícula "se"? E o nome das enzimas que entram na digestão? E o sujeito da frase "Ouviram do Ipiranga as margens plácidas de um povo heróico o brado retumbante"? Qual a utilidade da palavra "mesóclise"? Pobres professoras, também engaioladas... São obrigadas a ensinar o que os programas mandam, sabendo que é inútil. Isso é hábito velho das escolas. Bruno Bettelheim relata sua experiência com as escolas: "Fui forçado (!) a estudar o que os professores haviam decidido que eu deveria aprender. E aprender à sua maneira".


15 comentários:

BC disse...

As gaiolas são horríveis para qualquer pessoa.
Se me enfiassem num sítio fechado durante muito tempo, eu não aguentaria, tenho a certeza.
Coitadinhos dos pássaros engaiolados, como é que eles se sentirão,eles têm asas para voar bem alto e bem longe.
Será que fui pássaro noutra vida, os opostos atraiem-se,e como eu gosto de voar e gosto do mar, só pode ser sinónimo de liberdade, liberdade controlada,mas gosto de me sentir solta,e no entanto sou uma pessoa cheia de regras.
Será que isto quer dizer alguma coisa?
Daí algo estar provavelmente mal nas escolas,ninguém se deve sentir prisioneiro,mas sim ir de livre vontade e sentir-se bem, por si e pelos outros que estão a lutar por eles e a trabalhar para eles.
Enfim tudo tem uma relação, directa
ou indirectamente tudo está interligado.
Beijinhos dos Afectos - a minha cidade

Maria do Carmo Cruz disse...

Querida Isabel, amanhã já me vou deslocar para outro lugar da cidade de Luanda, mas, se não houver problema, continuarei na Blogosfera. Atenta aos meus Afectos, esperando e desejando de todo o coração que a Paz esteja connosco, com cada um de nós.
É claro que as opiniões de Rubem Alves são controversas, mas que são interessantes, disso não há dúvidas. Beijinhos, meu Sorriso Voador...

Anabela Magalhães disse...

Lindíssimo post. Engraçado que eu já postei parte deste texto no meu blogue e tive até a ousadia de lhe introduzir uma correcção, que aqui deixo também para saber a tua opinião. Eu diria antes que há salas de aula que são gaiolas e outras que não o são, e que permitem o voo aos pássaros que momentaneamente aí se abrigam.
Bjs

ematejoca disse...

SINTO-ME ANGUSTIADA.

Luis Neves disse...

sexta-feira foi à "fábrica braço de prata", que hoje é um espaço cultural muito giro em Lisboa. havia a festa do 3º congresso Feminista Português, devias gostar de lá ir.
Estava lá uma jovem artista que se chama Teresa Gentil , que faz parte de uma cooperativa cultural dos açores "Descalças". A música parece muito uma versão Jorge Palma no feminino.
Cantou esta canção , que acho que vais gostar:
Grau Zero
Se a guerra é o sonho dos ricos
Que mais podem os pobres fazer
E alma pede o que o corpo consome
Nada, mas nada, vai sobreviver

Largar a bomba é negócio fácil
É uma questão de orgulho nacional
Mas ninguém fala nos mortos à fome
carrascos e vitimas,
da hipócrisia mundial

E nos encontros pseudo-éticos
fala-se bem mas ganha-se melhor
farta já estou de políticos caquéticos
Comam e bebam, e comam e bebam,
e riam,
Só vão ter um buraco maior

Por entre os restos dos restos de nada
O sangue jorra e continua a escorrer
Enquanto houver sonhos logistas
Tudo, mas tudo, no inferno vai arder

Se quiseres ouvir aqui tens esta e outras músicas no myspace, http://www.myspace.com/teresagentil

Quem estava também por lá era o Moçambicano Mia Couto.

JMA disse...

Li este texto há vários anos (e está numa colectânea que editei com este título). Sim dentro das escolas há gaiolas e asas. E educar só pode ser ensinar a arte do voo. O que exige rigor, técnica, persistência...
Far-te-ei uma surpresa quando tomarmos um café juntos.

BC disse...

O sorriso voador deixou-lhe lá uma surpresinha avó, quando poder,é só voar até lá.
Boa noite e beijinhos, vou voar até à minha caminha.

Licas disse...

Então Amiga!

Já estou com saudades!
Que se passa consigo? a recuperação está a decorrer como deseja?
Diga-me um olá de vez em quando. Faz-me falta, muita falta mesmo, a sua companhia.

Até já!
Licas

CCz disse...

"Há escolas que são gaiolas. Há escolas que são asas".
.
IMHO preferia:
.
Há escolas que são gaiolas. Há escolas que dão asas.

Maria do Carmo Cruz disse...

Caro Luís, sei muito bem onde é a antiga fábrica de Braço de Prata e acho que lhe fizeram uma recuperação linda.
Como não vale a pena dizer o que não se sente, não sei se gostaria de ter ido a esse Congresso Feminista Português. E vou dizer-te porquê: não vejo razão para hoje haver Feministas. Já viste alguma organização de Masculinistas? Do que eu conheço de Feminismo, achei interessante a luta inicial, porque tinha ideais. Agora, o que se pede, o que se quer? Nada que não possamos ter por sermos Mulheres. Não considero, neste momento, nenhuma razão para as mulheres se considerarem discriminadas que não possa ser vencida sem guerra. Apenas com solidariedade inter-géneros. Não iremos a lado nenhum com comparações, queixas, lamúrias. Vamos, sim, impondo os nossos pontos de vista e isso começa logo em casa, tanto nas relações conjugais como nas relações pais-filhos.
Mas as coisas podem ter evoluído (há muito que me tenho afastado desse aspecto social, porque algumas posições me incomodavam)e hoje talvez eu tivesse gostado de ir e de participar. Porque eu onde vou é para participar. Basta quando morrer para fazer figura de corpo presente...
E gostei do conteúdo da canção. Ainda não a ouvi. Mas do que gostei mesmo foi de te teres lembrado de que eu talvez gostasse de estar presente... Isso, sim, gostei muito. Obrigada.
Quanto ao Mia Couto, vou contar-te um segredo: em 90% dos casos, os escritores são escritores e as suas obras são as suas obras. Mesmo com grandes Poetas acontece. Pessoas que escrevem maravilhas profundíssimas sobre a condição humana, sobre a Liberdade, sobre a Paz, e são como os padres que pregam contra a falta de castidade e têm sete filhos...
Um abraço, Luís. E vai aparecendo. Avó Pirueta

Senhor Engenheiro, como "quase" sempre, faço minhas as suas palavras. Beijinho.

Os Incansáveis disse...

Olá, Maria do Carmo
Agradeço sua visita em nosso blog.
Trabalho como voluntária na Fundação SOS Mata Atlântica aqui em São Paulo. A Fundação possui um programa de Educação Ambiental chamado "Plantando Cidadania", que contempla escolas de comunidades carentes da zona sul da cidade, região de mananciais (as represas da Guarapiranga e Billings estão nesta área). Periodicamente, visitamos as escolas cadastradas no programa e, de maneira lúdica, mostramos como podemos preservar o meio ambiente no dia-a-dia e dentro do contexto social e cultural dessas comunidades. A idéia é mostrar que elas, mesmo morando em uma comunidade de baixa renda, são cidadãs, são capazes e inteligentes, têm deveres e, principalmente, têm direitos. Neste projeto, vemos a escola como meio de dar asas a essas crianças.
Lamentavelmente, algumas instituições públicas não vêm com bons olhos o que fazemos (como ousamos fazer essas crianças pensarem? E se elas resolvem tentar mudar o "status quo"?) e estão querendo impedir que as escolas fiquem abertas para a comunidade nos fins de semana. Claro que uma escola não pode ficar simplesmente com seus portões abertos sem oferecer oportunidades de lazer. Isso já foi demonstrado que dessa maneira, a escola vira um antro do tráfico de drogas. Mas as experiências que temos observado, em que a comunidade, com sua associação de bairro, realmente utiliza a escola para realizar encontros e debates, é muito positiva.
Beijos
Denise

ematejoca disse...

"Wissen ist Macht" E sem escolas nao temos saber, e sem saber nao temos poder.
Querida Carmo, agora é só para te dar uma informacao: O PM3D é o pai do Diogo e colega do Raúl no Colégio.
Nada de Amarantes, mas sim Vila Nova de Gaia.

Cheguei agora a casa cheia de calor e cansadíssima.
Logo à noitinha volto.

Gostei imenso do que a bc se lembrou. Que grupo de afectos fantásticos. Mas também é em parte culpa vossa a minha tristeza: cada vez sinto mais saudades de Portugal.

Mil Bj*** de Düsseldorf!

f@ disse...

Olá, vim aqui espreitar ... estive a ler o poema do BC e fiquei curiosa...
Parabens pelo espaço tão bonito e por este post que dá para "voar"...

bj das nuvens

geocrusoe disse...

Gostei do tema, da forma como pode ser uma escola e o que ela deve ser... asas para se poder voar.
Não há segredo no nome, chamo-me Carlos Faria, mesmo que quisesse segredo, numa ilha com 15 mil habitantes, sendo eu colunista de jornal, ex-presidente de junta de freguesia, colaborador de instituições culturais, em pouco se descobriria quem eu era... cá sabem todos quem sou. geocrusoe veio do facto de quando tirei o mestrado, na ilha de s miguel, eu me deslocar quinzenalmente aos fins-de-semana e depois regressar à minha ilha sem ter um único geólogo para trocar ideias (havia 1 mas, como muitos, tirou geologia porque os numerus clausus lhe deram essa oportunidade é boa pessoa, mas sem a paixão na matéria). hoje há 1 geóloga, colega de trabalho, leitora e utilizadora do material do blog e que gosta deste campo de saber... com o tempo iremos conversar mais.

Raul Martins disse...

Lindo o texto, editado pelo JMA na ASA que infelizmente nos deixa orfãos da possibilidade de continuarmos a ter acesso a estas preciosidades, fruto do excelente trabalho de direcção do nosso JMA... bem mas isto são contas de outro rosário.
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E eu também quero o café que algures no "terrear" já ficou conbinado.
.
Caro Ccz, completamente de acordo. Sempre a ir ao mais profundo das palavras.
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E Carmo, já que a Teresa fala do PMD3 (também fiquei admirado de o ver a navegar pelas águas do Tâmega acima), deixa-me dizer-te que é um excelente colega e amigo.
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Carpe diem!