Sim, coitadita de mim, que sou uma pessoa sem nada de especial e que recebe, por certo imerecidamente, tanto carinho de todos os que aqui vêm visitar-me. Não ando fugida, não: apenas ocupada em outras lides e sem ter todo o tempo de que dispunha para blogar à vontade...
Quero aqui responder a todos, dizendo que continuo lúcida (até os loucos se julgam lúcidos, por isso esta recomendação não faz muito sentido...) na apreciação do que se passa à minha volta, que sinto uma enorme preocupação com a situação actual, que me custa não ver dirigentes à altura, capazes de mobilizarem os Portugueses para o trabalho, a auto-estima bem orientada, o respeito próprio. E mais do que um, porque nós somos todos diversos. Farta de cantar a uma só voz devemos estar todos.
Olho à minha volta e fico zangada comigo: a minha primeira tentação é criticar. Ora eu não nasci para dizer mal, valha-me Deus! Mas o que é que vejo? Ontem fui a uma empresa de comunicação para simplesmente formatar a internet portátil numa pen em vez da placa que tinha. Na loja onde me apresentei, uma entre milhares das que agora pululam, especialmente nos centros comerciais, estavam sete (!) funcionários, três meninas e quatro meninos. Loja vazia. Não senhora, não faziam aquele trabalho. Só na loja técnica. Ali só se vendia. E na loja técnica só com hora marcada. Disposta a mudar de operadora se, pelo menos, não fosse bem atendida, lá fui à loja técnica com hora marcada. E apareceu-me um jovem simpático, que descomplicou aquele trabalho todo, que mostrou uma disponibilidade e uma simpatia inexcedíveis, que fez o que lhe pedi e o que não pedi, com um sorriso e uma forma de trabalhar que me puseram de bem com o mundo. E mais, sem ele o dizer abertamente, fiquei a saber que aquela operação poderia muito facilmente ter sido realizada por qualquer um daqueles "sábios" que estavam a fazer que faziam alguma coisa...
Como sabem, também sou Formadora. Privilegio a área das Relações Humanas. Pois um dia destes descobri que muita da formação que agora é dada de pacotilha aos novos exércitos de jovens que são necessários para alimentar esta economia de faz-de-conta, em que nada se produz e tudo se "serve", é baseada na teoria de que "distância é que é preciso. O cliente é chato (sic), exigente"!
Coisas boas para dizer: há um Professor chamado António que conquistou um aluno rebelde e o tem na mão! Com o recurso ao e-mail!
A "minha" oliveira que veio de Israel e que os alunos do Raul plantaram comigo no Colégio dos Carvalhos está radiosa!
Esta bela notícia foi-me transmitida por texto de uma aluna!
O meu neto mais velho está a subir as classificações de teste para teste e tem uma namorada que o "ajuda" a ser mais responsável!
Os meus dois outros netos, irmãos, continuam óptimos alunos!
O Pai deles, meu Filho, não desiste de pregar aos peixes e de mostrar o que se pode fazer para não nos afundarmos na recessão!
E as minhas palavras voltaram a ser jovens, limpas, renovadas!
terça-feira, 28 de outubro de 2008
quarta-feira, 22 de outubro de 2008
Em tempo de crise... quanto menos se falar melhor
Na entrada deste blogue tenho-me situado entre o Porto e algures em Angola e Moçambique. Agora, para ser mais verdadeira, deverei dizer que me situo algures entre o Porto, Lisboa, Angola e Moçambique, embora por este ano de 2008 me deva circunscrever às duas cidades portuguesas.
Tenho andado calada, por várias razões: tenho novas responsabilidades na minha vida pessoal, tenho tido tarefas para cumprir aqui em Portugal ligadas às minhas actividades africanas, tenho naturais preocupações com a crise financeira (tenho filhos e netos e, por eles, temo o futuro), tenho andado à espera que assente a poeira docente.
Sim, sinto que está muita poeira levantada, e quando tal acontece sem ter uma causa natural (um vendaval, por exemplo), normalmente é para obscurecer qualquer coisa que não interessa que se veja. A senhora ministra dá entrevistas e continua a mostrar que tem os Professores em pouca conta. Alguns professores resolvem dar-lhe razão e fazem gala de mostrar em público atitudes que não os recomendam para a docência.
Fico incomodada quando os professores se expõem de forma menos própria, pois sinto que os melhores, os Professores, acabam por ser penalizados na opinião pública. E tal é injusto. Não acredito, há séculos, nos sindicalistas que não dão aulas, que se preocupam com as "carreiras" mas não com o trabalho dos Professores, sobretudo os mais jovens, nas escolas periféricas. Comecei ontem a ler "A Turma", e quase não consigo parar de ler, mas acabo por sentir que estou apenas a rever os martírios por que passou a Rosinha numa Escola dos arredores lisboetas, sem nunca ter tido o apoio de ninguém, dos colegas mais velhos ao sindicato, dos directores de turma ao Conselho Executivo.
A Rosinha (nome fictício de uma pessoa real) teve a sorte de, logo a seguir, ter sido colocada numa Escola do Porto. Logo no primeiro dia de aulas houve queixas dos alunos junto da direccão. No dia seguinte, eram os pais. A Rosinha apresentava-se vestida de preto, com uns óculos de aros pretos, feios, com o cabelo apertado num rabo de cavalo. Logo na apresentação disse aos alunos que não estava interessada em que gostassem dela. Ela estava ali para ensinar Inglês e não para gostar ou para que gostassem dela. Estranho, no mínimo.
As coisas poderiam ter tomado o caminho natural destas situações: inquérito, chamada ao C.E., palmadinhas nas costas aos pais e aos alunos, mas aquele C.E. n ão agiu assim. Um dos seus membros convidou a Rosinha para almoçar em sua casa, pediu-lhe que tirasse os óculos, que soltasse o cabelo e viu que estava perante uma jovem e bela Professora assustada. Os óculos não tinham graduação. A Rosinha contou todas as suas ilusões desfeitas, a vontade de encontrar outra actividade, o abandono em que se encontrava depois de um ano em que tinha sido sujeita às provas mais difíceis e ofensivas junto de alunos a roçar a marginalidade. E recebeu a certeza de que ali, naquela Escola, ela poderia gostar dos Alunos e deixar que eles gostassem dela. Ela poderia apresentar-se com o era, com a certeza de que não seria incomodada com piropos torpes. Ela poderia acreditar que, se fosse preciso, receberia a ajuda necessária. Hoje, é uma PROFESSORA sem medos, confiante.
Será que ela pensa que está tudo bem na Escola? Não. Ela sabe que não está. Mas sabe que pode ajudar a melhorar.
Os docentes tiveram que receber formação por causa do computador Magalhães. Avaliaram essa formação como inadequada, mal preparada, sem ligação aos objectivos que se pretendiam atingir. Que fizeram? Eu não gostei de os ver a fazer figuras ridículas. O que eu teria feito seria não só rebelar-me contra essa formação mas ainda explicitar muito claramente junto de quem de direito por que não estava de acordo com ela. Tudo o resto me faz lembrar a teoria do "quanto pior, melhor".
Também não tive ainda o gosto de ver Professores e Pais a manifestarem a sua preocupação por se entregarem computadores a mãozinhas que deveriam treinar a motricidade fina a pegar no lápis e desenhar letras. O computador no 1º ano? Só como brinquedo. E se se pode aprender a brincar, não será certamente com o computador.
Sei que há muitas razões de queixa contra a avaliação. Mas aquela que tenho mais mencionada ultimamente é a da papelada burocrática. E quem aparece mais papista do que o papa na situação? Muitas Direcções das Escolas.
Espero que a Anabela, a Teresa (da Teia), o Raul, o Existente Instante, o Cumpadre Besberto, o Clap, a Fátima, a Paula, o Zé, o Luís, em nome de todos os que não conheço, me compreendam. Sei o sacrifício que fazem todos os dias, sei como dedicam todo o seu tempo aos Alunos (o que não quer obrigatoriamente dizer escola), sei como chegam cansados ao fim do dia, mas também sei como resistem à tentação de deixar de serem o que sempre foram: excelentes Professores! Mesmo que a famosa curva de Gauss não contemple tantos excelentes...
Quanto à crise, continuamos a viver alegremente acima das nossas posses. Tudo porque "esta vida são dois dias e quem vier atrás que feche a porta"...
Tenho andado calada, por várias razões: tenho novas responsabilidades na minha vida pessoal, tenho tido tarefas para cumprir aqui em Portugal ligadas às minhas actividades africanas, tenho naturais preocupações com a crise financeira (tenho filhos e netos e, por eles, temo o futuro), tenho andado à espera que assente a poeira docente.
Sim, sinto que está muita poeira levantada, e quando tal acontece sem ter uma causa natural (um vendaval, por exemplo), normalmente é para obscurecer qualquer coisa que não interessa que se veja. A senhora ministra dá entrevistas e continua a mostrar que tem os Professores em pouca conta. Alguns professores resolvem dar-lhe razão e fazem gala de mostrar em público atitudes que não os recomendam para a docência.
Fico incomodada quando os professores se expõem de forma menos própria, pois sinto que os melhores, os Professores, acabam por ser penalizados na opinião pública. E tal é injusto. Não acredito, há séculos, nos sindicalistas que não dão aulas, que se preocupam com as "carreiras" mas não com o trabalho dos Professores, sobretudo os mais jovens, nas escolas periféricas. Comecei ontem a ler "A Turma", e quase não consigo parar de ler, mas acabo por sentir que estou apenas a rever os martírios por que passou a Rosinha numa Escola dos arredores lisboetas, sem nunca ter tido o apoio de ninguém, dos colegas mais velhos ao sindicato, dos directores de turma ao Conselho Executivo.
A Rosinha (nome fictício de uma pessoa real) teve a sorte de, logo a seguir, ter sido colocada numa Escola do Porto. Logo no primeiro dia de aulas houve queixas dos alunos junto da direccão. No dia seguinte, eram os pais. A Rosinha apresentava-se vestida de preto, com uns óculos de aros pretos, feios, com o cabelo apertado num rabo de cavalo. Logo na apresentação disse aos alunos que não estava interessada em que gostassem dela. Ela estava ali para ensinar Inglês e não para gostar ou para que gostassem dela. Estranho, no mínimo.
As coisas poderiam ter tomado o caminho natural destas situações: inquérito, chamada ao C.E., palmadinhas nas costas aos pais e aos alunos, mas aquele C.E. n ão agiu assim. Um dos seus membros convidou a Rosinha para almoçar em sua casa, pediu-lhe que tirasse os óculos, que soltasse o cabelo e viu que estava perante uma jovem e bela Professora assustada. Os óculos não tinham graduação. A Rosinha contou todas as suas ilusões desfeitas, a vontade de encontrar outra actividade, o abandono em que se encontrava depois de um ano em que tinha sido sujeita às provas mais difíceis e ofensivas junto de alunos a roçar a marginalidade. E recebeu a certeza de que ali, naquela Escola, ela poderia gostar dos Alunos e deixar que eles gostassem dela. Ela poderia apresentar-se com o era, com a certeza de que não seria incomodada com piropos torpes. Ela poderia acreditar que, se fosse preciso, receberia a ajuda necessária. Hoje, é uma PROFESSORA sem medos, confiante.
Será que ela pensa que está tudo bem na Escola? Não. Ela sabe que não está. Mas sabe que pode ajudar a melhorar.
Os docentes tiveram que receber formação por causa do computador Magalhães. Avaliaram essa formação como inadequada, mal preparada, sem ligação aos objectivos que se pretendiam atingir. Que fizeram? Eu não gostei de os ver a fazer figuras ridículas. O que eu teria feito seria não só rebelar-me contra essa formação mas ainda explicitar muito claramente junto de quem de direito por que não estava de acordo com ela. Tudo o resto me faz lembrar a teoria do "quanto pior, melhor".
Também não tive ainda o gosto de ver Professores e Pais a manifestarem a sua preocupação por se entregarem computadores a mãozinhas que deveriam treinar a motricidade fina a pegar no lápis e desenhar letras. O computador no 1º ano? Só como brinquedo. E se se pode aprender a brincar, não será certamente com o computador.
Sei que há muitas razões de queixa contra a avaliação. Mas aquela que tenho mais mencionada ultimamente é a da papelada burocrática. E quem aparece mais papista do que o papa na situação? Muitas Direcções das Escolas.
Espero que a Anabela, a Teresa (da Teia), o Raul, o Existente Instante, o Cumpadre Besberto, o Clap, a Fátima, a Paula, o Zé, o Luís, em nome de todos os que não conheço, me compreendam. Sei o sacrifício que fazem todos os dias, sei como dedicam todo o seu tempo aos Alunos (o que não quer obrigatoriamente dizer escola), sei como chegam cansados ao fim do dia, mas também sei como resistem à tentação de deixar de serem o que sempre foram: excelentes Professores! Mesmo que a famosa curva de Gauss não contemple tantos excelentes...
Quanto à crise, continuamos a viver alegremente acima das nossas posses. Tudo porque "esta vida são dois dias e quem vier atrás que feche a porta"...
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domingo, 5 de outubro de 2008
Dia Mundial do Professor
Logo de manhã sentei-me à secretária, liguei o computador, abri a Internet e procurei, entre aspas, o que poderia haver sob a designação de "Ser Professor". Encontrei 247 000 sites em que aparecia a expressão. Fiquei a ler, a ler, até que chegou a hora de preparar o almoço. Porque os Professores contam, sim, mas também comem...
Depois, estive a ler os jornais e a ver o que se dizia sobre o assunto do dia. Um pouco incomodada. Porque as mágoas daqueles que aprecio e admiro me doem também. Bem, mas de tudo o que li, o que me encheu a alma foram estas palavras de Rubem Alves que fui roubar ao Terrear:
"Ensinar é um exercício de imortalidade. De alguma forma, continuamos a viver naqueles cujos olhos aprenderam a ver o mundo pela magia da nossa palavra. O professor, assim, não morre jamais..."
Perdoem-me por continuar assim, crente na missão que escolhi para ser a minha vida e por ainda acreditar em Utopias na minha idade. Não quero falar hoje em avaliações, em ministros, em papéis, em carreiras, nada disso.
Quero lembrar a alegria e o entusiasmo com que começo sempre uma aula, seja ela do que for. Quero saborear a lembrança de ver o rosto de um aluno com menos aptidões para a nossa disciplina a iluminar-se quando entende, quando integra em si um novo conhecimento.
Quero pensar na Emilia Melhorado, que se lembrou de mim a semana passada e andou à procura do meu endereço, ela que está na sua terra em Vila Nova de Foz Coa, para me pedir um conselho.
Quero, hoje, mais do que nunca, orgulhar-me da certeza de que, como disse o João Bernardo, alguém pode não ter feito algo de errado porque se lembrou de mim.
Parece um auto-elogio, não é verdade? E elogio em boca própria é vitupério, diz o ditado. Mas quando digo isto faço-o com a certeza de que dezenas, centenas, milhares de Professores o podem fazer também.
Fui Professora durante mais de 40 anos e apenas duas vezes dois alunos foram um pouco indelicados, com uma diferença de 10 anos entre as duas actuações. Mal lhes recordo o nome. Mas vejo à minha frente todos os rostos, todas as relações que se estabeleceram entre nós, todas as delicadezas, o carinho, as pequenas coisas cúmplices que nos uniam.
E neste dia em que os Alunos que passaram pela nossa vida talvez nos recordem com saudade, quero prestar a minha homenagem aos Professores que mais me marcaram:
- D. Magda, na 4ª classe, pelos desafios que nos lançava;
- Dra. Elsa, de Francês, pela delicadeza, aliada ao conhecimento, com que nos educava, naqueles tempos difíceis e lugares longínquos;
- Dra. Amélia, de Matemática, por nos mostrar para que é que ela servia, aquela Matemática de que tantas tinham medo;
- Dra. Hermínia Roberts, de Português, (e Reitora) por me ter entusiasmado com os Lusíadas;
- Dr. Barata, a quem carinhosamente chamávamos o Dr. Baratinha, baixinho, de Filosofia, que nos ensinava a raciocinar e a pensar pela nossa cabeça.
Vejam, de entre a multiplicidade de Professores que tive, quantos me ficaram no coração e na alma! E enquanto eu viver, estes Professores continuarão vivos.
Pois se é verdade que
"Ensinar não tem que ser mesmo um sacerdócio
Mas é mister de tão grande valor
Que, depois do Amor e do Ócio,
Não há nada maior
(Nem melhor)
Do que ser Professor"...
Sei que às vezes é duro, é difícil, mas está na nossa mão emendar o erro, trazer à tona a Verdade e a Razão. E não se zanguem comigo: vinte vidas tivesse eu, e para a vontade que tenho de aprender e ensinar, não seriam bastantes!
Para todos os Colegas, os meus desejos e votos sinceros de que possam, em breve, sentir o que sinto. Felicidades.
Depois, estive a ler os jornais e a ver o que se dizia sobre o assunto do dia. Um pouco incomodada. Porque as mágoas daqueles que aprecio e admiro me doem também. Bem, mas de tudo o que li, o que me encheu a alma foram estas palavras de Rubem Alves que fui roubar ao Terrear:
"Ensinar é um exercício de imortalidade. De alguma forma, continuamos a viver naqueles cujos olhos aprenderam a ver o mundo pela magia da nossa palavra. O professor, assim, não morre jamais..."
Perdoem-me por continuar assim, crente na missão que escolhi para ser a minha vida e por ainda acreditar em Utopias na minha idade. Não quero falar hoje em avaliações, em ministros, em papéis, em carreiras, nada disso.
Quero lembrar a alegria e o entusiasmo com que começo sempre uma aula, seja ela do que for. Quero saborear a lembrança de ver o rosto de um aluno com menos aptidões para a nossa disciplina a iluminar-se quando entende, quando integra em si um novo conhecimento.
Quero pensar na Emilia Melhorado, que se lembrou de mim a semana passada e andou à procura do meu endereço, ela que está na sua terra em Vila Nova de Foz Coa, para me pedir um conselho.
Quero, hoje, mais do que nunca, orgulhar-me da certeza de que, como disse o João Bernardo, alguém pode não ter feito algo de errado porque se lembrou de mim.
Parece um auto-elogio, não é verdade? E elogio em boca própria é vitupério, diz o ditado. Mas quando digo isto faço-o com a certeza de que dezenas, centenas, milhares de Professores o podem fazer também.
Fui Professora durante mais de 40 anos e apenas duas vezes dois alunos foram um pouco indelicados, com uma diferença de 10 anos entre as duas actuações. Mal lhes recordo o nome. Mas vejo à minha frente todos os rostos, todas as relações que se estabeleceram entre nós, todas as delicadezas, o carinho, as pequenas coisas cúmplices que nos uniam.
E neste dia em que os Alunos que passaram pela nossa vida talvez nos recordem com saudade, quero prestar a minha homenagem aos Professores que mais me marcaram:
- D. Magda, na 4ª classe, pelos desafios que nos lançava;
- Dra. Elsa, de Francês, pela delicadeza, aliada ao conhecimento, com que nos educava, naqueles tempos difíceis e lugares longínquos;
- Dra. Amélia, de Matemática, por nos mostrar para que é que ela servia, aquela Matemática de que tantas tinham medo;
- Dra. Hermínia Roberts, de Português, (e Reitora) por me ter entusiasmado com os Lusíadas;
- Dr. Barata, a quem carinhosamente chamávamos o Dr. Baratinha, baixinho, de Filosofia, que nos ensinava a raciocinar e a pensar pela nossa cabeça.
Vejam, de entre a multiplicidade de Professores que tive, quantos me ficaram no coração e na alma! E enquanto eu viver, estes Professores continuarão vivos.
Pois se é verdade que
"Ensinar não tem que ser mesmo um sacerdócio
Mas é mister de tão grande valor
Que, depois do Amor e do Ócio,
Não há nada maior
(Nem melhor)
Do que ser Professor"...
Sei que às vezes é duro, é difícil, mas está na nossa mão emendar o erro, trazer à tona a Verdade e a Razão. E não se zanguem comigo: vinte vidas tivesse eu, e para a vontade que tenho de aprender e ensinar, não seriam bastantes!
Para todos os Colegas, os meus desejos e votos sinceros de que possam, em breve, sentir o que sinto. Felicidades.
sábado, 4 de outubro de 2008
Dia de S. Francisco de Assis

Hoje é dia de S. Francisco de Assis e eu quero agradecer a todos os que se lembraram do meu simples aniversário. A todos e a cada um, o meu carinho grato e cordial (do coração). E a minha oração preferida, pois a considero um Programa de Vida.
Oração da Paz de S. Francisco de Assis:
Senhor, fazei de mim um instrumento de vossa paz;
Onde houver ódio, que eu leve o amor;
Onde houver discórdia, que eu leve a união;
Onde houver dúvidas, que eu leve a fé;
Onde houver erros, que eu leve a verdade;
Onde houver ofensa, que eu leve o perdão;
Onde houver desespero, que eu leve a esperança;
Onde houver tristeza, que eu leve a alegria;
Onde houver trevas, que eu leve a luz.
Ó Mestre,
fazei com que eu procure mais consolar,que ser consolado;
Compreender, que ser compreendido;
Amar, que ser amado;Pois é dando que se recebe;
Pois é perdoando, que se é perdoado;
E é morrendo que se vive para a vida eterna.
Tudo tão simples, como só poderia vir de uma alma simples, como a daquele a que chamaram "o Louco de Deus".
Um abraço cheio de Carinho da Avó Pirueta
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Aniversário,
Dia do Animal,
S. Francisco de Assis
segunda-feira, 29 de setembro de 2008
Comentário-resposta aos comentários do poste anterior
Vou responder aqui aos Amigos e Leitores que fizeram o favor de ler e comentar o poste do dia 27.
Primeiro: estamos todos de acordo em que a avaliação que existia não era nada, era menos que nada, permitia a consagração da fachada, da funcionalização. Quantos professores eram avaliados com o raríssimo "Não Satisfaz"? E quantos documentos apresentados nos relatórios eram consabidamente falsos? Quantos relatórios eram copiados a partir de outros?
É claro que concordo que há mais Professores que professores, mas o prejuízo causado por um só professor pode ofuscar, diminuir, impedir, sabotar, o trabalho de 10 Professores.Sou pela Avaliação, sim! Eu própria, ao atingir o 10º escalão, pedi, como era meu direito, para ser avaliada externamente à minha Escola. Porque não queria sair com o mesmo mísero "Satisfaz" de pelo menos três colegas que se aposentariam no mesmo ano que eu. Podem pensar que isto é orgulho, soberba, mesquinhice, demasiada auto-estima. Pois eu pensei que estava a fazer justiça ao meu trabalho como Professora! O que penso ainda é que a Avaliação, tal como a vejo, deve ser formativa, isto é, a sua principal finalidade deve ser melhorar o desempenho mais do que "catalogar" o docente como mau ou bom. Essa ideia criámo-la nós, Professores maiúsculos e minúsculos, quando usamos os testes para "ver" quem aprendeu e quem não aprendeu. Na minha óptica, os testes eram primeiramente para eu aferir o meu próprio trabalho e só interessavam se me permitiam ver o que tinha falhado com alguns e porquê. Logo, com os docentes a Avaliação tem de ter esse objectivo. Quem a usar para sobressair (como avaliador), para humilhar, para se vingar, para se apropriar de técnicas e estratégias dos avaliados não merece ser avaliador e deveria ser avaliado negativamente como tal.
Estamos todos no mesmo barco: queremos uma Educação melhor, uma Escola mais activa, mais atractiva, uma Relação interpessoal mais humana. Se a Avaliação não permitir tal, se for realizada com papel e lápis, tesoura e esquadro, fita métrica e relógio, sem alma, sem coração, sem solidariedade, sem justiça, então nem sequer vale a pena começar.
A Vida trouxe-me, mais uma vez, o que prova a infinita Bondade divina, outras obrigações que não me permitem dedicar tanto tempo ao blogue ou a comentários. Já agradeci a todos os que se interessam pela minha ausência e fazem o favor de gostar de ler o que me dita o coração e a cabeça, mas, realmente, tenho o tempo muito agradavelmente mais ocupado e, como em tudo, é preciso fazer opções...
Primeiro: estamos todos de acordo em que a avaliação que existia não era nada, era menos que nada, permitia a consagração da fachada, da funcionalização. Quantos professores eram avaliados com o raríssimo "Não Satisfaz"? E quantos documentos apresentados nos relatórios eram consabidamente falsos? Quantos relatórios eram copiados a partir de outros?
É claro que concordo que há mais Professores que professores, mas o prejuízo causado por um só professor pode ofuscar, diminuir, impedir, sabotar, o trabalho de 10 Professores.Sou pela Avaliação, sim! Eu própria, ao atingir o 10º escalão, pedi, como era meu direito, para ser avaliada externamente à minha Escola. Porque não queria sair com o mesmo mísero "Satisfaz" de pelo menos três colegas que se aposentariam no mesmo ano que eu. Podem pensar que isto é orgulho, soberba, mesquinhice, demasiada auto-estima. Pois eu pensei que estava a fazer justiça ao meu trabalho como Professora! O que penso ainda é que a Avaliação, tal como a vejo, deve ser formativa, isto é, a sua principal finalidade deve ser melhorar o desempenho mais do que "catalogar" o docente como mau ou bom. Essa ideia criámo-la nós, Professores maiúsculos e minúsculos, quando usamos os testes para "ver" quem aprendeu e quem não aprendeu. Na minha óptica, os testes eram primeiramente para eu aferir o meu próprio trabalho e só interessavam se me permitiam ver o que tinha falhado com alguns e porquê. Logo, com os docentes a Avaliação tem de ter esse objectivo. Quem a usar para sobressair (como avaliador), para humilhar, para se vingar, para se apropriar de técnicas e estratégias dos avaliados não merece ser avaliador e deveria ser avaliado negativamente como tal.
Estamos todos no mesmo barco: queremos uma Educação melhor, uma Escola mais activa, mais atractiva, uma Relação interpessoal mais humana. Se a Avaliação não permitir tal, se for realizada com papel e lápis, tesoura e esquadro, fita métrica e relógio, sem alma, sem coração, sem solidariedade, sem justiça, então nem sequer vale a pena começar.
A Vida trouxe-me, mais uma vez, o que prova a infinita Bondade divina, outras obrigações que não me permitem dedicar tanto tempo ao blogue ou a comentários. Já agradeci a todos os que se interessam pela minha ausência e fazem o favor de gostar de ler o que me dita o coração e a cabeça, mas, realmente, tenho o tempo muito agradavelmente mais ocupado e, como em tudo, é preciso fazer opções...
sábado, 27 de setembro de 2008
Eu avalio, tu avalias, ele avalia...
Tinha uma enorme vontade de participar neste encontro de ideias sobre a Avaliação dos Professores mas sentia que pouca coisa de novo podia trazer à colação e por isso me tenho mantido em silêncio. Depois, comecei a lembrar-me de como sempre me bati pessoalmente ou em colaboração com Colegas por uma Avaliação dos Professores justa e, na quinta-feira passada, desloquei-me a uma Escola privada para um encontro com Alunos do 6º ano e tudo me voltou à mente.
Primeiro, e porque neste espaço pouca gente me conhece, começo por informar que o meu uso de maiúsculas é sempre intencional e significativo. Bem, o ambiente que encontrei nesta Escola que visitei fez-me um imenso bem: reconciliou-me com a Escola privada. Tudo o que pude apreciar me permite afirmar sem dúvidas que, ali, avaliar os Professores não vai ser difícil, sejam quais forem os critérios a ter em conta, incluindo, provavelmente, até os Pais e Encarregados de Educação. Para dar mais uma achega, a Escola tem mais de 1200 alunos, o que é obra.
Sei que estou a sonhar (mas não foi a sonhar que consegui tudo o que quis na Vida?), porque a realidade é profundamente diferenciada e não se deveria avaliar actores/acções diferentes com as mesmas medidas. Mas é preciso avaliar e confio que tal será possível a partir precisamente daqueles que, com razão, mais se preocupam com a Avaliação.
Por muito que nos custe, sabemos de antemão que são e serão os Professores mais dedicados, os Professores por vocação, que vão sentir mais na pele o que este sistema traz. Porque são esses os que se preocupam, os que se avaliam a si mesmos todos os dias na privacidade da sua consciência, após cada aula, após cada experiência, após cada teste. E, humanos que são, não podem nem querem ser avaliados como os professores "funcionalizados" que, em maior ou menor número, existem em todas as Escolas. Ser Professor é demasiadamente importante para ser trabalho de funcionários e, portanto, se não agimos como funcionários não podemos ser avaliados com os mesmos critérios. O Professor em cujas turmas alguns alunos não têm sucesso são os mesmos dos alunos que têm sucesso. Logo, o sucesso das turmas não pode ser critério de diferenciação. Mas a atitude do Professor perante o sucesso e o insucesso, por muito difícil que seja de Avaliação, essa, sim, merece sê-lo.
O Professor que reclama que não pode ser bom docente se tiver que permanecer 35 horas por semana na Escola, além das horas para as reuniões, está a lutar pela dignificação da sua acção. O Professor que "chora" o tempo que perde a preencher papéis criados por burocratas, tem todo o meu apoio e compreensão.
Mas se esse mesmo docente nunca tiver tempo para ir até ao recreio, se não for capaz de sacrificar um intervalo para ouvir um aluno ou uma turma inteira, aquele que não "vê" os Alunos quando passa por eles nos corredores e só é docente na sala de aula, esse não é Professor e pode ser facilmente avaliado: sem desprimor nem ofensa, como um simples burocrata.
Ora, o que eu temo é precisamente que a Avaliação, como estava prevista (há tanta mudança e medida avulsa!) "empurre" os Professores para a "funcionalização"! Mas, por outro lado, tenho a Certeza, mais do que a Esperança, de que em todas as Escolas há Professores que vão avaliar e ser avaliados dentro de um espírito de partilha que, sinceramente, eu não senti que existisse antes como factor de carácter geral: praticamente nunca conheci trabalho mais autónomo do que o docente. Será esse espírito de partilha, de entre-ajuda, que poderá fazer toda a diferença e os professores "funcionalizados" auto-excluir-se-ão naturalmente. O que significa que a sua avaliação será um processo fácil e, o que é mais importante, justo...
O que não poderemos evitar, na minha opinião pessoal e discutível, é que a Avaliação veio para ficar. Que, como qualquer mudança profunda (e eu desejaria que ela fosse causa de mudança de tudo o que está menos bem), ela vem sempre acompanhada de alguma injustiça que recai sobre os melhores. Mas que, após um curto período de tempo (assim seja!), ela acabará por se auto-regular. E então os bons e os maus serão facilmente reconhecidos como tal.
Primeiro, e porque neste espaço pouca gente me conhece, começo por informar que o meu uso de maiúsculas é sempre intencional e significativo. Bem, o ambiente que encontrei nesta Escola que visitei fez-me um imenso bem: reconciliou-me com a Escola privada. Tudo o que pude apreciar me permite afirmar sem dúvidas que, ali, avaliar os Professores não vai ser difícil, sejam quais forem os critérios a ter em conta, incluindo, provavelmente, até os Pais e Encarregados de Educação. Para dar mais uma achega, a Escola tem mais de 1200 alunos, o que é obra.
Sei que estou a sonhar (mas não foi a sonhar que consegui tudo o que quis na Vida?), porque a realidade é profundamente diferenciada e não se deveria avaliar actores/acções diferentes com as mesmas medidas. Mas é preciso avaliar e confio que tal será possível a partir precisamente daqueles que, com razão, mais se preocupam com a Avaliação.
Por muito que nos custe, sabemos de antemão que são e serão os Professores mais dedicados, os Professores por vocação, que vão sentir mais na pele o que este sistema traz. Porque são esses os que se preocupam, os que se avaliam a si mesmos todos os dias na privacidade da sua consciência, após cada aula, após cada experiência, após cada teste. E, humanos que são, não podem nem querem ser avaliados como os professores "funcionalizados" que, em maior ou menor número, existem em todas as Escolas. Ser Professor é demasiadamente importante para ser trabalho de funcionários e, portanto, se não agimos como funcionários não podemos ser avaliados com os mesmos critérios. O Professor em cujas turmas alguns alunos não têm sucesso são os mesmos dos alunos que têm sucesso. Logo, o sucesso das turmas não pode ser critério de diferenciação. Mas a atitude do Professor perante o sucesso e o insucesso, por muito difícil que seja de Avaliação, essa, sim, merece sê-lo.
O Professor que reclama que não pode ser bom docente se tiver que permanecer 35 horas por semana na Escola, além das horas para as reuniões, está a lutar pela dignificação da sua acção. O Professor que "chora" o tempo que perde a preencher papéis criados por burocratas, tem todo o meu apoio e compreensão.
Mas se esse mesmo docente nunca tiver tempo para ir até ao recreio, se não for capaz de sacrificar um intervalo para ouvir um aluno ou uma turma inteira, aquele que não "vê" os Alunos quando passa por eles nos corredores e só é docente na sala de aula, esse não é Professor e pode ser facilmente avaliado: sem desprimor nem ofensa, como um simples burocrata.
Ora, o que eu temo é precisamente que a Avaliação, como estava prevista (há tanta mudança e medida avulsa!) "empurre" os Professores para a "funcionalização"! Mas, por outro lado, tenho a Certeza, mais do que a Esperança, de que em todas as Escolas há Professores que vão avaliar e ser avaliados dentro de um espírito de partilha que, sinceramente, eu não senti que existisse antes como factor de carácter geral: praticamente nunca conheci trabalho mais autónomo do que o docente. Será esse espírito de partilha, de entre-ajuda, que poderá fazer toda a diferença e os professores "funcionalizados" auto-excluir-se-ão naturalmente. O que significa que a sua avaliação será um processo fácil e, o que é mais importante, justo...
O que não poderemos evitar, na minha opinião pessoal e discutível, é que a Avaliação veio para ficar. Que, como qualquer mudança profunda (e eu desejaria que ela fosse causa de mudança de tudo o que está menos bem), ela vem sempre acompanhada de alguma injustiça que recai sobre os melhores. Mas que, após um curto período de tempo (assim seja!), ela acabará por se auto-regular. E então os bons e os maus serão facilmente reconhecidos como tal.
quarta-feira, 24 de setembro de 2008
Agora que o Natal aí vem...
Pois é. Agora que o Natal aí vem, porque não tarda nada que as montras se encham de coisas que pretendem ser símbolos, que os anúncios se dirijam ao “espírito natalício”, que os pequenos comecem a pensar numa nova playstation, vou contar uma pequena história que me chegou aos olhos via Internet.
A minha conhecida presunção leva-me, até, a crer que a sua divulgação é um acto social...
Mike, como lhe chamam na Internet, passava a época do Natal de cenho franzido, incomodado com o seu aspecto comercial. Parecia que o Natal o irritava e a esposa encarava a tarefa de arranjar um presente para ele com a maior preocupação. Ora uma vez, quando o seu filho mais velho tinha doze anos, participou num campeonato escolar de luta livre em que a sua escola defrontava uma escola pobre das redondezas. O filho de Mike e os seus colegas, devidamente equipados, venceram com relativa facilidade aqueles meninos voluntariosos, alguns até muito bons, mas que competiam vestidos com as suas próprias T-shirts e com sapatilhas tão velhas que mal se seguravam nos pés.
A mulher reparou que Mike felicitou o filho com pouco entusiasmo e, a sós com ela, deixou escapar: "Gostava que ao menos um daqueles garotos tivesse ganho a sua partida. Alguns são mesmo bons, mas vão ficar desmoralizados. E ninguém sabe o que pode nascer dessa desmoralização". Isto passou-se a meio do primeiro período lectivo, meados de Novembro, e a mulher de Mike teve uma inspiração: logo que pôde, foi a uma loja de artigos desportivos e comprou camisolas e sapatilhas que mandou entregar naquela escola, para os alunos da classe de luta livre. Trouxe a factura, anexou-lhe uma cópia da carta que enviou com os presentes para a direcção da Escola, meteu tudo num sobrescrito e guardou. No dia de Natal, quando entregava as prendas à família, pegou no sobrescrito e deu-o ao marido, dizendo-lhe: "Toma, aqui tens o meu presente de Natal". Ele abriu, intrigado e ainda de cenho franzido, pelo que o sorriso largo e feliz que se lhe seguiu até aos próprios filhos espantou. Pedindo aos meus leitores que preencham os pormenores que se terão seguido, o que é muito mais interessante do que quer que seja que eu escreva, julgo que adivinham que, daí em diante, o presente de Mike deixou de ser um problema para a esposa: no ano seguinte comprou bilhetes e transporte para que crianças diminuídas mentais pudessem ir ver um jogo importante de baseball. Depois, enviou um donativo para dois irmãos que perderam a casa num incêndio na semana anterior ao Natal. O ponto alto da quadra era o mistério do que estaria dentro do sobrescrito de Mike. Os seus três próprios filhos ficavam tão suspensos do que seria, que pediam ao pai que o abrisse ainda antes de eles abrirem os seus próprios embrulhos.
De acordo com a história, Mike morreu no princípio de 2003 e a viúva hesitava se deveria ou não prosseguir com a tradição. Depois de pensar um pouco, decidiu continuar a ajudar alguém como um presente para Mike e, no Natal, junto dos presentes para os filhos e suas famílias, depositou o sobrescrito habitual. Os filhos, já de família constituída, chegaram e cada um deles, sem ter falado com os outros, trazia também um sobrescrito para Mike. Cada um com algo feito para outros que mais precisavam, em memória do pai.
Se, nesta altura da leitura, alguém começar a abanar a cabeça e a dizer que isto é treta, desengane-se: há mais exemplos destes do que aquilo que se sabe e quantos mais houver, melhor. Por mim e para já, entre outras coisas, adaptei o procedimento à família. O ano passado, sabendo que um dos meus filhos andava preocupado porque não sabia o que me havia de oferecer no aniversário, peguei o problema de caras e disse-lhe que uma coisa que me daria muito jeito seria arranjar a luz da cozinha (ele é muito jeitoso de mãos). Ofereceu-me e colocou uma luz "decente", como ele diz. Como estou quase a fazer anos outra vez, ontem, olhando para o tecto, disse-me: "Agora, com esta luz, é que se vê como o tecto precisa de pintura". Resposta minha: "Fica para o Natal".
Basta-me comprar a tinta... e em Dezembro terei, se Deus quiser, a minha cozinha pintada de novo, como presente. Quem é que disse que, afinal, o Natal não pode ser todos os dias?
A minha conhecida presunção leva-me, até, a crer que a sua divulgação é um acto social...
Mike, como lhe chamam na Internet, passava a época do Natal de cenho franzido, incomodado com o seu aspecto comercial. Parecia que o Natal o irritava e a esposa encarava a tarefa de arranjar um presente para ele com a maior preocupação. Ora uma vez, quando o seu filho mais velho tinha doze anos, participou num campeonato escolar de luta livre em que a sua escola defrontava uma escola pobre das redondezas. O filho de Mike e os seus colegas, devidamente equipados, venceram com relativa facilidade aqueles meninos voluntariosos, alguns até muito bons, mas que competiam vestidos com as suas próprias T-shirts e com sapatilhas tão velhas que mal se seguravam nos pés.
A mulher reparou que Mike felicitou o filho com pouco entusiasmo e, a sós com ela, deixou escapar: "Gostava que ao menos um daqueles garotos tivesse ganho a sua partida. Alguns são mesmo bons, mas vão ficar desmoralizados. E ninguém sabe o que pode nascer dessa desmoralização". Isto passou-se a meio do primeiro período lectivo, meados de Novembro, e a mulher de Mike teve uma inspiração: logo que pôde, foi a uma loja de artigos desportivos e comprou camisolas e sapatilhas que mandou entregar naquela escola, para os alunos da classe de luta livre. Trouxe a factura, anexou-lhe uma cópia da carta que enviou com os presentes para a direcção da Escola, meteu tudo num sobrescrito e guardou. No dia de Natal, quando entregava as prendas à família, pegou no sobrescrito e deu-o ao marido, dizendo-lhe: "Toma, aqui tens o meu presente de Natal". Ele abriu, intrigado e ainda de cenho franzido, pelo que o sorriso largo e feliz que se lhe seguiu até aos próprios filhos espantou. Pedindo aos meus leitores que preencham os pormenores que se terão seguido, o que é muito mais interessante do que quer que seja que eu escreva, julgo que adivinham que, daí em diante, o presente de Mike deixou de ser um problema para a esposa: no ano seguinte comprou bilhetes e transporte para que crianças diminuídas mentais pudessem ir ver um jogo importante de baseball. Depois, enviou um donativo para dois irmãos que perderam a casa num incêndio na semana anterior ao Natal. O ponto alto da quadra era o mistério do que estaria dentro do sobrescrito de Mike. Os seus três próprios filhos ficavam tão suspensos do que seria, que pediam ao pai que o abrisse ainda antes de eles abrirem os seus próprios embrulhos.
De acordo com a história, Mike morreu no princípio de 2003 e a viúva hesitava se deveria ou não prosseguir com a tradição. Depois de pensar um pouco, decidiu continuar a ajudar alguém como um presente para Mike e, no Natal, junto dos presentes para os filhos e suas famílias, depositou o sobrescrito habitual. Os filhos, já de família constituída, chegaram e cada um deles, sem ter falado com os outros, trazia também um sobrescrito para Mike. Cada um com algo feito para outros que mais precisavam, em memória do pai.
Se, nesta altura da leitura, alguém começar a abanar a cabeça e a dizer que isto é treta, desengane-se: há mais exemplos destes do que aquilo que se sabe e quantos mais houver, melhor. Por mim e para já, entre outras coisas, adaptei o procedimento à família. O ano passado, sabendo que um dos meus filhos andava preocupado porque não sabia o que me havia de oferecer no aniversário, peguei o problema de caras e disse-lhe que uma coisa que me daria muito jeito seria arranjar a luz da cozinha (ele é muito jeitoso de mãos). Ofereceu-me e colocou uma luz "decente", como ele diz. Como estou quase a fazer anos outra vez, ontem, olhando para o tecto, disse-me: "Agora, com esta luz, é que se vê como o tecto precisa de pintura". Resposta minha: "Fica para o Natal".
Basta-me comprar a tinta... e em Dezembro terei, se Deus quiser, a minha cozinha pintada de novo, como presente. Quem é que disse que, afinal, o Natal não pode ser todos os dias?
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