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terça-feira, 15 de julho de 2008

No País dos Senhores "Olhe"

Toda a gente sabe como os nomes próprios, que durante séculos se mantiveram numa grande monotonia, mudaram nas últimas décadas. De tal maneira que voltou a ser chique chamar-se Maria. Simplesmente. Evidentemente que a falta de imaginação que se fazia sentir, em que os filhos recebiam o nome do pai ou do avô, foi amplamente superada pela oferta das telenovelas, campo fértil onde germinam Vanessas, Marlenes, Carinas e Vânias. Os rapazes têm sofrido menos e aí, além dos Brunos, Diogos e Tiagos, que crescem como cogumelos, penso que os inspiradores serão mais os cantores que as mães preferiam. Não é impunemente que se tem 20 anos porque é muito natural que, por isso, um mancebo se chame Marco.
Bem, e onde é que nós queremos chegar? Eu, pelo menos, quero demonstrar que há um nome que nunca vi registado em nenhum índice onomástico, que tanto serve para pessoas do sexo masculino como feminino e que se mantém com todo o vigor. É "Olhe". Por exemplo, a maior parte das sogras que conheço, podem ter escrito no BI que se chamam Mafalda ou Maria da Conceição, mas é quase certo que o genro ou a nora a tratem, carinhosamente, por "Olhe". Deve ser um petit nom.
Mas não é só na família. Quando se vai na rua e se está atrapalhado porque não sabemos como havemos de ir dar a um determinado sítio, é muito fácil resolver o problema - olhamos para o primeiro paisano ou paisana que esteja por perto e salta a pergunta: "Olhe, como é que se vai para a Escola Ramalho Ortigão?"
Vou contar-vos como é que costumo responder. Se são muito jovens, como duas garotas que há tempos me fizeram esta pergunta ao pé da Igreja da Antas, respondo assim: "Bom dia, minhas meninas. Ora vamos lá começar tudo do princípio. Vocês vão para aquele passeio de onde vinham, olham para um lado e para o outro, atravessam se não houver carros à vista e dizem-me:
- "Bom dia. Fazia o favor de nos dizer como é que, daqui, se vai ter à Escola Ramalho Ortigão?"
E continuo: "Vamos lá representar isto, como se fosse no teatro. Toca a ensaiar. Vão para o lado de lá e façam o que eu disse".
Não sei o que elas pensaram, mas medo não tiveram, porque tenho um ar muito inofensivo e cara de avó. Lá voltaram atrás, fizeram tudo como lhes tinha ensinado e chegou a hora de eu corresponder à delicadeza da pergunta:
- " Bom dia, minhas lindas. Mas que meninas tão bem educadas! Olhem, estou com um bocadinho de pressa, mas logo que foram tão delicadas a perguntar, vou acompanhar-vos até ali abaixo para vos explicar melhor, está bem?"
- "Muito obrigada", disseram em uníssono.

Perguntei-lhes como é que se chamavam, por que iam à Escola (afinal era só um ponto de referência, porque se iam encontrar com umas amigas ali perto), disse-lhes o meu nome e, em ar de brincadeira, ainda lhes disse que nunca se esquecessem de que Portugal era o país do "Se faz favor" e do "Obrigado(a)" e que não era simpático chamar a atenção das pessoas pelo nome de "Olhe". Riram-se, disseram que nunca tinham pensado no assunto mas, de facto, era verdade e, no fim deste encontro de uns 10 minutos, se tanto, pagaram-me da melhor maneira a que eu poderia aspirar: "A senhora é professora, não é?"
Ah, já me esquecia de dizer que nós chamamos aos outros "Olhe" e há muitos "Olhes" que, quando comunicam connosco pela escrita, dizem que o seu nome é "Anónimo". Estranho, não é?