Na entrada deste blogue tenho-me situado entre o Porto e algures em Angola e Moçambique. Agora, para ser mais verdadeira, deverei dizer que me situo algures entre o Porto, Lisboa, Angola e Moçambique, embora por este ano de 2008 me deva circunscrever às duas cidades portuguesas.
Tenho andado calada, por várias razões: tenho novas responsabilidades na minha vida pessoal, tenho tido tarefas para cumprir aqui em Portugal ligadas às minhas actividades africanas, tenho naturais preocupações com a crise financeira (tenho filhos e netos e, por eles, temo o futuro), tenho andado à espera que assente a poeira docente.
Sim, sinto que está muita poeira levantada, e quando tal acontece sem ter uma causa natural (um vendaval, por exemplo), normalmente é para obscurecer qualquer coisa que não interessa que se veja. A senhora ministra dá entrevistas e continua a mostrar que tem os Professores em pouca conta. Alguns professores resolvem dar-lhe razão e fazem gala de mostrar em público atitudes que não os recomendam para a docência.
Fico incomodada quando os professores se expõem de forma menos própria, pois sinto que os melhores, os Professores, acabam por ser penalizados na opinião pública. E tal é injusto. Não acredito, há séculos, nos sindicalistas que não dão aulas, que se preocupam com as "carreiras" mas não com o trabalho dos Professores, sobretudo os mais jovens, nas escolas periféricas. Comecei ontem a ler "A Turma", e quase não consigo parar de ler, mas acabo por sentir que estou apenas a rever os martírios por que passou a Rosinha numa Escola dos arredores lisboetas, sem nunca ter tido o apoio de ninguém, dos colegas mais velhos ao sindicato, dos directores de turma ao Conselho Executivo.
A Rosinha (nome fictício de uma pessoa real) teve a sorte de, logo a seguir, ter sido colocada numa Escola do Porto. Logo no primeiro dia de aulas houve queixas dos alunos junto da direccão. No dia seguinte, eram os pais. A Rosinha apresentava-se vestida de preto, com uns óculos de aros pretos, feios, com o cabelo apertado num rabo de cavalo. Logo na apresentação disse aos alunos que não estava interessada em que gostassem dela. Ela estava ali para ensinar Inglês e não para gostar ou para que gostassem dela. Estranho, no mínimo.
As coisas poderiam ter tomado o caminho natural destas situações: inquérito, chamada ao C.E., palmadinhas nas costas aos pais e aos alunos, mas aquele C.E. n ão agiu assim. Um dos seus membros convidou a Rosinha para almoçar em sua casa, pediu-lhe que tirasse os óculos, que soltasse o cabelo e viu que estava perante uma jovem e bela Professora assustada. Os óculos não tinham graduação. A Rosinha contou todas as suas ilusões desfeitas, a vontade de encontrar outra actividade, o abandono em que se encontrava depois de um ano em que tinha sido sujeita às provas mais difíceis e ofensivas junto de alunos a roçar a marginalidade. E recebeu a certeza de que ali, naquela Escola, ela poderia gostar dos Alunos e deixar que eles gostassem dela. Ela poderia apresentar-se com o era, com a certeza de que não seria incomodada com piropos torpes. Ela poderia acreditar que, se fosse preciso, receberia a ajuda necessária. Hoje, é uma PROFESSORA sem medos, confiante.
Será que ela pensa que está tudo bem na Escola? Não. Ela sabe que não está. Mas sabe que pode ajudar a melhorar.
Os docentes tiveram que receber formação por causa do computador Magalhães. Avaliaram essa formação como inadequada, mal preparada, sem ligação aos objectivos que se pretendiam atingir. Que fizeram? Eu não gostei de os ver a fazer figuras ridículas. O que eu teria feito seria não só rebelar-me contra essa formação mas ainda explicitar muito claramente junto de quem de direito por que não estava de acordo com ela. Tudo o resto me faz lembrar a teoria do "quanto pior, melhor".
Também não tive ainda o gosto de ver Professores e Pais a manifestarem a sua preocupação por se entregarem computadores a mãozinhas que deveriam treinar a motricidade fina a pegar no lápis e desenhar letras. O computador no 1º ano? Só como brinquedo. E se se pode aprender a brincar, não será certamente com o computador.
Sei que há muitas razões de queixa contra a avaliação. Mas aquela que tenho mais mencionada ultimamente é a da papelada burocrática. E quem aparece mais papista do que o papa na situação? Muitas Direcções das Escolas.
Espero que a Anabela, a Teresa (da Teia), o Raul, o Existente Instante, o Cumpadre Besberto, o Clap, a Fátima, a Paula, o Zé, o Luís, em nome de todos os que não conheço, me compreendam. Sei o sacrifício que fazem todos os dias, sei como dedicam todo o seu tempo aos Alunos (o que não quer obrigatoriamente dizer escola), sei como chegam cansados ao fim do dia, mas também sei como resistem à tentação de deixar de serem o que sempre foram: excelentes Professores! Mesmo que a famosa curva de Gauss não contemple tantos excelentes...
Quanto à crise, continuamos a viver alegremente acima das nossas posses. Tudo porque "esta vida são dois dias e quem vier atrás que feche a porta"...
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quarta-feira, 22 de outubro de 2008
sexta-feira, 18 de julho de 2008
Sistema de Avaliação de Desempenho da Educação de Angola
Só para variar, vou falar hoje do Decreto7/08, de 23 de Abril, que apresenta o Sistema de Avaliação de Desempenho, "adequado à matriz do novo Estatuto da Carreira dos Docentes do Ensino Primário e Secundário, Técnicos Pedagógicos e Especialistas de Administração da Educação".
Lembrei-me de mostrar algumas cláusulas, talvez porque uma das coisas positivas que o Primeiro Ministro fez lá ontem em Luanda foi concertar o envio de 200 Professores portugueses para ajudar no ensino secundário. Como devem ter ouvido, esses Professores (espero que mereçam a maiúscula) vão ser remunerados com um fundo criado a partir do pagamento de Cabora- Bassa. Uma espécie de justiça poética...
Eu tenho pena de não ser mais nova para poder solicitar o ingresso neste contingente. Mas não posso pensar que ainda sou capaz e tenho de me consolar com a ideia de que posso fazer outras coisas. Contudo, quero frisar que esta Resolução é do melhor que há: os Angolanos querem aprender e não têm quem os ensine. Embora espere que alguém se lembre de fazer uma formação específica para os Professores que aderirem... Porque estas coisas, para serem a sério, não é é como alojar pessoas em bairros onde é preciso saber viver e não os ensinar antes, não os enquadrar...
Bem, mas vamos ao Sistema de Avaliação:
Artigo 2º: Objectivos da Avaliação:
a) despertar nesses trabalhadores a necessidade de superação constante, capacitando-os científica e pedagogicamente para as suas tarefas quotidianas;
b) incentivá-los para a disciplina pessoal no cumprimento de todas as tarefas diárias ou periódicas que concorram para a planificação, organização ou execução da actividade laboral;
c) contribuir para o aumento do seu prestígio social e brio profissional.
Artigo 4º: Incidência
1. A avaliação do desempenho do pessoal docente, técnicos pedagógicos e especialistas de administração da educação incide sobre a actividade docente, a gestão e administração da educação, a disciplina profissional e as tarefas complementares, em conformidade com a Secção I, do Capítulo IV, do Estatuto da Carreira dos Docentes do Ensino Primário e Secundário, Técnicos Pedagógicos e Especialistas de Administração da Educação.
2. A atribuição da classificação negativa determina suspensão na contagem de tempo de serviço, relativa ao período a que a avaliação de desempenho se reporta, para efeitos de promoção.
3. A atribuição de duas classificações negativas consecutivas é condição suficiente para a instauração de processo disciplinar, por incompetência profissional".
Hoje fico por aqui. Julgo (só agora tal ideia me veio à mente) que não estou a cometer nenhuma ilegalidade. Porque, se os que por aqui passarem demonstrarem interesse, tenciono ainda acrescentar o carácter da avaliação, as classificações, a graduação dos indicadores de avaliação. Interessantes e muito tangíveis.
O simples facto de 200 Professores poderem ir para Angola ensinar, provavelmente outros Professores, enche-me de orgulho e faz-me sentir feliz. Aviso, contudo, que eu já falo muito "angolês" quando por lá ando...
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Avaliação de Professores,
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