Soldados, guerras, petróleo, diamantes...
Não falei da guerra. Nem dos “terrorristas”. Vou falar agora. Das guerras, dos terroristas.
Para as pessoas comuns, que não tinham sabido ler os sinais, a “guerra” começou a 4 de Fevereiro de 1961, no Zambizanga. Os dias que se seguiram foram de luto fechado e de uma grande incredibilidade. De algumas vinganças quase pessoais que me coíbo de relatar porque ainda me doem. Lembro o funeral dos polícias mortos e a campanha lançada num dos jornais de todos pormos luto. Os homens deveriam pôr um “fumo negro” na manga da camisa. Usem a imaginação para “verem” como teriam sido vistos aqueles que não puseram luto nenhum.
Da guerra, lembro a impaciência pela demora da chegada do primeiro contingente de soldados portugueses. Da obrigação de irmos assistir ao seu desfile na Marginal, sob um sol inclemente. De os militares serem vistos como “da família”. De um enorme sentimento de fraternidade. De um lado.
Do outro lado, lembro-me da diferença entre a noite e o dia: de dia, éramos os mesmos, de noite ouvia-se gritos, tiros, ameaças: “Vai para a tua terra! Quando te apanhar, vais me pagar tudo! Vou ficar com a tua mulher! Vou dormir com a tua filha! Vou dormir na tua cama!” E no outro dia, parecia que tinha sido apenas um sonho mau. Técnica de guerrilha, que se aprende na tropa.
Quando fomos viver para Malange, acompanhei muitas vezes o meu Marido, no jeep, pelas terras da Baixa de Cassange. Um dia o Raimundo gritou, íamos a caminho do Moma, (levávamos pescada do Cabo congelada para o chefe do Posto, lembro-me): “Chefe, olha um turra! Ali, na beira da estrada.”
Parámos. O “turra” era um infeliz que tinha sido deixado para trás, depois de levar um tiro que lhe entrara pelo alto da testa e saíra por detrás da orelha. Falava. Tinha uma matéria esbranquiçada na testa que o Raimundo, displicentemente, identificou: “Não tem problema. São miolos”. Um pouco mais à frente (talvez uns 100kms) desviámo-nos do caminho para deixar o “turra” num hospital. Onde foi recebido sem dramas nem vinganças. Perdemos-lhe o rasto daí a oito dias. Não havia telemóveis…
Os militares portugueses matavam, morriam, ficavam estropiados, sofriam, apaixonavam-se por África, ficavam, constituíam família ou regressavam com ela atravessada no peito, para o bem e para o mal. Alguns, mudavam de campo. Por consciência, medo ou interesse? Estas podem ser razões a que podemos acrescentar mais mil. Os militares de carreira somavam as comissões de serviço. Com muitas benesses. E não aceito desmentidos daquilo que sei. Muitos sentiam-se em “trabalhos forçados”. E garanto-vos que não foi apenas António Lobo Antunes ou Manuel Alegre. Eram milhares. Porque tinham a Luz.
E os do outro lado, os tais "turras"? Não nos iludamos: nós somos todos iguais em iguais circunstâncias, basicamente. Passavam fome, sede, morriam quase sem assistência, apesar de tudo muitas vezes era preciso instilar o ódio em “injecções” para ele se manter. Porque já nessa altura o “bolo” estaria dividido. Mas o dono da confeitaria raramente vai ao forno.
E no resto de África, o que se passava? A Europa apercebia-se tarde de que tinha reunido debaixo da mesma casa famílias muito diferentes, mas nesse momento havia que aproveitar. Se havia divisão, vamos lá usar o nosso antigo ditado: “dividir para reinar”. Esta estratégia está em utilização até hoje. Mas por que havia a Europa de se intrometer? Bem, por hábito, por paternalismo, mas sobretudo por interesse: África, a Mãe-África, tinha riquezas que pareciam inesgotáveis. As antigas e milenares florestas tinham-se transformado em diamantes, as pedras em petróleo, e havia ainda o ouro e tantos outros minérios de que a Europa estava exaurida.
Deixem-me agora introduzir uma opinião muito pessoal: não compreendo a atracção, o valor, dado aos diamantes. São Pedras. Pedras frias, que se extraem dolorosamente do solo. E, no entanto, mata-se e morre-se por eles. São belos? Sim, mas podemos recriar a mesma beleza em vidro. Não entendo e nunca mais vou entender.
Interessava, pois, manter a “tribalidade” no pior sentido: acender o orgulho de algumas etnias, por um lado, mas aproveitar a “lealdade” forçada dos mais fracos. Daí as guerras internas, as fratricidas guerras civis, quanto mais longas melhor. Olhemos para o Quénia, para o eterno Darfur, para o reacender das lutas étnicas na África do Sul, nas limpezas metódics que estão a ser feitas aos emigrantes, por calendário e mapa.
É disto tudo que nasce a Fome, a Guerra, a Corrupção. A Corrupção é generalizada e está nas mais pequenas coisas. Em Angola há um eufemismo para ela: a “gasosa”. Pensam que eu estou de acordo com as diferenças abissais entre os níveis de vida em Angola? Pensam que eu não sei que estou a fazer, de graça, coisas que o governo deveria ter feito há muito, como uma obrigação social? Pensam que eu sou ingénua?
Nada isso. Eu voltei para África – Angola e Moçambique – para fazer a minha parte de reparação. Não quero dar dinheiro, não quero dar roupa, não quero dar comida, não quero dar palmadinhas nas costas. Tudo isso dura muito pouco. Quero dar-me! Quero dar conhecimento (partilhar é a palavra certa). Quero ensinar e aprender para ensinar. Quero provar que pedir, mendigar, é vender um pouco da dignidade de cada um. Quero ensinar Português e Matemática, porque o Saber é a maior arma contra a tirania, contra a ditadura.
Bob Geldof faz a parte dele. Eu faço a minha. Cada um à sua maneira. Mas às vezes falar é pouco. Ser paternalista é ofensivo. Aceitar é covardia. Fingir que está tudo bem é cegueira. “Trabalhar com” é a minha resposta. Que não é a única. África nunca vai vencer a batalha da Democracia enquanto lhe dermos dinheiro e conselhos. África precisa de verdadeiro Amor, Respeito, … e Tempo!
Ainda não acabei…
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quinta-feira, 5 de junho de 2008
quarta-feira, 4 de junho de 2008
Bob Geldof, África, Fome, Pobreza, Guerra, Corrupção... Parte 3
Conferência de Berlim, paternalismo europeu, cegueira nacional (sub-título)
Ficámos em 1974-75. Houve a onda do retorno, incluindo muitíssimos que não retornavam a lugar nenhum porque já eram africanos, não europeus. Por muita trágico que tivesse sido, ainda aqui hei-de escrever e provar que esse retorno foi uma extraordinária oportunidade perdida. Mais uma do nosso rosário de desperdícios. Houve a descolonização “exemplar”. Exemplar? Sem comentários. Os portugueses fugiram de África com medo do que tinham visto acontecer após as outras independências. Os portugueses fugiram de África porque pressentiam o vulcão da guerra civil prestes a entrar em erupção. Porque, apesar de 99% não o ter aprendido na Escola, todos adivinhavam o que poderia advir de o facto de os novos estados terem sido criados a régua e esquadro na Conferência de Berlim.
Por dentro desses estados estavam nações, povos que competiam entre si há milénios, com uma base cultural única mas milhares de variantes sobre o mesmo tema. Os estados africanos foram criados por quem não conhecia África, não a respeitava, não a via como importante. Quando me lembro de que o Ex-Congo Belga era uma propriedade particular do Rei Leopoldo fico incomodada.
Os portugueses saíram e deixaram os povos no mato sem cachorro (para amenizar) … Sem quadros, sem classe média, sem escolas, sem auto-estima. Ou antes, existia algo de tudo isto mas em quantidade muito reduzida. Porque ninguém dá o que não tem senão conselhos. E cada um com muita vontade de, finalmente, poder mandar. Ah, o gosto do poder!
É claro que mantenho tudo o que disse sobre a minha infância. E a do Raul. E a do Ernesto Lara Filho. E tantos outros como nós, uns mais abonados economicamente, outros mais pobres. Mas chegava aquele momento em que nos separávamos. Muitas vezes sem saber porquê. (Estou a ouvir, na minha cabeça, a Maria Bethânia a cantar aquela despedida do menino da roça que vai para a saudade e pensa nunca mais esquecer o seu amiguinho de infância).
Não havia racismo? Havia, sim, em toda a África e de todas as cores. Havia e há. E se entre nós não havia apartheid, se as escolas estavam abertas a todos, não é menos verdade que se um negro queria estudar, as questões, ainda que não expressas, estavam lá, escritas em letras grandes: “Vai estudar para quê? Qual a intenção? Pretende ser o quê?”
E depois, mesmo com muita vontade, mesmo a saber, como eu sabia, que a nossa salvação estava na Escola, quem ficaria a tomar conta dos irmãos? E dos mais velhos? E acarretar a água? E depois ir trabalhar de criado, de lavadeira, de cozinheiro, para a D. Cacilda e aumentar e melhorar o pão-nosso de cada dia? Como arranjar dinheiro para o alambamento, para a bicicleta? Para mais umas chapas de zinco novas?
Vou intercalar aqui um episódio que talvez ajude a explicar melhor algumas coisas: tinha eu os meus 11 anos e andava quase há dois a “implorar” ao meu Pai que me deixasse estudar.
Entretanto, adoeci, com o que se chamava, eufemisticamente, “uma fraqueza geral”. Pudera, era um pingo de gente, trabalhava mais de 10 horas por dia e ajudava a criar um irmão caçula. Para ver se me calavam e se eu descansava um pouco, fui passar duas semanas à Roça S. Luzia, no Úcua, a casa de um casal conhecido dos meus pais. De noite, fugia daquele grupo de velhos e ia para a sanzala, o quimbo, sentar-me com as pessoas debaixo do embondeiro grande, a ouvir o soba, enquanto uma fogueira afugentava os mosquitos.
Na segunda noite o soba olhou para mim e disse o seguinte: “Olha só, aquela menina está aqui com a gente, mas um dia vai aparecer aqui um meu irmão que vai dizer:” Vai para a tua terra!” Mas a terra dela é aqui, como pode ir para a terra dela? Depois, eu vou perguntar: “Quem te disse que tu podes mandar?” E ele vai-me responder que manda porque ele é filho do leão e o leão manda em todos. E nessa altura eu vou responder e dizer que não senhor, quem manda sou eu, porque sou filho do jacaré e quando o leão vai beber água, o jacaré pode dar uma patada com o rabo e matar o leão.
Mas então, vai aparecer outro meu irmão que diz que quem manda é ele, que é filho de cobra surucucu, que mata tudo o que ela quer só com a picada do rabo dela. Mas ainda não sabemos quem vai mandar mesmo, porque depois vão aparecer uns poucos de meus irmãos, vão-nos rodear, e vão dizer:” Quem manda somos nós, que somos filhos dos mabecos. Nós somos pequeninos, mas andamos todos juntos, e ficamos ali parados debaixo da árvore onde tu te escondeste e vamos esperar até tu caíres. Porque nós nunca nos cansamos de esperar.”
Fico por aqui, por hoje. Mas a procissão ainda vai no adro…
Ficámos em 1974-75. Houve a onda do retorno, incluindo muitíssimos que não retornavam a lugar nenhum porque já eram africanos, não europeus. Por muita trágico que tivesse sido, ainda aqui hei-de escrever e provar que esse retorno foi uma extraordinária oportunidade perdida. Mais uma do nosso rosário de desperdícios. Houve a descolonização “exemplar”. Exemplar? Sem comentários. Os portugueses fugiram de África com medo do que tinham visto acontecer após as outras independências. Os portugueses fugiram de África porque pressentiam o vulcão da guerra civil prestes a entrar em erupção. Porque, apesar de 99% não o ter aprendido na Escola, todos adivinhavam o que poderia advir de o facto de os novos estados terem sido criados a régua e esquadro na Conferência de Berlim.
Por dentro desses estados estavam nações, povos que competiam entre si há milénios, com uma base cultural única mas milhares de variantes sobre o mesmo tema. Os estados africanos foram criados por quem não conhecia África, não a respeitava, não a via como importante. Quando me lembro de que o Ex-Congo Belga era uma propriedade particular do Rei Leopoldo fico incomodada.
Os portugueses saíram e deixaram os povos no mato sem cachorro (para amenizar) … Sem quadros, sem classe média, sem escolas, sem auto-estima. Ou antes, existia algo de tudo isto mas em quantidade muito reduzida. Porque ninguém dá o que não tem senão conselhos. E cada um com muita vontade de, finalmente, poder mandar. Ah, o gosto do poder!
É claro que mantenho tudo o que disse sobre a minha infância. E a do Raul. E a do Ernesto Lara Filho. E tantos outros como nós, uns mais abonados economicamente, outros mais pobres. Mas chegava aquele momento em que nos separávamos. Muitas vezes sem saber porquê. (Estou a ouvir, na minha cabeça, a Maria Bethânia a cantar aquela despedida do menino da roça que vai para a saudade e pensa nunca mais esquecer o seu amiguinho de infância).
Não havia racismo? Havia, sim, em toda a África e de todas as cores. Havia e há. E se entre nós não havia apartheid, se as escolas estavam abertas a todos, não é menos verdade que se um negro queria estudar, as questões, ainda que não expressas, estavam lá, escritas em letras grandes: “Vai estudar para quê? Qual a intenção? Pretende ser o quê?”
E depois, mesmo com muita vontade, mesmo a saber, como eu sabia, que a nossa salvação estava na Escola, quem ficaria a tomar conta dos irmãos? E dos mais velhos? E acarretar a água? E depois ir trabalhar de criado, de lavadeira, de cozinheiro, para a D. Cacilda e aumentar e melhorar o pão-nosso de cada dia? Como arranjar dinheiro para o alambamento, para a bicicleta? Para mais umas chapas de zinco novas?
Vou intercalar aqui um episódio que talvez ajude a explicar melhor algumas coisas: tinha eu os meus 11 anos e andava quase há dois a “implorar” ao meu Pai que me deixasse estudar.
Entretanto, adoeci, com o que se chamava, eufemisticamente, “uma fraqueza geral”. Pudera, era um pingo de gente, trabalhava mais de 10 horas por dia e ajudava a criar um irmão caçula. Para ver se me calavam e se eu descansava um pouco, fui passar duas semanas à Roça S. Luzia, no Úcua, a casa de um casal conhecido dos meus pais. De noite, fugia daquele grupo de velhos e ia para a sanzala, o quimbo, sentar-me com as pessoas debaixo do embondeiro grande, a ouvir o soba, enquanto uma fogueira afugentava os mosquitos.
Na segunda noite o soba olhou para mim e disse o seguinte: “Olha só, aquela menina está aqui com a gente, mas um dia vai aparecer aqui um meu irmão que vai dizer:” Vai para a tua terra!” Mas a terra dela é aqui, como pode ir para a terra dela? Depois, eu vou perguntar: “Quem te disse que tu podes mandar?” E ele vai-me responder que manda porque ele é filho do leão e o leão manda em todos. E nessa altura eu vou responder e dizer que não senhor, quem manda sou eu, porque sou filho do jacaré e quando o leão vai beber água, o jacaré pode dar uma patada com o rabo e matar o leão.
Mas então, vai aparecer outro meu irmão que diz que quem manda é ele, que é filho de cobra surucucu, que mata tudo o que ela quer só com a picada do rabo dela. Mas ainda não sabemos quem vai mandar mesmo, porque depois vão aparecer uns poucos de meus irmãos, vão-nos rodear, e vão dizer:” Quem manda somos nós, que somos filhos dos mabecos. Nós somos pequeninos, mas andamos todos juntos, e ficamos ali parados debaixo da árvore onde tu te escondeste e vamos esperar até tu caíres. Porque nós nunca nos cansamos de esperar.”
Fico por aqui, por hoje. Mas a procissão ainda vai no adro…
terça-feira, 3 de junho de 2008
Bob Geldof, África, Fome, Pobreza, Guerra, Corupção... Parte 1

À esquerda, doces de ginguba;
à direita, tamarindos na árvore
Vim viver para Angola com pouco mais de cinco meses. Cá cresci e me fiz mulher, constituí família e, em Dezembro de 1965, com um filho de 18 meses e outro de 5, o meu Marido e eu fizemo-nos ao mar para irmos atrás de um sonho: para eu tirar um curso superior, já que me era impossível fazê-lo cá. Vivíamos em Malange, ele era técnico superior do Instituto de Algodão de Angola, passava a semana pelas lonjuras da baixa de Cassange, tornava-se notado porque levava o ajudante sentado ao lado dele, no jeep. O Raimundo, mestiço, que dizia que era “branco de Macau”… Eu dava aulas, com o antigo 7º ano (tinha sido, durante três anos seguidos, “a melhor aluna da Província de Angola”, tenho os documentos, posso prová-lo) na Escola Industrial e Comercial de Malange. Os alunos chamaram-me, contra todos os meus pedidos, durante dois anos, “sôtora”. Pensámos que o melhor era fazer-lhes a vontade…
A nossa primeira intenção era voltar para Angola, África estava-me no sangue e sentia que havia muitas coisas que podíamos fazer. Como já as fazíamos antes. Mas queria vir completamente habilitada, com o Curso de Ciências Pedagógicas, com o estágio, e entretanto a Joana nasceu. Em 1973. Quando iniciei o estágio ela tinha 2 meses. E depois foi a revolução, a descolonização, a debandada. Mas África continuava no meu sangue, embora cada vez mais longínqua em termos espaciais. Para sobreviver, derrubei as pontes de retorno e chorei amargamente pelo meu povo. O meu povo era a Fátima, o Jumbo, a Rute, o Raimundo, a Mãe Jejuína, a Velha Mabunda, o Benjamim, a Vitória. Os negros com quem vivi lado a lado até casar. Foi a Vitória que me ensinou a fazer croché, foi a Velha Mabunda que me explicou a puberdade, foi a Fátima que partilhou sempre comigo as maçãs da India e os doces de ginguba. Eu “roubava” vales de água para ela dar à Mãe, viviam mesmo atrás do muro do nosso quintal, tínhamos uma mulembeira no canto e um tamarindeiro de que ambas éramos donas.
Para me compreender, é preciso que se saiba que vivi nos locais mais pobres e problemáticos de Luanda: primeiro, com os meus Pais numa xitaca (pequena quinta, que o meu pai cultivava por conta de um cunhado) depois no Marçal, com um tio solteirão, aos cuidados de uma lavadeira, numa casa só, só de homens, para poder frequentar a escola na Missão de S. Paulo. Entre os sete e os dez, no musseque mais difícil de todos, ainda hoje o é, o Sambizanga. Voltei ao Marçal até aos 20. Casei, fomos para Malange e lá ficámos até voltarmos a Portugal.
Como era a minha Angola? O possessivo significa que não tenho a pretensão da verdade, apenas. A minha Angola era grande nos seus espaços, criava-se nela uma noção de relatividade de tempo e de espaço como em mais lado nenhum senti. A maior parte dos portugueses eram muito incultos, analfabetos, sem profissão definida. Ninguém dá o que não tem. Havia uma elite, cultural sim, mas muitas vezes só financeira, e muito pequena. E essa procurava recriar a metrópole.
Lembro-me de ver a transformação das colonas: chegavam com o cabelo apanhado, de saia e blusa acanhadas, claras, com medo. Porque diziam que os negros lhes pareciam todos iguais, não eram capazes de os distinguir uns dos outros. Daí a um mês tinham um criado negro, para ir com elas às compras, ao Mercado de Quinaxixe, que também foi da Maria da Fonte. Ele trazia a cesta, ela que sempre tinha sido a Ti Cacilda, era promovida a D. Cacilda pela vendedeira da praça que lhe perguntava, a ver cara nova: “Qual é a sua graça?”
Estava na hora de cortar o cabelo, fazer uma permanente, arranjar uma lavadeira e às vezes até um cozinheiro. Se a ignorância não fosse amaciada por um coração, especialmente se ela fosse analfabeta, o que tinha ela que considerasse um bem precioso, que a pusesse acima dos seus "moleques"? A cor da pele.
O que tem isto a ver com Bob Geldof, África, Corrupção, Fome, Pobreza?
A Fátima André, subtilmente, alertou-me para o perigo dos postes grandes… Esta é a introdução apenas. Esperem pela minha pancada…
A nossa primeira intenção era voltar para Angola, África estava-me no sangue e sentia que havia muitas coisas que podíamos fazer. Como já as fazíamos antes. Mas queria vir completamente habilitada, com o Curso de Ciências Pedagógicas, com o estágio, e entretanto a Joana nasceu. Em 1973. Quando iniciei o estágio ela tinha 2 meses. E depois foi a revolução, a descolonização, a debandada. Mas África continuava no meu sangue, embora cada vez mais longínqua em termos espaciais. Para sobreviver, derrubei as pontes de retorno e chorei amargamente pelo meu povo. O meu povo era a Fátima, o Jumbo, a Rute, o Raimundo, a Mãe Jejuína, a Velha Mabunda, o Benjamim, a Vitória. Os negros com quem vivi lado a lado até casar. Foi a Vitória que me ensinou a fazer croché, foi a Velha Mabunda que me explicou a puberdade, foi a Fátima que partilhou sempre comigo as maçãs da India e os doces de ginguba. Eu “roubava” vales de água para ela dar à Mãe, viviam mesmo atrás do muro do nosso quintal, tínhamos uma mulembeira no canto e um tamarindeiro de que ambas éramos donas.
Para me compreender, é preciso que se saiba que vivi nos locais mais pobres e problemáticos de Luanda: primeiro, com os meus Pais numa xitaca (pequena quinta, que o meu pai cultivava por conta de um cunhado) depois no Marçal, com um tio solteirão, aos cuidados de uma lavadeira, numa casa só, só de homens, para poder frequentar a escola na Missão de S. Paulo. Entre os sete e os dez, no musseque mais difícil de todos, ainda hoje o é, o Sambizanga. Voltei ao Marçal até aos 20. Casei, fomos para Malange e lá ficámos até voltarmos a Portugal.
Como era a minha Angola? O possessivo significa que não tenho a pretensão da verdade, apenas. A minha Angola era grande nos seus espaços, criava-se nela uma noção de relatividade de tempo e de espaço como em mais lado nenhum senti. A maior parte dos portugueses eram muito incultos, analfabetos, sem profissão definida. Ninguém dá o que não tem. Havia uma elite, cultural sim, mas muitas vezes só financeira, e muito pequena. E essa procurava recriar a metrópole.
Lembro-me de ver a transformação das colonas: chegavam com o cabelo apanhado, de saia e blusa acanhadas, claras, com medo. Porque diziam que os negros lhes pareciam todos iguais, não eram capazes de os distinguir uns dos outros. Daí a um mês tinham um criado negro, para ir com elas às compras, ao Mercado de Quinaxixe, que também foi da Maria da Fonte. Ele trazia a cesta, ela que sempre tinha sido a Ti Cacilda, era promovida a D. Cacilda pela vendedeira da praça que lhe perguntava, a ver cara nova: “Qual é a sua graça?”
Estava na hora de cortar o cabelo, fazer uma permanente, arranjar uma lavadeira e às vezes até um cozinheiro. Se a ignorância não fosse amaciada por um coração, especialmente se ela fosse analfabeta, o que tinha ela que considerasse um bem precioso, que a pusesse acima dos seus "moleques"? A cor da pele.
O que tem isto a ver com Bob Geldof, África, Corrupção, Fome, Pobreza?
A Fátima André, subtilmente, alertou-me para o perigo dos postes grandes… Esta é a introdução apenas. Esperem pela minha pancada…
Se eu me pudesse mover, estas duas fotos teriam sido tiradas por mim. Assim, fui "roubá-las" a Carlos Pires, Sabores de Benguela. Com gratidão por ter retratado tudo tão bem. As gagajas estão de apetite... Que saudades!
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quinta-feira, 22 de maio de 2008
A Oração do embondeiro
terrear
O embondeiro é uma árvore-símbolo, quase sagrada, que se encontra em África quase em toda a parte. Dá um fruto estranho, que consiste numa pasta branca, que me faz lembrar esferovite e está num invólucro verde acinzentado. Esta fruta, chamada múcua, faz-me lembrar uma outra imagem: a de grandes ratos suspensos da árvore pela cauda… Até há poucos anos considerada quase sem préstimo (embora eu sempre tivesse gostado muito dela), a múcua hoje é usada em profusão em sumos, sorvetes e ainda em chá para, dizem-me, tratar a diabetes.
O embondeiro fascina-me e gosto de me sentar debaixo de um, quando posso e quero pensar. Ele transmite-me uma segurança, um sentimento de protecção, uma dimensão do meu tamanho que não consigo explicar mas que sinto passar da árvore para mim de uma forma quase palpável. É o lugar escolhido, nas comunidades, para se resolverem assuntos importantes e uma “conversa debaixo de embondeiro” é uma conversa para dar conselhos, para partilhar saberes.
Dos seus troncos largos, muito grossos na parte inferior, saem braços (não consigo vê-los como ramos) que se elevam ao céu numa prece permanente. E, por algum dom que não sei se devo agradecer ou lamentar, eu ouço os braços do embondeiro, na sua oração contínua. E o que ouço é isto:
Meu Deus, olha para África!
Estendo os meus braços para Ti,
Creio que me fizeste assim grande e forte
Para que o meu grito chegasse aos Teus ouvidos.
Senhor, olha para os Teus Filhos Africanos,
Temos sede e fome de justiça,
Clamamos pela tua misericórdia.
Porque quando não tivermos fome e sede de justiça,
Também o nosso corpo ficará saciado.
Meu Deus, estendo os meus braços para Ti,
Porque estamos esquecidos e ninguém ouve
Os gritos das nossas crianças quando vão dormir com fome.
Abre os Teus olhos para ver as suas faces secas,
Porque as nossas crianças choram sem lágrimas.
Os meus frutos baloiçam ao vento, Senhor,
E pedem-te que ensines os nossos próprios Irmãos
A olharem para nós fraternalmente.
Não deixes, oh meu Deus, que o pão que mataria a nossa fome
Seja transformado em máquinas de morte entre nós mesmos.
Meu Deus, olha por África,
Porque ela está sedenta de Ti,
E Te ama e respeita em todas as Tuas criaturas:
Vêem em mim a Tua força e estatura,
Respeitam os rios, as montanhas e os vales,
Nunca se esquecem de Ti, chamando-te por mil nomes.
África, África, suplicam os meus braços estendidos!
Abre os Teus ouvidos, ouve a minha voz, Senhor,
Protege-nos com o Teu Amor, somos Teus Filhos também.
O meu povo acredita que Tu falas através de mim,
Vem tratar das suas makas debaixo dos meus ramos
Os mais novos confiam nos conselhos
Que ouvem da boca dos mais velhos
Encostados ao meu tronco robusto.
Não desiludas o meu Povo, Senhor, ouve a minha voz
Que os meus braços elevam até Ti.
Nós esperamos. Sempre esperaremos.
África é, como a fizeste, Tempo e Espaço.

O embondeiro é uma árvore-símbolo, quase sagrada, que se encontra em África quase em toda a parte. Dá um fruto estranho, que consiste numa pasta branca, que me faz lembrar esferovite e está num invólucro verde acinzentado. Esta fruta, chamada múcua, faz-me lembrar uma outra imagem: a de grandes ratos suspensos da árvore pela cauda… Até há poucos anos considerada quase sem préstimo (embora eu sempre tivesse gostado muito dela), a múcua hoje é usada em profusão em sumos, sorvetes e ainda em chá para, dizem-me, tratar a diabetes.
O embondeiro fascina-me e gosto de me sentar debaixo de um, quando posso e quero pensar. Ele transmite-me uma segurança, um sentimento de protecção, uma dimensão do meu tamanho que não consigo explicar mas que sinto passar da árvore para mim de uma forma quase palpável. É o lugar escolhido, nas comunidades, para se resolverem assuntos importantes e uma “conversa debaixo de embondeiro” é uma conversa para dar conselhos, para partilhar saberes.
Dos seus troncos largos, muito grossos na parte inferior, saem braços (não consigo vê-los como ramos) que se elevam ao céu numa prece permanente. E, por algum dom que não sei se devo agradecer ou lamentar, eu ouço os braços do embondeiro, na sua oração contínua. E o que ouço é isto:
Meu Deus, olha para África!
Estendo os meus braços para Ti,
Creio que me fizeste assim grande e forte
Para que o meu grito chegasse aos Teus ouvidos.
Senhor, olha para os Teus Filhos Africanos,
Temos sede e fome de justiça,
Clamamos pela tua misericórdia.
Porque quando não tivermos fome e sede de justiça,
Também o nosso corpo ficará saciado.
Meu Deus, estendo os meus braços para Ti,
Porque estamos esquecidos e ninguém ouve
Os gritos das nossas crianças quando vão dormir com fome.
Abre os Teus olhos para ver as suas faces secas,
Porque as nossas crianças choram sem lágrimas.
Os meus frutos baloiçam ao vento, Senhor,
E pedem-te que ensines os nossos próprios Irmãos
A olharem para nós fraternalmente.
Não deixes, oh meu Deus, que o pão que mataria a nossa fome
Seja transformado em máquinas de morte entre nós mesmos.
Meu Deus, olha por África,
Porque ela está sedenta de Ti,
E Te ama e respeita em todas as Tuas criaturas:
Vêem em mim a Tua força e estatura,
Respeitam os rios, as montanhas e os vales,
Nunca se esquecem de Ti, chamando-te por mil nomes.
África, África, suplicam os meus braços estendidos!
Abre os Teus ouvidos, ouve a minha voz, Senhor,
Protege-nos com o Teu Amor, somos Teus Filhos também.
O meu povo acredita que Tu falas através de mim,
Vem tratar das suas makas debaixo dos meus ramos
Os mais novos confiam nos conselhos
Que ouvem da boca dos mais velhos
Encostados ao meu tronco robusto.
Não desiludas o meu Povo, Senhor, ouve a minha voz
Que os meus braços elevam até Ti.
Nós esperamos. Sempre esperaremos.
África é, como a fizeste, Tempo e Espaço.
Gaiola dourada
O José Matias disse-me, em comentário, que tinha tido acesso a Luanda, via You Tube e que tinha ficado impressionado. Esperaria informações minhas.
Gostaria de poder responder a todos, provavelmente muitos mais do que o Zé, presumo eu (que sou muito presumida…) mas não sei concretamente qual o vídeo em causa. Fui ver o que havia, sob o título genérico de “Luanda, You Tube) e o que me apareceu de mais recente (data de 13 de Abril) é apenas uma parte ínfima de uma Luanda inexistente. Falta naquela reportagem, com um belo fundo musical, dizer que a baía não está assim, o banco de Angola perdeu a imponência entre as muitas construções de que só está defendido pela Marginal. Falta mostrar os bairros: o Cazenga, a Sambizanga, o Marçal, o Rangel, o Terra Nova, todos os velhos musseques agora superlotados (e promovidos a bairros) mas sem estruturas básicas mínimas.
Mas então por que falo de uma gaiola dourada? Porque eu considero que, embora conheça a realidade real, a verdadeira, para a encontrar tenho que sair da gaiola dourada em que me meto e me metem quando aqui estou. Seja a trabalhar nas mais longínquas comunidades das províncias do interior, quer seja num comunidade próxima de Luanda, apesar de viver sem as chamadas “comodidades” (uma cama, banho, electricidade, variedade de víveres), toda a minha gente me tenta preservar do Mal. E o que é o Mal? São os possíveis assaltos, as pedinchices profissionais, o contacto com pessoas reconhecidas como hostis à presença de brancos, de portugueses, de cristãos, um por um ou por atacado. Guardada, mimada, protegida, como uma Mamã Grande, sei, no entanto, o que se passa. Sei da prepotência de algumas autoridades, do descaminho de bens enviados, da necessidade de “comprar” alguns direitos que, como direitos, são gratuitos na sua essência. Mas também sei dos que lutam pela sua gente, pela sua saúde, por melhor qualidade de vida, que aceitam com uma gratidão que quase me envergonha tudo o que podemos ensinar. Porque, como já disse, a minha “ajuda” consubstancia-se, essencialmente, em ensinar o que sei. E estou sempre disposta a aprender para ensinar o que não sei mas é preciso saber. Porque as minhas possibilidades de acesso ao conhecimento e informação são infinitamente superiores à deles. E ainda porque só por acaso é que eu não sou um deles e perante o meu Criador, serei, certamente, menor que muitos deles.
Neste momento em Luanda, trabalhando com jovens no sentido de os preparar para lidar com pessoas em situação de fragilidade (doença, especialmente sida, velhice, pobreza extrema, orfandade, etc.), estou numa gaiola ainda mais dourada: tenho um bom quarto, banho, electricidade, alimentação variada, INTERNET (Aleluia!), o mar para me acalmar a 20 metros de casa e para eu mergulhar ao domingo a 150m. Quando vou à cidade (estou na Ilha de Luanda, para perceber a situação, o Google Earth ajuda muito), vou de carro com alguém (mas ainda só fui uma vez tratar de um assunto numa gráfica). Tenho aqui tudo, dentro da minha gaiola… Até estranho! É claro que tenho muito, muito que fazer: 4 a 5 horas de formação sobre a tal humanização dos cuidados (que já veio preparada de Portugal), atendimento de pessoas que me querem falar das suas dúvidas, dos seus problemas, dos seus sonhos. Pessoas, sempre jovens, a quem tenho e quero instilar auto-confiança, auto-estima, respeito pelo estudo e pelo trabalho, em especial. Tenho que ajudar em problemas de traduções, de aulas, de corrigir textos, de fazer pontuações. E ao pé de casa há uma escola básica grande, de onde muitos jovens já descobriram que há por perto uma Mãezinha que lhes pode dar umas explicadelas de Matemática e Português…
Mas isso não me inibe, até porque entre Fevereiro e Março estive um pouco mais de fora da gaiola, de saber que Luanda é um exemplo muito real e completo de como uma cidade pode conviver, lado a lado, em dois mundos completamente antagónicos. Creio poder afirmar sem erro que Luanda é, hoje, a cidade mais cara do mundo! É a cidade com o trânsito mais caótico e demorado que se pode imaginar, pois não se pode dizer que haja rede oficial de transportes públicos, há umas carrinhas azuis e brancas, os candongueiros, que levam as pessoas em condições por vezes bastante precárias. Até porque o seu número é enorme e os motoristas julgam-se os donos das ruas. Apenas a reduzidíssima velocidade exigida pelo volume de trânsito justifica que, apesar dos muitos acidentes, haja poucos feridos graves e ainda menos mortos, felizmente. Aqui, tudo parece andar “malembe, malembe” (devagar, devagarinho)
Os hotéis estão cheios a 101%... e o seu preço é o mais alto do mundo. Não há vagas. Porquê? Aterram diariamente no aeroporto dezenas de aviões cheios, de pessoas que precisam de ficar em algum lugar! Vêm pessoas para pesquisar negócios grandes, pequenos, médios. Vêm pessoas à procura de mudar de vida, de emprego, de horizontes. Vêm pessoas para fazer a manutenção dos equipamentos que Angola comprou em Portugal, na Alemanha, na Rússia, em todo o mundo. Os meus colegas de almoço são 4 engenheiros checos com que me vou entendendo com o inglês deles. Vem gente boa, vem gente oportunista, vem gente de toda a qualidade e procura o seu nicho nesta Babel.
Nunca, em lugar nenhum, vi a ostentação e a pobreza (não falo de miséria, que também há, mas isso, para mim, é outra coisa) tão co-existentes lado a lado. Nunca encontrei tanta gente capaz de ajudar por pura gratuitidade ao pé de quem nos quer multar por tirarmos uma fotografia de um local em que tal é permitido (depois a multa resolve-se a “conversar”, sendo que “conversar” é um eufemismo). Há violência? Há, sim. Primeiro, a “violência” do incómodo pelo pedir constante das crianças, que mais tarde se transforma em quase extorsão e, depois,, se não encarreirarem, acaba em gangue. Mas nada que eu possa, em sã consciência, achar mais visível do que em outros países. Pelo contrário.
E depois, temos sempre aquela ideia de que Angola é tão rica e, no entanto, está tão demorada a melhoria do padrão de vida: os sistemas de saúde, de transporte e, especialmente, porque está na base de tudo, a Educação, dizemos todos, deveriam já ter atingido um melhor nível. Mas a paz é recente e o dinheiro não compra o conhecimento! É preciso tempo para formar pessoas e isso é a maior dificuldade.
Todavia, eu continuo irremediavelmente apaixonada por Luanda, por Malange, por Viana, pelo Úcua, por Kibaxi, pelo Rio Kuanza, pela Barra do Dande, pelo Mussulo, pelo Cabo Ledo, pelas estradas e picadas, por estas gentes todas, pobres e ricos, bons e menos bons, porque quero acreditar que, de facto, a maior parte das vezes, “o Homem é o Homem e a sua circunstância”.
Vou contando. Zé, para ti, em especial, o pedido: identifica-me o acesso. E fica a saber que se eu tivesse que escrever uma carta ao Menino Jesus só sobre a “minha África”, Senhor meu, que tarefa imensa!
Gostaria de poder responder a todos, provavelmente muitos mais do que o Zé, presumo eu (que sou muito presumida…) mas não sei concretamente qual o vídeo em causa. Fui ver o que havia, sob o título genérico de “Luanda, You Tube) e o que me apareceu de mais recente (data de 13 de Abril) é apenas uma parte ínfima de uma Luanda inexistente. Falta naquela reportagem, com um belo fundo musical, dizer que a baía não está assim, o banco de Angola perdeu a imponência entre as muitas construções de que só está defendido pela Marginal. Falta mostrar os bairros: o Cazenga, a Sambizanga, o Marçal, o Rangel, o Terra Nova, todos os velhos musseques agora superlotados (e promovidos a bairros) mas sem estruturas básicas mínimas.
Mas então por que falo de uma gaiola dourada? Porque eu considero que, embora conheça a realidade real, a verdadeira, para a encontrar tenho que sair da gaiola dourada em que me meto e me metem quando aqui estou. Seja a trabalhar nas mais longínquas comunidades das províncias do interior, quer seja num comunidade próxima de Luanda, apesar de viver sem as chamadas “comodidades” (uma cama, banho, electricidade, variedade de víveres), toda a minha gente me tenta preservar do Mal. E o que é o Mal? São os possíveis assaltos, as pedinchices profissionais, o contacto com pessoas reconhecidas como hostis à presença de brancos, de portugueses, de cristãos, um por um ou por atacado. Guardada, mimada, protegida, como uma Mamã Grande, sei, no entanto, o que se passa. Sei da prepotência de algumas autoridades, do descaminho de bens enviados, da necessidade de “comprar” alguns direitos que, como direitos, são gratuitos na sua essência. Mas também sei dos que lutam pela sua gente, pela sua saúde, por melhor qualidade de vida, que aceitam com uma gratidão que quase me envergonha tudo o que podemos ensinar. Porque, como já disse, a minha “ajuda” consubstancia-se, essencialmente, em ensinar o que sei. E estou sempre disposta a aprender para ensinar o que não sei mas é preciso saber. Porque as minhas possibilidades de acesso ao conhecimento e informação são infinitamente superiores à deles. E ainda porque só por acaso é que eu não sou um deles e perante o meu Criador, serei, certamente, menor que muitos deles.
Neste momento em Luanda, trabalhando com jovens no sentido de os preparar para lidar com pessoas em situação de fragilidade (doença, especialmente sida, velhice, pobreza extrema, orfandade, etc.), estou numa gaiola ainda mais dourada: tenho um bom quarto, banho, electricidade, alimentação variada, INTERNET (Aleluia!), o mar para me acalmar a 20 metros de casa e para eu mergulhar ao domingo a 150m. Quando vou à cidade (estou na Ilha de Luanda, para perceber a situação, o Google Earth ajuda muito), vou de carro com alguém (mas ainda só fui uma vez tratar de um assunto numa gráfica). Tenho aqui tudo, dentro da minha gaiola… Até estranho! É claro que tenho muito, muito que fazer: 4 a 5 horas de formação sobre a tal humanização dos cuidados (que já veio preparada de Portugal), atendimento de pessoas que me querem falar das suas dúvidas, dos seus problemas, dos seus sonhos. Pessoas, sempre jovens, a quem tenho e quero instilar auto-confiança, auto-estima, respeito pelo estudo e pelo trabalho, em especial. Tenho que ajudar em problemas de traduções, de aulas, de corrigir textos, de fazer pontuações. E ao pé de casa há uma escola básica grande, de onde muitos jovens já descobriram que há por perto uma Mãezinha que lhes pode dar umas explicadelas de Matemática e Português…
Mas isso não me inibe, até porque entre Fevereiro e Março estive um pouco mais de fora da gaiola, de saber que Luanda é um exemplo muito real e completo de como uma cidade pode conviver, lado a lado, em dois mundos completamente antagónicos. Creio poder afirmar sem erro que Luanda é, hoje, a cidade mais cara do mundo! É a cidade com o trânsito mais caótico e demorado que se pode imaginar, pois não se pode dizer que haja rede oficial de transportes públicos, há umas carrinhas azuis e brancas, os candongueiros, que levam as pessoas em condições por vezes bastante precárias. Até porque o seu número é enorme e os motoristas julgam-se os donos das ruas. Apenas a reduzidíssima velocidade exigida pelo volume de trânsito justifica que, apesar dos muitos acidentes, haja poucos feridos graves e ainda menos mortos, felizmente. Aqui, tudo parece andar “malembe, malembe” (devagar, devagarinho)
Os hotéis estão cheios a 101%... e o seu preço é o mais alto do mundo. Não há vagas. Porquê? Aterram diariamente no aeroporto dezenas de aviões cheios, de pessoas que precisam de ficar em algum lugar! Vêm pessoas para pesquisar negócios grandes, pequenos, médios. Vêm pessoas à procura de mudar de vida, de emprego, de horizontes. Vêm pessoas para fazer a manutenção dos equipamentos que Angola comprou em Portugal, na Alemanha, na Rússia, em todo o mundo. Os meus colegas de almoço são 4 engenheiros checos com que me vou entendendo com o inglês deles. Vem gente boa, vem gente oportunista, vem gente de toda a qualidade e procura o seu nicho nesta Babel.
Nunca, em lugar nenhum, vi a ostentação e a pobreza (não falo de miséria, que também há, mas isso, para mim, é outra coisa) tão co-existentes lado a lado. Nunca encontrei tanta gente capaz de ajudar por pura gratuitidade ao pé de quem nos quer multar por tirarmos uma fotografia de um local em que tal é permitido (depois a multa resolve-se a “conversar”, sendo que “conversar” é um eufemismo). Há violência? Há, sim. Primeiro, a “violência” do incómodo pelo pedir constante das crianças, que mais tarde se transforma em quase extorsão e, depois,, se não encarreirarem, acaba em gangue. Mas nada que eu possa, em sã consciência, achar mais visível do que em outros países. Pelo contrário.
E depois, temos sempre aquela ideia de que Angola é tão rica e, no entanto, está tão demorada a melhoria do padrão de vida: os sistemas de saúde, de transporte e, especialmente, porque está na base de tudo, a Educação, dizemos todos, deveriam já ter atingido um melhor nível. Mas a paz é recente e o dinheiro não compra o conhecimento! É preciso tempo para formar pessoas e isso é a maior dificuldade.
Todavia, eu continuo irremediavelmente apaixonada por Luanda, por Malange, por Viana, pelo Úcua, por Kibaxi, pelo Rio Kuanza, pela Barra do Dande, pelo Mussulo, pelo Cabo Ledo, pelas estradas e picadas, por estas gentes todas, pobres e ricos, bons e menos bons, porque quero acreditar que, de facto, a maior parte das vezes, “o Homem é o Homem e a sua circunstância”.
Vou contando. Zé, para ti, em especial, o pedido: identifica-me o acesso. E fica a saber que se eu tivesse que escrever uma carta ao Menino Jesus só sobre a “minha África”, Senhor meu, que tarefa imensa!
quarta-feira, 14 de maio de 2008
O que faço por aqui?
Pôr de sol Africano, num santuário de embondeirosDepois de percorridos mil caminhos
Para chegar a mim,
Descobri que a rota mais directa
Era sair de mim.
Muitos me perguntaram, curiosos,
“África, porquê e em que nome?
Não vês perto de ti tantos desejosos
Tantos também com Fome?”
Lembrei-me então da parábola
Em que Jesus falou das migalhinhas
Que ao cair da mesa dos eleitos
Alimentavam as bocas pobrezinhas.
Procurei, pois, fazer algo no meu espaço
Procurei dar o meu Tempo, um Bem imperecível
Mas ninguém aceitou o meu regaço,
Nem precisou do meu ombro disponível.
Quem me procurou não precisava
E a quem me ofereci não aceitou.
E África a clamar, dentro de mim,
Mais uma vez, bem alto, me chamou,
Como uma Mãe a gritar pelo filho ausente.
Tive mesmo de lhe dizer “Presente”
E vim, e fui, e vim.
Que faço? perguntam
Sigo as regras que eu própria estabeleci:
Faço o que sei, onde for preciso,
Pois esse é o trabalho que escolhi.
Numa comunidade terrivelmente pobre,
Onde terei que ser pobre também.
Não posso nem quero ser diferente,
Eles são meus Filhos, eu sou Mãe.
Aprendo e ensino a fazer Pão
Com inesperados ingredientes;
Construímos o forno, em união,
Preparamos a terra e as sementes.
Descubro em cada dia uma nova oferta
Que o Senhor me traz sem a pedir
E procuro manter a alma aberta
Para aprender a melhor amar e a sentir.
Outras vezes, procuro humanizar
Tudo o que está associado à Dor
E sinto uma alegria singular
Por cada novo gesto de um velho Amor.
“Mas o que fazes? Perguntam outra vez
E outra vez respondo sem mentir.
Faço o que é preciso em cada vez,
Faço o que me pedem sem pedir.
O que me dá mais Alegria e mais Calor
É trabalhar com mulheres e com crianças.
Gosto de sentir-lhes a cabeça no regaço,
Para chegar a mim,
Descobri que a rota mais directa
Era sair de mim.
Muitos me perguntaram, curiosos,
“África, porquê e em que nome?
Não vês perto de ti tantos desejosos
Tantos também com Fome?”
Lembrei-me então da parábola
Em que Jesus falou das migalhinhas
Que ao cair da mesa dos eleitos
Alimentavam as bocas pobrezinhas.
Procurei, pois, fazer algo no meu espaço
Procurei dar o meu Tempo, um Bem imperecível
Mas ninguém aceitou o meu regaço,
Nem precisou do meu ombro disponível.
Quem me procurou não precisava
E a quem me ofereci não aceitou.
E África a clamar, dentro de mim,
Mais uma vez, bem alto, me chamou,
Como uma Mãe a gritar pelo filho ausente.
Tive mesmo de lhe dizer “Presente”
E vim, e fui, e vim.
Que faço? perguntam
Sigo as regras que eu própria estabeleci:
Faço o que sei, onde for preciso,
Pois esse é o trabalho que escolhi.
Numa comunidade terrivelmente pobre,
Onde terei que ser pobre também.
Não posso nem quero ser diferente,
Eles são meus Filhos, eu sou Mãe.
Aprendo e ensino a fazer Pão
Com inesperados ingredientes;
Construímos o forno, em união,
Preparamos a terra e as sementes.
Descubro em cada dia uma nova oferta
Que o Senhor me traz sem a pedir
E procuro manter a alma aberta
Para aprender a melhor amar e a sentir.
Outras vezes, procuro humanizar
Tudo o que está associado à Dor
E sinto uma alegria singular
Por cada novo gesto de um velho Amor.
“Mas o que fazes? Perguntam outra vez
E outra vez respondo sem mentir.
Faço o que é preciso em cada vez,
Faço o que me pedem sem pedir.
O que me dá mais Alegria e mais Calor
É trabalhar com mulheres e com crianças.
Gosto de sentir-lhes a cabeça no regaço,
que procurem sempre o meu Abraço,
E encho esse abraço de esperanças.
Gosto de ajudar as mulheres em seu labor.
Porque a Mulher Africana é heroína
Desde que o sol se levanta, de manhã.
São os seus ombros, ainda que menina
Que carregam as sementes do Amanhã.
A Mulher Angolana, se eu mandasse,
Teria uma estátua em cada rua.
Gosto de ajudar as mulheres em seu labor.
Porque a Mulher Africana é heroína
Desde que o sol se levanta, de manhã.
São os seus ombros, ainda que menina
Que carregam as sementes do Amanhã.
A Mulher Angolana, se eu mandasse,
Teria uma estátua em cada rua.
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