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sábado, 7 de junho de 2008

Alegrai-vos comigo...

De acordo com o Novo Testamento, pelo menos, antigamente havia o bonito gesto de se chamarem os vizinhos para partilharem as alegrias. Lembremo-nos, por exemplo, da parábola do pastor que perdeu a ovelha e a foi procurar e depois chamou os vizinhos e da mulher que se alegrou e quis partilhar a sua alegria por encontrar a moeda que tinha perdido.
Pois alegrai-vos comigo: encontrei um poema que procurava há uns 50 (cinquenta!) anos. Ouvi-o uma vez só, declamado por uma brasileira fantástica, aqui no antigo cine-teatro Nacional, hoje "Clube Chá de Caxinde", quase o fixei de cor, mas nunca mais tive o vi. Hoje, abriram-se algumas comportas da memória, umas sinapses levaram a outras, e aqui está ele. É longo, talvez, mas para mim é belíssimo. Alegrai-vos comigo, pois encontrei o meu poema:


Poema da Maternidade

Pode lá ser! Não quero, não consinto!
Tudo em mim se revolta: a carne, o instinto,
A minha mocidade, o meu amor,
A minha vida em flor!

É mentira! É mentira!
Se o meu filho respira,
Se o meu corpo consente,
Covardemente,
A minh'alma não quer!
Eu não quero ser mãe! Basta-me ser mulher!
Basta-me ser feliz!
E o meu instinto diz:
"Acabou-se! Acabou-se!
Agora renuncia:
Começa a tua noite: acabou-se o teu dia!
Tens vinte anos? Embora! A tua mocidade
Perdeu chama e calor, perdeu a própria idade.
Resigna-te. És mulher! Foi Deus que assim o quis.
Já foste flor: agora é só raiz." —
Não pode ser! É injusta a minha sorte!
Não quero dar vida a quem me traz a morte!
O meu destino há de ter outro brilho!
Vida, quero viver! E morro, morro...

Filho!
Pode lá ser, Jesus! Eu não mereço tanto!
Filho da minha dor, eu já não choro — canto!
Filho que Deus me deu! Por quê, Senhor,
Há só uma palavra: Amor, Amor, Amor?!
"Dai-me outra voz que nunca tenha dito
Coisas más, coisas vis... e que saiba a infinito...
Dai-me outro coração, mais puro, mais profundo,
Que o meu já se quebrou de encontro ao mundo...
Dai-me outro olhar que nunca tenha olhado,
Que não tenha presente nem passado...
Dai-me outras mãos, que as minhas já tocaram
A vida e a morte... o bem e o mal... e já pecaram...

Filho, por que seria? Ao vires para mim
Mudaste num jardim
Os espinhos da minha carne triste...
E como conseguiste
Dar uma cor de sol às horas mais sombrias?

Meu menino, dorme, dorme,
E deixa-me cantar
Para afastar
A vida, um papão enorme...
Meu menino, dorme, dorme...
Vamos agora brincar...
Que brinquedo, meu menino?
O mar, o céu, esta rua?
já te dei o meu destino,
Posso bem dar-te a Lua.
Toma agora o mar sem fundo...
Ainda achas pouco? Deixá-lo!
Mas por que não vens brincar?
Por que preferes chorar?
Jesus! Que tem o meu filho?
Que vida estranha no brilho
Do seu olhar?
Uma vida inquieta e obscura
Anda a queimar-lhe a frescura ...
Ainda hoje, meu filho, não sorriste
E o teu olhar é triste...
Cheiras a noite, a luto, a azebre ...
Senhor! O meu filho tem febre!
O seu hálito queima, o seu olhar escalda...
Ele que tinha um olhar de estrela ou de esmeralda
E um perfume de flor,
Agora tem na boca um amargo sabor
E cheira a noite, a luto, a azebre...
Senhor! O meu filho tem febre!
Tirai-me dos olhos toda a luz!
Livrai-me da blasfêmia... Deus! Jesus!
Pois se o meu filho morre, se agoniza,
Por que há flores no chão que ele não pisa?
Se num coval o hei de pôr, de rastros,
Por que estarão tão altos os astros?
Senhor, eu sou culpada. . .
Eu sei o que é o pecado
Mas ele, meu Jesus, ainda não tem passado...
Para mim, não há mal que não aceite,
Mas ele, ainda tão perto do teu céu!
A sua vida era beber-me leite...
No olhar com que me olhava tinha um véu
De neblinas, de névoas de outras vidas...
As vezes, tinha as pálpebras descidas
E punha-se a chorar no meu regaço
Com saudades, talvez, do céu, do espaço...
O meu filho tem febre!
Por que andam a cantar pelos caminhos?
Por que há berços e ninhos?
Vida! O meu filho era belo,
O meu filho era forte!
Vida, que mãe és tu? Defende-me da morte!


Vida! Vida! Vida!
Louvado seja Deus! A morte foi-se embora!
Já não tens febre agora!
Louvado seja Deus! O meu menino vive,
Este menino, o meu, que só eu tive!
E pude blasfemar!
E o meu menino chora, e eu posso já cantar!
E o meu menino canta e eu posso já chorar!
O meu menino vive e toda a vida canta,
Toda a terra é uma fresca e sonora garganta!
Que toda a gente o saiba e toda a terra o veja!
Louvado seja Deus!
Louvado seja!

Fernanda de Castro

domingo, 4 de maio de 2008

Deus e a Mãe da Criança Diferente

Por ano, mais de 100 mil mães tornam-se mães de crianças diferentes...
Você alguma vez já pensou como as mães das crianças diferentes são escolhidas por Deus?

Imaginemos Deus pairando sobre a Terra, seleccionando as mães para receberem os seus filhos e instruindo seus anjos para tomarem nota num grande livro:
-“Para Regina, um menino, anjo da guarda Mateus”.
-“Para Cristina, uma menina, anjo da guarda Marcela”.
-“Para Teresa, gêmeos, anjo da guarda Fernando”.

Finalmente Ele passa um nome para um anjo, sorri e diz:
-“Dá-lhe uma criança diferente”.
O anjo cheio de curiosidade pergunta:
-“Por que a ela Senhor? Ela é tão alegre...”
-“Exactamente por isso... Como poderia eu dar uma criança diferente para uma mãe que não soubesse o valor de um sorriso? Seria cruel!”
-“Mas será que ela terá paciência?”
-“Eu não quero que ela tenha muita paciência, porque aí ela, com certeza, se afogará no mar da auto-piedade e desespero. Logo que o choque e o ressentimento passar, ela saberá como agir”.
-“Senhor, eu estive a observá-la hoje. Ela tem aquele forte sentimento de independência”.
-“ Ela terá que ensinar a criança a viver no seu mundo, e não vai ser fácil”.
-“E além do mais, Senhor, eu acho que ela nem acredita na Sua existência.”
Deus sorri.
-“Não tem importância. Eu posso dar um jeito nisso. Ela é perfeita. Ela possui o egoísmo no ponto certo.”
O anjo quase se engasgou.
-“Egoísmo? E isso é, por acaso, uma virtude?”
Deus acenou um sim e acrescentou:
-“Se ela não conseguir separar-se da criança de vez em quando, ela não sobreviverá. Sim, essa é uma das mulheres que eu abençoarei com uma criança menos perfeita. Ela ainda não faz ideia, mas ela será também muito invejada. Sabes, ela nunca irá admitir uma palavra não dita, ela nunca irá considerar um passo adiante, uma coisa comum. Quando o seu filho disser mamã pela primeira vez, ela pressentirá que está a presenciar um milagre. Quando ela descrever uma árvore ou um pôr do sol para o seu filho cego, ela verá como poucos já conseguiram ver a minha obra. Eu permitir-lhe-ei ver claramente coisas como ignorância, crueldade, preconceito e ajudá-la-ei a superar tudo. Ela nunca estará sozinha. Eu estarei ao seu lado em cada minuto da sua vida, porque ela estará a trabalhar junto comigo”.
-“Bom, e quem, Senhor, estais a pensar em mandar como anjo da guarda?”
Deus sorriu.
-“Dá-lhe um espelho, ... É o suficiente !”

Nabices de Mãe

Mãe,
Palavra breve,
suave e leve,
Maior do que a Vida.
Filho,
Milagre eterno,
Profundo e terno,
Que enche a Vida!


(Não fui capaz de pôr estas palavras como legenda da foto com o meu filho Rui, em Dezembro de 1965, com cinco meses mal medidos)

FILHOS

Filhos! Que coisa extraordinária! Permitam-me que fale apenas do ponto de vista feminino. Somos Mães porque temos Filhos e isso traz-nos qualquer coisa de divino. Sentir crescer aquele ser dentro de nós, senti-lo mover-se pela primeira vez, sonhar com ele antes de ele nascer, falar com ele… E depois, aquele momento em que o vemos pela primeira vez: como ele nos parece maravilhoso, o mais belo do mundo! Começamos a sonhar por ele, para ele e com ele e essa tarefa nunca mais nos abandona até ao fim, julgo eu.
Tive a felicidade de ter sentido por três vezes estas emoções, que depois se multiplicam nos Netos, numa cadeia de Afectos que nunca mais finda. Por favor, deixem-me ser agora um pouco prosaica e dizer que não tenho dúvidas de que há mulheres que dão à luz e não são Mães. E outras que nunca sentiram um ser vivo no seu ventre e o são. Mas nem por isso devemos descrer de que não há Amor mais incondicional do que o materno.
Ouso dizer que não amo os meus três filhos de igual maneira, porque eles são diferentes e cada um é cada um. Mas se houvesse balança para pesar o Amor, sei que ela ficaria equilibrada, sem um grama de diferença.
Depois, maravilhosamente, Deus deu-me a possibilidade de ter filhos do coração. De todos os tamanhos e idades. Quase em todos os continentes. E também eles me suscitam este sentimento de realização plena. Por todas as Mães, com todas as Mães, Obrigada, Senhor!