sexta-feira, 4 de julho de 2008

Uma explicação

Para a minha Caixinha de Afectos, incluindo já os incansáveis, a Pedrita e o Geocrusoe:
Estou desde segunda feira a viver e trabalhar noutra parte da cidade de Luanda onde tenho muita dificuldade em ter aceso à Net.
Está tudo muito bem comigo (isto para responder a alguns mails) e espero a partir de amanhã à noite reentrar em plena na Blogosfera na vossa Companhia.
Vou ter depois muito que ler e escrver, mas sei quye vou adorar. Beijos para todos da Avó Pirueta.
PS. O filme, cafe, chá e bolos mantém-se... (que inveja para quem não perceber!)

quinta-feira, 3 de julho de 2008

Uma justificação

Amigos,
estou, desde terça-feira, noutra parte da cidade de Luanda, a fazer o trabalho que me propus fazer, e, infelizmente, tenho extrema dificuldade em usar a Net.
Agradeço a todos os mimos, as gentilezas, e espero voltar a contactar convosco no Domingo. Se tal não for possível, a patir do dia 10 (devo chegar no dia 9 à noite) contarei as minhas estórias e marcaremos, com os inscritos, o dia para a "tertúlia": ver o filme, bebermos uns chás e uns cafés e fazermos uma análise sobre o que se está a fazer no ME em Portugal. Tenho a impressão de que ainda vamos dar que falar... e que pensar...
A todos os meus Amigos, a todos vós, Jovens que me acolhestes tão cordialmente, o meu obrigada e até já.
Entretanto, não se esqueçam: nascemos para ser felizes! Um abraço feliz para todos da Avó Pirueta

Uma justificaç

quarta-feira, 2 de julho de 2008

Saudades de chegar e de partir

Perto de partir
partida em pedaços
como sempre
querendo ficar e ir
recusando os abraços
porque fazem doer o coração.
Perto de chegar,
com alma a contar cada segundo
com um sorriso a imaginar
a chegada a esse meu outro mundo.
Partida de Afectos,
carrregada de carinhos
a pensar nos meus maravilhosos netos
e nestes que aqui deixo em seus caminhos.
Cada dia é um dia a menos e um a mais
assim divido a alma, o coração e a vontade
de sempre partir sem chegar jamais
por um milagre que me dê ubiquidade.
Mas só o nosso S. António, que eu saiba
foi capaz tal façanha sem igual
portanto na outra quarta-feira
contem aí comigo em Portugal.

(E mato alguém que se atreva a chamar Poesia a este brincar com as palavras!)

segunda-feira, 30 de junho de 2008

Gaiolas e asas


Este fim de semana andei lendo muito autor brasileiro. Dá pra notá? Pois é, uma das graças que eu devo ao meu Criador, quando achou que eu poderia ser assim uma professora de línguas com algum gosto, foi ter me dado uma enorme capacidade de apanhar acento, sotaque. Às vezes fica até um tanto embaraçoso... Pois, eu me deliciei (apesar dos constrangimentos existentes) com esta teoria de Rubem Alves. E por isso, vou partilhá-la com vocês...
Os pensamentos me chegam de forma inesperada, sob a forma de aforismos. Fico feliz porque sei que Lichtenberg, William Blake e Nietzsche frequentemente eram também atacados por eles. Digo "atacados" porque eles surgem repentinamente, sem preparo, com a força de um raio. Aforismos são visões: fazem ver, sem explicar. Pois ontem, de repente, esse aforismo me atacou: "Há escolas que são gaiolas. Há escolas que são asas".
Escolas que são gaiolas existem para que os pássaros desaprendam a arte do vôo. Pássaros engaiolados são pássaros sob controle. Engaiolados, o seu dono pode levá-las para onde quiser. Pássaros engaiolados sempre têm um dono. Deixaram de ser pássaros. Porque a essência dos pássaros é o vôo.
Escolas que são asas não amam pássaros engaiolados. O que elas amam são os pássaros em vôo. Existem para dar aos pássaros coragem para voar. Ensinar o vôo, isso elas não podem fazer, porque o vôo já nasce dentro dos pássaros. O vôo não pode ser ensinado. Só pode ser encorajado.
Esse simples aforismo nasceu de um sofrimento: sofri conversando com professoras de segundo grau, em escolas de periferia. O que elas contam são relatos de horror e medo. Balbúrdia, gritaria, desrespeito, ofensas, ameaças... E elas, timidamente, pedindo silêncio, tentando fazer as coisas que a burocracia determina que sejam feitas, como dar o programa, fazer avaliações... Ouvindo os seus relatos, vi uma jaula cheia de tigres famintos, dentes arreganhados, garras à mostra - e a domadoras com seus chicotes, fazendo ameaças fracas demais para a força dos tigres.
Sentir alegria ao sair de casa para ir à escola? Ter prazer em ensinar? Amar os alunos? O sonho é livrar-se de tudo aquilo. Mas não podem. A porta de ferro que fecha os tigres é a mesma porta que as fecha com os tigres.
Nos tempos de minha infância, eu tinha um prazer cruel: pegar passarinhos. Fazia minhas próprias arapucas, punha fubá dentro e ficava escondido, esperando... O pobre passarinho vinha, atraído pelo fubá. Ia comendo, entrava na arapuca e pisava no poleiro. E era uma vez um passarinho voante. Cuidadosamente eu enfiava a mão na arapuca, pegava o passarinho e o colocava dentro de uma gaiola. O pássaro se lançava furiosamente contra os arames, batia as asas, crispava as garras e enfiava o bico entre os vãos. Na inútil tentativa de ganhar de novo o espaço, ficava ensanguentado... Sempre me lembro com tristeza da minha crueldade infantil.
Violento, o pássaro que luta contra os arames da gaiola? Ou violenta será a imóvel gaiola que o prende? Violentos, os adolescentes de periferia? Ou serão as escolas que são violentas? As escolas serão gaiolas? Vão me falar sobre a necessidade das escolas dizendo que os adolescentes de periferia precisam ser educados para melhorarem de vida. De acordo. É preciso que os adolescentes, que todos, tenham uma boa educação. Uma boa educação abre os caminhos de uma vida melhor. Mas eu pergunto: nossas escolas estão dando uma boa educação? O que é uma boa educação?
O que os burocratas pressupõem sem pensar é que os alunos ganham uma boa educação se aprendem os conteúdos dos programas oficiais. E, para testar a qualidade da educação, criam mecanismos, provas e avaliações, acrescidos dos novos exames elaborados pelo Ministério da Educação.
Mas será mesmo? Será que a aprendizagem dos programas oficiais se identifica com o ideal de uma boa educação? Você sabe o que é "dígrafo"? E os usos da partícula "se"? E o nome das enzimas que entram na digestão? E o sujeito da frase "Ouviram do Ipiranga as margens plácidas de um povo heróico o brado retumbante"? Qual a utilidade da palavra "mesóclise"? Pobres professoras, também engaioladas... São obrigadas a ensinar o que os programas mandam, sabendo que é inútil. Isso é hábito velho das escolas. Bruno Bettelheim relata sua experiência com as escolas: "Fui forçado (!) a estudar o que os professores haviam decidido que eu deveria aprender. E aprender à sua maneira".


domingo, 29 de junho de 2008

Miserere, de Alda Lara


Hoje tenho-me lembrado muito de Poesia e Poetas. E recordei como, garota pequena, procurava os poemas de Alda Lara, quando ainda eram publicados, nos jornais de Domingo. Não sei se os entendia, mas procurava-os. Aqui vos deixo um, escrito quando eu tinha apenas dois anos. Eu chamar-lhe-ia "Acto de Contrição" mas Alda Lara preferiu chamar-lhe Miserere. Sempre que o leio me magoo. Mas sinto que quero este magoar-me.

Miserere
Perdoai-me, Senhor!
Perdoai-me,
que eu não sabia...
No meu palácio
batido por todos os mares de coral,
encastoada em espumas,
e rendas,
e ouropéis,
coberta de cetins e de anéis
no meu palácio de ilusão
onde cantam sereias pela noite dentro,
Senhor!
eu não sabia nada...
Foi preciso que o céu se cobrisse
de nuvens negras,
e a tempestadade sacudisse
a solidão dos meus salões,
para que eu,
transida de medo,
descesse aos subterrâneos do meu palácio,
em busca de protecção
e calor...
E nos subterrâneos...
só encontrei
dor maior que a minha...
medo maior que o meu...
e loucura,
e suor,
e fome,
e ódio frio,
e revolta surda,
e o cheiro putrefacto dos corpos
que trouxe a maresia...
Ah! perdoai-me
Senhor!
Perdoai-me...
que eu não sabia.
1949 – Março

sexta-feira, 27 de junho de 2008

Por que gosto das sextas-feiras...

Um pôr de sol que anuncia trovoada, em Quibaxe, Angola, e uma casacatinha perto de Penamacor, mas já em Espanha.





Hoje é sexta-feira. Gosto das sextas-feiras: conheci o meu Marido a uma sexta-feira, casei-me numa quinta mas, como julgo já ter contado, ele não veio ao casamento e só me encontrei com ele na sexta, os meus dois primeiros filhos nasceram à sexta-feira e hoje o Dr. David Abel, o fantástico médico que me operou, disse-me que posso começar a pousar o pé no chão a 30%. Não é uma maravilha?
Além disso, hoje acabei uma formação que correu maravilhosamente e tenho umas provas e umas avaliações fora de série. E muita gente me pediu para voltar, voltar. E eu gosto de voltar.


Bem, mas além das sextas-feiras, há uma quantidade de coisas de que gosto:
Gosto de ver os meninos negros vestidinhos de lavado, com aqueles seus olhos muito brilhantes. Gosto de os ver levar livros na pasta, do ar malandro com que me chamam Avó para ver se me levam uns kuanzas. Gosto de ouvir a Tia Bela, uma negra forte, que trabalha por três, dizer-me, quando lhe agradeço um carinho, uma delicadeza, “ai, professora Carmo, não faz isso, não me ofende”.


Gosto de ver olhos a sorrir. Gosto de ver casais com olhares cúmplices. Gosto de ver o marido ou a mulher, de repente, estender a mão e pousá-la sobre o braço do outro. Gosto de ver casais acima dos sessenta de mãos dadas. Gosto de ver um homem a compor uma gola feminina que o vento pôs fora do lugar e de ver uma mulher a endireitar o colarinho do Marido.


Gosto do ar absolutamente indescritível de um homem a olhar para o seu primogénito acabado de nascer. Gosto de ver crianças a começar a andar. Gosto daquele olhar cheio de expectativas enquanto, de braços abertos, tentam mudar de pé.
Gosto de ver os meus netos a rapar a taça onde se bateu um bolo. E do cheiro do caril feito com as minhas próprias misturas. E de caju estufado a fingir que é frango. Gosto de cozinhar para Amigos. Gosto de anedotas compridas ou então muito curtas. Gosto de histórias que acabam bem (para compensar a vida).

Gosto de uma bela trovoada nocturna. Gosto do céu estrelado visto nas noites de Mumemo. Gosto das chuvadas africanas, porque são rápidas, poderosas e cheias de cheiros. Gosto do mar sereno da Ilha do Mussulo e das calemas bravas das marés vivas. Gosto de rios, ribeiros e riachos. E de pontes. Gosto de jardins pouco “artísticos” mas com muitas flores diferentes e algumas árvores. Gosto de comer figos com boroa debaixo da figueira.
Gosto de ouvir Mahler quando estou triste para ainda ficar mais triste e resolver o problema da tristeza. Gosto de Verdi e de Mozart porque me põem a cantarolar. Gosto de palavras e de frases gostosas: sorriso, alegria, primavera, outono, verão, inverno, lareira, estou a chegar, feijão com arroz, arroz-doce, canela açucarada, gengibre e mel…
Meu Deus, como Tu és bom! As coisas de que mais gosto são, quase todas, absolutamente de graça. Basta um eco do Teu Amor em nós para se tornarem possíveis!