domingo, 29 de junho de 2008

Miserere, de Alda Lara


Hoje tenho-me lembrado muito de Poesia e Poetas. E recordei como, garota pequena, procurava os poemas de Alda Lara, quando ainda eram publicados, nos jornais de Domingo. Não sei se os entendia, mas procurava-os. Aqui vos deixo um, escrito quando eu tinha apenas dois anos. Eu chamar-lhe-ia "Acto de Contrição" mas Alda Lara preferiu chamar-lhe Miserere. Sempre que o leio me magoo. Mas sinto que quero este magoar-me.

Miserere
Perdoai-me, Senhor!
Perdoai-me,
que eu não sabia...
No meu palácio
batido por todos os mares de coral,
encastoada em espumas,
e rendas,
e ouropéis,
coberta de cetins e de anéis
no meu palácio de ilusão
onde cantam sereias pela noite dentro,
Senhor!
eu não sabia nada...
Foi preciso que o céu se cobrisse
de nuvens negras,
e a tempestadade sacudisse
a solidão dos meus salões,
para que eu,
transida de medo,
descesse aos subterrâneos do meu palácio,
em busca de protecção
e calor...
E nos subterrâneos...
só encontrei
dor maior que a minha...
medo maior que o meu...
e loucura,
e suor,
e fome,
e ódio frio,
e revolta surda,
e o cheiro putrefacto dos corpos
que trouxe a maresia...
Ah! perdoai-me
Senhor!
Perdoai-me...
que eu não sabia.
1949 – Março

sexta-feira, 27 de junho de 2008

Por que gosto das sextas-feiras...

Um pôr de sol que anuncia trovoada, em Quibaxe, Angola, e uma casacatinha perto de Penamacor, mas já em Espanha.





Hoje é sexta-feira. Gosto das sextas-feiras: conheci o meu Marido a uma sexta-feira, casei-me numa quinta mas, como julgo já ter contado, ele não veio ao casamento e só me encontrei com ele na sexta, os meus dois primeiros filhos nasceram à sexta-feira e hoje o Dr. David Abel, o fantástico médico que me operou, disse-me que posso começar a pousar o pé no chão a 30%. Não é uma maravilha?
Além disso, hoje acabei uma formação que correu maravilhosamente e tenho umas provas e umas avaliações fora de série. E muita gente me pediu para voltar, voltar. E eu gosto de voltar.


Bem, mas além das sextas-feiras, há uma quantidade de coisas de que gosto:
Gosto de ver os meninos negros vestidinhos de lavado, com aqueles seus olhos muito brilhantes. Gosto de os ver levar livros na pasta, do ar malandro com que me chamam Avó para ver se me levam uns kuanzas. Gosto de ouvir a Tia Bela, uma negra forte, que trabalha por três, dizer-me, quando lhe agradeço um carinho, uma delicadeza, “ai, professora Carmo, não faz isso, não me ofende”.


Gosto de ver olhos a sorrir. Gosto de ver casais com olhares cúmplices. Gosto de ver o marido ou a mulher, de repente, estender a mão e pousá-la sobre o braço do outro. Gosto de ver casais acima dos sessenta de mãos dadas. Gosto de ver um homem a compor uma gola feminina que o vento pôs fora do lugar e de ver uma mulher a endireitar o colarinho do Marido.


Gosto do ar absolutamente indescritível de um homem a olhar para o seu primogénito acabado de nascer. Gosto de ver crianças a começar a andar. Gosto daquele olhar cheio de expectativas enquanto, de braços abertos, tentam mudar de pé.
Gosto de ver os meus netos a rapar a taça onde se bateu um bolo. E do cheiro do caril feito com as minhas próprias misturas. E de caju estufado a fingir que é frango. Gosto de cozinhar para Amigos. Gosto de anedotas compridas ou então muito curtas. Gosto de histórias que acabam bem (para compensar a vida).

Gosto de uma bela trovoada nocturna. Gosto do céu estrelado visto nas noites de Mumemo. Gosto das chuvadas africanas, porque são rápidas, poderosas e cheias de cheiros. Gosto do mar sereno da Ilha do Mussulo e das calemas bravas das marés vivas. Gosto de rios, ribeiros e riachos. E de pontes. Gosto de jardins pouco “artísticos” mas com muitas flores diferentes e algumas árvores. Gosto de comer figos com boroa debaixo da figueira.
Gosto de ouvir Mahler quando estou triste para ainda ficar mais triste e resolver o problema da tristeza. Gosto de Verdi e de Mozart porque me põem a cantarolar. Gosto de palavras e de frases gostosas: sorriso, alegria, primavera, outono, verão, inverno, lareira, estou a chegar, feijão com arroz, arroz-doce, canela açucarada, gengibre e mel…
Meu Deus, como Tu és bom! As coisas de que mais gosto são, quase todas, absolutamente de graça. Basta um eco do Teu Amor em nós para se tornarem possíveis!

quinta-feira, 26 de junho de 2008

Problemas de Sedução

Hoje consolei o coração ao passar pelos blogues da minha Caixinha de Afectos. Bons textos ligados à Educação, de gente séria, que sabe do que fala, que pensa e pesa o que diz. Belos textos de Poetas e de Pensadores, que nos põem a olhar para a realidade circundante com olhos novos. Parábolas e fábulas, de que andava precisada. Mas, sabe-se lá porquê, a mim apetece-me falar de "sedução".
Creio que acontece com toda a gente - tenho palavras de que gosto muito, outras que detesto e outras de que desconfio. Uma das que pertencem a esta terceira categoria é "sedução".
Como sempre tive a mania de fazer "profundas" análises e introspecções (o que talvez tenha a ver com o signo de Balança, que não o é apenas de pessoas indecisas, como para aí se diz, mas também gente de um amor entranhado ao que é justo...), até já cheguei a identificar esta desconfiança com o meu primeiro trabalho…

Fui escriturária no Tribunal de Relação de Luanda entre 20 de Agosto de 1962 e 28 de Fevereiro de 1963 e a minha principal tarefa era dactilografar os acórdãos de sessões em que o Desembargador-Presidente recorria a frequentes expressões em Latim. Ora acontece que eu era a única funcionária que sabia Latim, tinha acabado o 7º Ano antigo com uma classificação mais do que honrosa e deram-me a "honra" de passar à máquina os tais acórdãos. O problema é que o tal Desembargador com quem trabalhava, não sei se por gosto ou acaso, só tratava de "Crimes de Sedução". Sim, aqueles casos em que uma donzela aceitava entrar em partilhas muito íntimas do seu corpo e dos prazeres acrescidos (ou não) com um "sedutor", sob promessa de casamento. Promessa de que depois o dito se esquecia rapidamente. Senhores, isto nos idos dos anos 60, do século passado, fazem lá ideia do que uma pobre e recatada menina de 20 anos aprendeu naqueles acórdãos sobre a dita "sedução"?
Poderá ser, pois, daí, mas desde então a palavra "sedução" cheira-me a embuste. E fico sempre preocupada quando alguém de responsabilidade na Educação - ministros, directores regionais, professores, pais - diz que a Escola, o Professor, têm de seduzir o Aluno. Não têm, não senhor, pelo menos na minha opinião. Isto, se querem dizer, com "sedução", fazer com que os alunos não queiram deixar a Escola. Aliás, na minha opinião, "seduzir" é a mais fácil de todas as soluções, mas receio que não vá longe.
Eu, Maria do Carmo Cruz, queria que os meus alunos já tivessem tido a sorte de alguém lhes ter ensinado que a Escola é precisa, que aprender é próprio do ser humano, que não é apenas brincadeira nem castigo - é apenas outra espécie de Trabalho, também próprio do Homem, que se vai adequando à medida que crescemos. Senão, ensinava eu.

Depois, era minha obrigação dar-lhes gosto em fazer aquele Trabalho de estar comigo 3 horas semanais, pelo puro prazer de aprender e reflectir sobre coisas novas e não tão novas. Era minha obrigação usar estratégias e metodologias à medida da sua idade, dos conteúdos programáticos, do interesse para a vida deles um dia, para que sentissem vontade de voltar, e isso sem recorrer a actuações de animação cultural, exceptuando recursos como visitas de estudo, colóquios com profissionais, visionamento de filmes, utilização da tecnologia que tivesse à mão e valorizasse o conteúdo.
Fui e sou Professora, gosto de ensinar, gosto de partilhar com alegria. Sei que não há prémio melhor do que, ao dar aula sem olhar para o relógio, ouvir um "oh" de desapontamento quando toca. Sim, mas sou e era Professora, e mesmo hoje recusar-me-ia a ser animadora social ou cultural. Essa função é outra, muito respeitável, mas eu só quero seduzir quem quer ser seduzido e, portanto, não necessita de manobras de sedução. Porque recorrer ao Melhor, fazer o Melhor, querer o Melhor quando ensinamos e aprendemos não é seduzir, é a única maneira como sei trabalhar. A sedução pode vir apenas por acréscimo e será bem-vinda mas não é o prato especial da ementa...

quarta-feira, 25 de junho de 2008

Uma outra tradução

"If", o famoso "If" de Kipling, símbolo de uma época histórica, de uma Inglaterra imperial, muitas vezes criticado e outras tantas louvado (gosto imenso dos seus livros para crianças, que recomendo, há boas traduções), tem sido alvo de muitas traduções.
António Botto, Poeta infeliz que, para viver sem hipocrisias sofreu horrores, também o traduziu. Aqui vai ele, para corresponder especialmente ao pedido da Teresa de Longe.
Se tu podes impor a calma, quando aqueles
Que estão ao pé de ti a perdem censurando
A tua teimosia nobre de a manter.
Se sabes aguardar sem ruga e sem cansaço,
Privar com Reis continuando simples,
E na calúnia, não recorrer à infâmia
Para com arma igual e em fúria responder.
- Mas não aparentar bondade em demasia
Nem presumir de sábio ou pretender
Manifestar excesso de ousadia.
Se o Sonho não fizer de ti um escravo
E a luz do pensamento não andar
Contigo num domínio exagerado.
Se encaras o triunfo ou a derrota
Serenamente, firme, e reforçado
Na coragem que é necessário ter
Para ver a verdade atraiçoada,
Caluniada, espezinhada e ainda
Os nossos ideais por terra, mas erguê-los
De novo em mais profundos alicerces
E proclamar com alma essa verdade!,
Se perdes tudo quanto amealhaste
E voltas ao princípio sem um ai,
Um lamento, uma lágrima e sorrindo,
Te debruçares sobre o coração
Unindo outras reservas à vontade
Que quer continuar, e prosseguindo,
Chegar ao Infinito da Razão,
Se a multidão te ouvir entusiasmada,
E a Virtude ficar no seu lugar,
Se Amigos e Inimigos não conseguem
Ofender-te e se quantos te procuram
Para contar com o teu esforço não contarem
Uns mais do que outros, - olha-os por igual!,


Se podes preencher esse minuto,
Com sessenta segundos de existência
No caminho da Vida percorrido,
Embora essa existência seja dura,
À força das tormentas que a consomem,
Bendita a tua essência, a tua origem,
o mundo será teu,
e tu serás um Homem!

(versão de António Botto do poema de Kipling)

Piruetas de Avó

O Céu e o Inferno

Hoje, deu-me para isto. Não deve ter sido por acaso, porque não acredito em acasos. E se houver algum problema, a responsabilidade é minha porque o texto é uma tradução que fiz do conto ou fábula ou seja lá o que for que saíu numa edição do Reader em Inglês.

O velho pároco, sentindo-se a morrer, compôs as roupas à volta do peito e começou a pensar, mais uma vez, com uma certa preocupação, no Céu e no Inferno. Como seriam? Ele tinha passado uma grande parte dos seus 84 anos a falar Paraíso, Inferno, modos de verdo assunto, mas agora o problema parecia-lhe cada vez mais urgente e cada vez lhe parecia saber menos.
Na penumbra do quarto, viu aproximar-se dois vultos. Conheceu-os logo: Moisés, alto, musculoso, e Pedro, o Pescador. Fizeram-lhe um sinal de cabeça e ele levantou-se imediatamente e seguiu-os, passando, sem se espantar, através da parede do quarto.
Em silêncio, conduziram-no através das galáxias. Num local longínquo, pararam em frente a uma grande casa e Pedro explicou: “ O reino de Deus é composto de várias mansões. E o mesmo acontece com o Inferno. Vamos mostrar-te a primeira sala do palácio de Satanás.”
À medida que ia entrando, o velho padre começou a ouvir uma babel de lamentos e gritos. Depois, na sala, reparou que estavam muitas pessoas sentadas a uma grande mesa, e, ao centro, uma enorme travessa do prato preferido do padre. Embora todos os presentes tivessem um enorme garfo que podia chegar à comida, eles gritavam de fome e gemiam por ver a comida tão perto sem a poderem comer. De facto, os garfos que estavam presos às suas mãos eram de um tal tamanho que eles não os conseguiam virar em direcção à boca para aí introduzir o alimento e gemiam dolorosamente. Os seus lamentos eram de tal ordem que o padre pediu que o levassem dali para fora.
Pedro e Moisés levaram-no então para outro lugar longínquo e pararam em frente a uma casa em tudo parecida com a anterior. Convidaram-no a entrar para a ante-sala do Paraíso e ele viu uma mesa igual, com a mesma riqueza de comida e com os convivas sentados, de um lado e do outro, com os mesmos grandes garfos presos às suas mãos. No entanto, ninguém se queixava. Todos tinham um ar satisfeito e saciado. Porque cada um deles utilizava o seu garfo para alimentar o convidado que estava em frente…

Jim Bishop, King Features, in Readers Digest

terça-feira, 24 de junho de 2008

Cantiga a mote: Meu Coração Marinheiro

Amigos, tenho a mania de misturar coisas sérias com brincadeiras, talvez porque ache que é assim que se deve temperar a Vida, e depois admiro-me de que quem me lê sentir o meu aspecto lúdico como o mais visível. Ora, isso não é verdade nem mentira: tem dias! O meu poste sobre os exames é a sério, as minhas quadras a mote são uma brincadeira de S. João. Que, coitado, nem era muito para brincadeiras...
Meu coração marinheiro
Fez-se ao mar e naufragou.
Perdeu o norte, primeiro
Que o teu olhar o cegou.

Meu coração marinheiro
Tantas voltas deu ao mundo!
Mas não esqueceu, Companheiro,
Esse teu olhar profundo.

Meu coração marinheiro
Vai morrer a navegar
Sem poder lançar o ferro
No porto do teu olhar

Andou sempre a correr mundo
Meu coração marinheiro
Preso a esse mar profundo
Do teu olhar feiticeiro

Meu coração marinheiro
Cansou-se de navegar
E ancorou, traiçoeiro,
Nas ondas do teu olhar.


Façam favor de festejar o S. João como deve ser! Eu ontem comi uma sardinha assada!