quinta-feira, 29 de maio de 2008

Tudo o que Deus faz é pelo melhor...

Amigos, vou contar-vos uma história que li há muitos anos, num manual que utilizei quando ensinei uma disciplina que se chamava "Língua e História Pátria": Era uma vez um rei que tinha um conselheiro que muito prezava pela sensatez dos seus conselhos. Este apreço caía mal nos invejosos e o nosso conselheiro tinha os seus inimigos do peito. Ora era pendor seu, sempre que tinha que aconselhar o rei sobre as medidas a tomar sobre qualquer coisa difícil, terminar com a expressão "Tudo o que Deus faz é pelo melhor".
Bem, um dia o princípe, filho único, num torneio caíu do cavalo e morreu e quando todos foram apresentar os pêsames, o nosso conselheiro lá foi, disse o que o coração lhe transmitia, mas acabou com a frase sacramental:"Tudo o que Deus faz é pelo melhor e V. Majestade tem de conformar-se, porque pode ser que esta infeliz morte tenha livrado o príncipe e o reino de alguma calamidade maior".
O rei ficou sentido e os invejosos logo aproveitaram para o atiçar e dizer que um conselheiro tão insensível merecia a morte. Tanto disseram e falaram que o rei, num ímpeto, mandou um carrasco a casa do conselheiro com ordens para lhe dar um golpe fatal assim que ele aparecesse. Ora o dia estava quente e o conselheiro estava no seu quarto, muito à vontade, mas quando ouviu, à porta, dizer que vinham da parte de el-rei, enfiou um roupão à pressa e veio a correr pelas escadas. Tropeçou no roupão, caiu, partiu uma perna e o carrasco não teve coragem de dar o golpe num homem caído no chão. Voltou ao palácio, disse ao rei o que se tinha passado, o rei pensou e disse que ficava tudo por ali. Já agora, ainda queria ver o que o conselheiro lhe diria quando ficasse bom...
Daí a um mês, agarrado a duas bengalas, o conselheiro foi ao paço real e o rei perguntou-lhe se ele ainda achava que tudo o que Deus faz é pelo melhor. Resposta do conselheiro:" Certamente, Majestade! Quem sabe sabe o que me aconteceria se não tivesse partido a perna!" Aí o rei caíu em si e pensou que, de facto, se ele não tivesse partido a perna, estaria morto.
Bem, no dia 26 de Maio, levantei-me cedo e fui meditar à beira mar. Levava vestido um bubu, que é um trajo comprido, até aos pés, e andava ali à babugem onde o mar encontra a praia. Estava a olhar para dentro e de repente vi que uma onda grande se vinha formando e que me iria molhar toda. Dei meia volta para fugir, virei o corpo todo, mas o meu pé direito ficou onde estava. Tinha fracturado os ossos que ligam o peróneo ao pé, além dos ossos do tornozelo. Fui operada na terça-feira, tenho 6 parafusos e uma placa de 15 centímetros, tive alta hoje e estou agora a chegar a casa e a pôr-me em dia convosco.
Posso trabalhar sentada numa cadeira, com o pé lesionado em cima de outra e na segunda-feira retomo as minhas actividades em pleno. Até lá tenho que treinar com duas canadianas, mas vai correr tudo bem. Hei-de publicar aqui uma foto com o meu glorioso pé direito armado em importante e sei que tudo o que Deus faz é pelo melhor.

domingo, 25 de maio de 2008

Cara de Avó

Aqui estou, em toda a minha glória, cabelo ao vento, com cara de Avó Pirueta. Para ver se este meio sorriso chama ao palco O Escondido Sorriso Imenso. Tirada no dia 15 de Maio, ao pôr do sol, com o mar ao fundo.
No meu lado esquerdo, só parte cabe na foto, o meu coração, a minha Caixinha de Afectos. Onde há sempre lugar para mais um que queira entrar.

S. Francisco de Assis

Embora saiba que este poste vai aparecer com data de 24 de Maio, como o anterior, aliás, estou, de facto, a escrever a 25, só que não sei nem tenho por aqui ninguém que saiba, actualizar a data e a hora. Estamos, portanto, num Domingo. Por outro lado, ainda que já conheça, com os olhos da alma, todos os que enchem, (mas deixando sempre espaço para quem quiser vir), a minha Caixinha de Afectos, queria deixar aqui um leve intróito explicativo: eu não sou nenhuma fundamentalista religiosa, nem freirática e muito menos beata!
Tenho falado últimamente muito em orações, Deus, Amor, e outros temas correlaccionados, apenas porque se entroncam em tudo o que estou a fazer. Não imaginam o que tenho aprendido, a estudar para poder partilhar (outra definição para ensinar)! E, ultimamente, no tempo certo, aprendi muito sobre a diferença entre "sofrimento" e "dor". Depois, a gente lê o nosso Raul e ele acorda-nos tão suavemente para outras realidades que estão mesmo à nossa frente e muitas vezes não identificamos...
Por isso apeteceu-me, a mim que nasci no dia de S. Francisco de Assis, "O Louco de Deus", publicar a sua Oração. Um Poema de Renúncia, chamo-lhe eu.
Senhor,
Fazei de mim um instrumento da Vossa Paz;
onde houver ódio, que eu leve o Amor;
onde houver ofensa, que eu leve o Perdão;
onde houver discórdia, que eu leve a União;
onde houver dúvida, que eu leve a Fé;
onde houver erro, que eu leve a Verdade;
onde houver desespero, que eu leve a Esperança;
onde houver tristeza, que eu leve a alegria;
onde houver trevas, que eu leve a Luz.

Senhor,
Fazei que eu procure mais:
Consolar que ser consolado,
compreender que ser compreendido,
Amar que ser amado.

Pois é dando que se recebe,
É perdoando que se é perdoado
E é morrendo que se ressuscita para a Vida Eterna.



Deixem-me falar de Amor



Fala-se tanto de amor! Sim, de amor, assim, com letra pequena, porque não vale nada.
É uma palavra gasta, velha, desperdiçada. No entanto, na minha opinião, para crentes e ateus, para todos os Homens e Mulheres, só o Amor pode servir de padrão de Vida, porque ele tudo ensina, tudo conduz, tudo enforma, para tornar o nosso tempo neste mundo digno de ser vivido.
S. Paulo sabe que eu o acho um tanto pragmático, ter-lhe-ia feito bem talvez ter vivido um Amor terreno para lhe dar mais um pouco de aceitação do que somos, mas tem páginas admiráveis e a famosa Epístola aos Coríntios é um dos meus textos de eleição. Comemorámos, o meu Marido e eu, o nosso 40º aniversário de casamento no dia 3 de Maio de 2003. Ao princípio, ele achou ridículo: ninguém comemora, com uma festa aberta a convidados, 40 anos de casamento! Mas nessa tarde, na Missa celebrada especialmente para o efeito, ele leu a Epístola aos Coríntios (eu tinha pedido licença para tal, visto que não era a do dia) e depois – espanto dos espantos – quem fez a homilia fui eu. Porque eu queria que toda a gente soubesse que aquele Homem me tinha amado, a mim, com todas as minhas imperfeições, daquela maneira. Porque eu tive Pai e Mãe, mas quem me ajudou a crescer e a ser o que sou, foi o meu Marido, o Pai dos meus Filhos. E que me aconselha e ajuda ainda hoje. Se eu o quiser ouvir…
Daí a 23 dias, no dia 26 de Maio, faz, portanto, amanhã 5 anos, morreu como merecia, em paz e suavemente, durante a sua querida e imprescindível sesta da tarde. Nunca soube definir, até hoje, se devia agradecer ou zangar-me por não se ter despedido de mim. Eu não estava em casa. Então, para quem a não tiver à mão de ler, aqui vai a Epístola:

Ainda que eu fale as línguas dos homens
e dos anjos, se não tiver Amor,
serei como o bronze que soa
ou como o címbalo que retine.
Ainda que eu tenha o Dom de profetizar
e conheça todos os mistérios e toda a ciência,
ainda que eu tenha tamanha fé, a ponto
de transportar montanhas,
se não tiver Amor, nada serei.

E ainda que eu distribua todos
os meus bens entre os pobres
e ainda que entregue o meu próprio corpo
para ser queimado,
se não tiver Amor,
nada disso me aproveitará.

O Amor é paciente, é benigno,
o Amor não arde em ciúmes,
não se ufana, não se ensoberbece,
não se conduz inconvenientemente,
não procura os seus interesses,
não se exaspera,
não se ressente do mal;
não se alegra com a injustiça,
mas regozija-se com a verdade.
tudo sofre, tudo crê, tudo espera,
tudo suporta.

O Amor jamais acaba.
Mas, havendo profecias, desaparecerão;
havendo línguas, cessarão;
havendo ciência, passará.
Porque em parte conhecemos,
e em parte profetizamos.
Quando, porém, vier o que é perfeito,
o que então o é em parte será aniquilado.

Quando eu era menino,
falava como um menino,
sentia como um menino.
Quando cheguei a ser homem,
desisti das coisas próprias de menino.
Porque agora vemos como em espelho,
obscuramente, e então veremos face a face;
agora conheço em parte e então,
conhecerei como sou conhecido.

Agora, pois, permanecem a Fé,
a Esperança e o Amor.
Estes três.
Porém, o maior deles é o Amor.”

Alguns séculos mais tarde, Santo Agostinho escreveria: “Ama e faz o que quiseres. Se calares, calarás com amor; se gritares, gritarás com amor; se corrigires, corrigirás com amor; se perdoares, perdoarás com amor. Se tiveres o amor enraizado em ti, nenhuma coisa senão o amor serão os teus frutos.”

quinta-feira, 22 de maio de 2008

A Oração do embondeiro

terrear

O embondeiro é uma árvore-símbolo, quase sagrada, que se encontra em África quase em toda a parte. Dá um fruto estranho, que consiste numa pasta branca, que me faz lembrar esferovite e está num invólucro verde acinzentado. Esta fruta, chamada múcua, faz-me lembrar uma outra imagem: a de grandes ratos suspensos da árvore pela cauda… Até há poucos anos considerada quase sem préstimo (embora eu sempre tivesse gostado muito dela), a múcua hoje é usada em profusão em sumos, sorvetes e ainda em chá para, dizem-me, tratar a diabetes.
O embondeiro fascina-me e gosto de me sentar debaixo de um, quando posso e quero pensar. Ele transmite-me uma segurança, um sentimento de protecção, uma dimensão do meu tamanho que não consigo explicar mas que sinto passar da árvore para mim de uma forma quase palpável. É o lugar escolhido, nas comunidades, para se resolverem assuntos importantes e uma “conversa debaixo de embondeiro” é uma conversa para dar conselhos, para partilhar saberes.
Dos seus troncos largos, muito grossos na parte inferior, saem braços (não consigo vê-los como ramos) que se elevam ao céu numa prece permanente. E, por algum dom que não sei se devo agradecer ou lamentar, eu ouço os braços do embondeiro, na sua oração contínua. E o que ouço é isto:

Meu Deus, olha para África!
Estendo os meus braços para Ti,
Creio que me fizeste assim grande e forte
Para que o meu grito chegasse aos Teus ouvidos.
Senhor, olha para os Teus Filhos Africanos,
Temos sede e fome de justiça,
Clamamos pela tua misericórdia.
Porque quando não tivermos fome e sede de justiça,
Também o nosso corpo ficará saciado.
Meu Deus, estendo os meus braços para Ti,
Porque estamos esquecidos e ninguém ouve
Os gritos das nossas crianças quando vão dormir com fome.
Abre os Teus olhos para ver as suas faces secas,
Porque as nossas crianças choram sem lágrimas.
Os meus frutos baloiçam ao vento, Senhor,
E pedem-te que ensines os nossos próprios Irmãos
A olharem para nós fraternalmente.
Não deixes, oh meu Deus, que o pão que mataria a nossa fome
Seja transformado em máquinas de morte entre nós mesmos.
Meu Deus, olha por África,
Porque ela está sedenta de Ti,
E Te ama e respeita em todas as Tuas criaturas:
Vêem em mim a Tua força e estatura,
Respeitam os rios, as montanhas e os vales,
Nunca se esquecem de Ti, chamando-te por mil nomes.
África, África, suplicam os meus braços estendidos!
Abre os Teus ouvidos, ouve a minha voz, Senhor,
Protege-nos com o Teu Amor, somos Teus Filhos também.
O meu povo acredita que Tu falas através de mim,
Vem tratar das suas makas debaixo dos meus ramos
Os mais novos confiam nos conselhos
Que ouvem da boca dos mais velhos
Encostados ao meu tronco robusto.
Não desiludas o meu Povo, Senhor, ouve a minha voz
Que os meus braços elevam até Ti.
Nós esperamos. Sempre esperaremos.
África é, como a fizeste, Tempo e Espaço.

Gaiola dourada

O José Matias disse-me, em comentário, que tinha tido acesso a Luanda, via You Tube e que tinha ficado impressionado. Esperaria informações minhas.
Gostaria de poder responder a todos, provavelmente muitos mais do que o Zé, presumo eu (que sou muito presumida…) mas não sei concretamente qual o vídeo em causa. Fui ver o que havia, sob o título genérico de “Luanda, You Tube) e o que me apareceu de mais recente (data de 13 de Abril) é apenas uma parte ínfima de uma Luanda inexistente. Falta naquela reportagem, com um belo fundo musical, dizer que a baía não está assim, o banco de Angola perdeu a imponência entre as muitas construções de que só está defendido pela Marginal. Falta mostrar os bairros: o Cazenga, a Sambizanga, o Marçal, o Rangel, o Terra Nova, todos os velhos musseques agora superlotados (e promovidos a bairros) mas sem estruturas básicas mínimas.
Mas então por que falo de uma gaiola dourada? Porque eu considero que, embora conheça a realidade real, a verdadeira, para a encontrar tenho que sair da gaiola dourada em que me meto e me metem quando aqui estou. Seja a trabalhar nas mais longínquas comunidades das províncias do interior, quer seja num comunidade próxima de Luanda, apesar de viver sem as chamadas “comodidades” (uma cama, banho, electricidade, variedade de víveres), toda a minha gente me tenta preservar do Mal. E o que é o Mal? São os possíveis assaltos, as pedinchices profissionais, o contacto com pessoas reconhecidas como hostis à presença de brancos, de portugueses, de cristãos, um por um ou por atacado. Guardada, mimada, protegida, como uma Mamã Grande, sei, no entanto, o que se passa. Sei da prepotência de algumas autoridades, do descaminho de bens enviados, da necessidade de “comprar” alguns direitos que, como direitos, são gratuitos na sua essência. Mas também sei dos que lutam pela sua gente, pela sua saúde, por melhor qualidade de vida, que aceitam com uma gratidão que quase me envergonha tudo o que podemos ensinar. Porque, como já disse, a minha “ajuda” consubstancia-se, essencialmente, em ensinar o que sei. E estou sempre disposta a aprender para ensinar o que não sei mas é preciso saber. Porque as minhas possibilidades de acesso ao conhecimento e informação são infinitamente superiores à deles. E ainda porque só por acaso é que eu não sou um deles e perante o meu Criador, serei, certamente, menor que muitos deles.
Neste momento em Luanda, trabalhando com jovens no sentido de os preparar para lidar com pessoas em situação de fragilidade (doença, especialmente sida, velhice, pobreza extrema, orfandade, etc.), estou numa gaiola ainda mais dourada: tenho um bom quarto, banho, electricidade, alimentação variada, INTERNET (Aleluia!), o mar para me acalmar a 20 metros de casa e para eu mergulhar ao domingo a 150m. Quando vou à cidade (estou na Ilha de Luanda, para perceber a situação, o Google Earth ajuda muito), vou de carro com alguém (mas ainda só fui uma vez tratar de um assunto numa gráfica). Tenho aqui tudo, dentro da minha gaiola… Até estranho! É claro que tenho muito, muito que fazer: 4 a 5 horas de formação sobre a tal humanização dos cuidados (que já veio preparada de Portugal), atendimento de pessoas que me querem falar das suas dúvidas, dos seus problemas, dos seus sonhos. Pessoas, sempre jovens, a quem tenho e quero instilar auto-confiança, auto-estima, respeito pelo estudo e pelo trabalho, em especial. Tenho que ajudar em problemas de traduções, de aulas, de corrigir textos, de fazer pontuações. E ao pé de casa há uma escola básica grande, de onde muitos jovens já descobriram que há por perto uma Mãezinha que lhes pode dar umas explicadelas de Matemática e Português…
Mas isso não me inibe, até porque entre Fevereiro e Março estive um pouco mais de fora da gaiola, de saber que Luanda é um exemplo muito real e completo de como uma cidade pode conviver, lado a lado, em dois mundos completamente antagónicos. Creio poder afirmar sem erro que Luanda é, hoje, a cidade mais cara do mundo! É a cidade com o trânsito mais caótico e demorado que se pode imaginar, pois não se pode dizer que haja rede oficial de transportes públicos, há umas carrinhas azuis e brancas, os candongueiros, que levam as pessoas em condições por vezes bastante precárias. Até porque o seu número é enorme e os motoristas julgam-se os donos das ruas. Apenas a reduzidíssima velocidade exigida pelo volume de trânsito justifica que, apesar dos muitos acidentes, haja poucos feridos graves e ainda menos mortos, felizmente. Aqui, tudo parece andar “malembe, malembe” (devagar, devagarinho)
Os hotéis estão cheios a 101%... e o seu preço é o mais alto do mundo. Não há vagas. Porquê? Aterram diariamente no aeroporto dezenas de aviões cheios, de pessoas que precisam de ficar em algum lugar! Vêm pessoas para pesquisar negócios grandes, pequenos, médios. Vêm pessoas à procura de mudar de vida, de emprego, de horizontes. Vêm pessoas para fazer a manutenção dos equipamentos que Angola comprou em Portugal, na Alemanha, na Rússia, em todo o mundo. Os meus colegas de almoço são 4 engenheiros checos com que me vou entendendo com o inglês deles. Vem gente boa, vem gente oportunista, vem gente de toda a qualidade e procura o seu nicho nesta Babel.
Nunca, em lugar nenhum, vi a ostentação e a pobreza (não falo de miséria, que também há, mas isso, para mim, é outra coisa) tão co-existentes lado a lado. Nunca encontrei tanta gente capaz de ajudar por pura gratuitidade ao pé de quem nos quer multar por tirarmos uma fotografia de um local em que tal é permitido (depois a multa resolve-se a “conversar”, sendo que “conversar” é um eufemismo). Há violência? Há, sim. Primeiro, a “violência” do incómodo pelo pedir constante das crianças, que mais tarde se transforma em quase extorsão e, depois,, se não encarreirarem, acaba em gangue. Mas nada que eu possa, em sã consciência, achar mais visível do que em outros países. Pelo contrário.
E depois, temos sempre aquela ideia de que Angola é tão rica e, no entanto, está tão demorada a melhoria do padrão de vida: os sistemas de saúde, de transporte e, especialmente, porque está na base de tudo, a Educação, dizemos todos, deveriam já ter atingido um melhor nível. Mas a paz é recente e o dinheiro não compra o conhecimento! É preciso tempo para formar pessoas e isso é a maior dificuldade.
Todavia, eu continuo irremediavelmente apaixonada por Luanda, por Malange, por Viana, pelo Úcua, por Kibaxi, pelo Rio Kuanza, pela Barra do Dande, pelo Mussulo, pelo Cabo Ledo, pelas estradas e picadas, por estas gentes todas, pobres e ricos, bons e menos bons, porque quero acreditar que, de facto, a maior parte das vezes, “o Homem é o Homem e a sua circunstância”.
Vou contando. Zé, para ti, em especial, o pedido: identifica-me o acesso. E fica a saber que se eu tivesse que escrever uma carta ao Menino Jesus só sobre a “minha África”, Senhor meu, que tarefa imensa!

terça-feira, 20 de maio de 2008

Carta ao Menino Jesus...aos soluços (3º Soluço)


Menino Jesus, lá estive a ouvir a pequena, são coisas de coração jovem, penso que a nossa conversa de pé de embondeiro a ajudou. Obrigada por me teres mandado o Espírito Santo. Mas, continuando, chegou a altura de Te pedir que nos dês mais capacidades intelectuais. É urgente, porque parece que somos quase todos um tanto apoucados. Pelo menos a Português e a Matemática. A não ser assim, de quem é a culpa? Entretanto, deixa-me interromper esta lista de pedidos para te agradecer o que inspiraste ao Dr. Nuno Crato quando ele disse que nós não somos menos capazes mas que temos uma grande tendência de seguidismo para modernices pedagógicas que não dão em nada. Também achei que ele tinha razão ao dizer que é, principalmente, a incapacidade de saber falar, ler escrever e interpretar Português que causa as desgraças da Matemática. Eu sei que o senhor causa engulhos a muita gente, mas, na minha, acho que ele neste caso tem razão.
Portanto, apesar de saber que estou a pedir muito, atrevo-me a mais isto: dá-nos uma boa Ministra da Educação, sensata, que saiba ouvir e que não desconfie praticamente de todos os professores. Como pode alguém amar uma obra e desprezar os operários? Dá-nos, meu Menino, Professores competentes e, se possível, “fascinantes”. Se quiseres ver qual é a diferença, dá uma vista de olhos às aulas e aos bloguistas da minha caixinha de Afectos. Aí, no que diz respeito a bons Professores, Tu, Divino Mestre, sabes bem que não basta saber: é preciso amar o que se faz, ter entusiasmo (ter Deus dentro de si, que é o que quer dizer, etimologicamente, diziam os gregos). Não é para qualquer um. Sabes, às vezes, reflectindo na Tua Vida e nos Teus amigos, acho que os professores precisavam de ter a impulsividade de Pedro, o Amor de João e o pragmatismo de Paulo. Que achas? Terei razão? Além disso, temos uma língua maravilhosa e destruímo-la sempre que podemos. As orações que os homens compuseram para te louvar, Senhor, são mais belas em Português, mas se não pões mão nele, um dia destes começamos o Pai-Nosso com um ”É assim” e terminamos com um “prontos”, em vez de “Amém”.
Voltemos aos portugueses em geral. Olha que até parece má-vontade de Teu Pai, a Primeira Pessoa da Santíssima Trindade! Deu-nos um Portugal lindo (embora nós tenhamos feito os possíveis para o tornar feio, na maior parte dos casos onde metemos as mãos), deu-nos um clima fantástico, mas achou que já era o suficiente e esqueceu-se do Povo. Nascemos um bocado cansados, duvidamos antes de vermos e acreditamos em coisas que nem podemos garantir que existam. Olha, já que estou a pedir, então dá trabalho aos desempregados e vontade de trabalhar a todos, torna os empresários mais socialmente envolvidos, inspira-os a fazerem os seus negócios com rectidão. E não te esqueças de uma habilidadezinha que faça fechar as fábricas de armamento e outra que dê um enjoo natural e eficaz pelo tabaco. Tens é que pensar numa alternativa para quem fica sem trabalho, mas haverá impossíveis para Ti?
Acho que a lista vai longa e está na hora de acabar. Posso pedir mais uma coisinha? Senhor, mata a Fome do Mundo. Toda a Fome. Primeiro, a fome-fome. Depois a fome que o homem tem do Bem, tantas vezes sem o saber. A fome de Amor, a fome de Saber, a fome do Belo, a fome da Alegria, a Fome de Ti. Amem.
Desculpa o atrevimento, mas eu confio no Teu Perdão. Tua, Carmo