quinta-feira, 15 de maio de 2008

O Bambu chinês e a Gestação do Oculto


“Dizem que existe na China uma espécie de bambu absolutamente particular. Se semearmos uma semente em terreno propício, temos que nos prover de paciência… Com efeito, no primeiro ano não acontece nada: nenhum caule se digna sair do chão, nem o menor rebento. No segundo, também não. No terceiro? Nadinha! E no quarto? …Isso sim!
Só no quinto ano é que o bambu lança finalmente o seu rebento para fora da terra. Mas agora, num só ano, ele vai crescer doze metros: que “recuperação” espectacular A razão é simples: durante cinco anos, enquanto nada acontece à superfície, o bambu desenvolve secretamente prodigiosas raízes no solo graças às quais, chegado o momento, está em condições de fazer uma entrada triunfal no mundo visível, à luz do dia. (…)
O bambu chinês ensina-nos muitas e importantes coisas: Primeiro, mostra-nos que não é por não vermos que nada se está a passar. Depois, indica-nos que certas mudanças bruscas ou, por vezes, instantâneas, podem ser o resultado de uma lenta evolução que não nos é perceptível. (…)
Podemos observar o fenómeno do bambu chinês em muitos e variados domínios humanos. Ignorá-lo leva-nos muitas vezes a interpretar mal determinadas situações, seja alarmando-nos inutilmente com uma aparente falta de mudanças positivas, seja assentando a nossa calma na ausência enganosa de mudanças negativas, que não tardarão, contudo, a revelar-se.
Em matéria de educação, por exemplo, certas crianças progridem de de maneira constante e regular, enquanto outras parecem estagnar, não evoluir, acumulando atrasos. No entanto, entre elas encontram-se muitas “crianças-bambu” que, chegadas a um certo estádio da sua imperceptível maturação interior, vão repentinamente dar passos gigantescos no seu desenvolvimento, apanhando e por vezes ultrapassando aquelas em relação às quais as julgávamos atrasadas. (…)”
In “A rã que não sabia que tinha sido cozida e outras lições de Vida”, Olivier Clerc, Publicações Europa-Américo
Amigos, vim carregada de livros mas poucos trouxe, por excesso de peso, para Leitura-prazer. Trouxe comigo um pequeno desconhecido, de capa verde, cujo título me saltou à vista e acordou a minha curiosidade. Apesar de ter de me levantar às seis horas, não consigo deitar-me cedo, porque há sempre acertos a fazer para os trabalhos do dia seguinte mas isso não consegue vencer o meu hábito de quase 60 anos de ler SEMPRE antes de dormir. Encontrei lá , no tal livro, esta alegoria que achei interessante (aliás todas elas o são e se encontram nas acções mais triviais da nossa vida diária). Impressionou-me, sobremaneira, aquela frase: “não é por não vermos que nada se está a passar.” E muitas vezes nós é que não queremos ver, porque depois de saber, não se pode ignorar…
Até sempre.

quarta-feira, 14 de maio de 2008

Angola em que vivo

Os trajes tradicionais, muito coloridos, enchem os meus olhos de vontade de os ter a todos...

Luanda, 2008
Estou em Angola pela 5ª vez em 3 anos, depois de aqui ter vivido os primeiros 23 anos da minha vida. Esta Luanda já não é a “minha” Luanda, nem o deveria ser. Esta minha Luanda de agora dói-me e enche-me a alma, ao mesmo tempo. O seu crescimento desmesurado, sem estruturas mínimas, provoca um caos enorme. O tráfego automóvel é indescritível, a pobreza vê-se a olho nu.
Mas há um calor humano, uma azáfama incessante, um acreditar contra todo o desespero que me enche de Esperança. Portanto, Raul do Imenso sorriso, quero dizer-te que o prédio da Cuca ainda existe. Lembra-te de que eu sou do tempo da construção da fábrica da Cuca, na Estrada do Cacuaco. Foi o senhor Paulino, um diletante (sei-o agora) que era hóspede em casa do meu pai e o que me disse que o Menino Jesus punha presentes nos sapatinhos, que ganhou o concurso para o primeiro rótulo. Mas na Marginal, o prédio da cerveja rival, a Nocal, ainda é mais alto.
Aliás, a construção vê-se crescer minuto a minuto, em todo o espaço, a uma velocidade e custo inexplicáveis. O espaço é tão valioso como ouro e não consigo imaginar os limites do futuro.
O velho e belo Banco de Angola, ainda é imponente, no seu cor-de-rosa desmaiado por muitos sóis e chuvas. A baía, a minha belíssima e querida Baía de Luanda, aquela que mais se assemelhava a Guanabara, está a ser modificada. Raramente lá passo, mas aperta-se-me o coração ao vê-la, quase toda já tapada com areia. Dizem que é para construir um parque temático, mas, sinceramente, não sei de quê.
O Mussulo, a Corimba, o Cabo Ledo, a Ilha, continuam a ser praias maravilhosas, com água de onde não apetece sair. Nossa Senhora da Muxima continua com a sua festa a 13 de Maio, pois embora Muxima signifique “coração”, Nossa Senhora da Muxima é Nossa Senhora de Fátima.
Ontem houve várias procissões nocturnas, tão parecidas com as nossas que, se fossem de dia e com foguetes, esqueceríamos a falta do rosmaninho e pensaríamos estar a ouvir João Villaret a dizer “A Procissão”…
A Maianga ainda é uma zona nobre, a Cidade Alta está mais reservada, pois aí funciona o Palácio do Governo e várias altas instituições. O velho cinema Restauração foi abaixo e agora está lá o Palácio da Assembleia Nacional. Por detrás, o velho Parque Heróis de Chaves ainda se chama Parque Heróis de Chaves. O Hospital D. Maria Pia dividiu o nome com o da primeira esposa de Samora Machel – Josina Machel.
A Rua dos Combatentes chama-se agora Comandante Valódia, mas por cada uma pessoa que a designa por este nome há dez que lhe chamam simplesmente “os Combatentes”. A Rua D. António Barroso deve ter 50 pessoas a dar-lhe este nome em vez do que lá está na placa e que nem recordo.
Já não há o cinema Miramar, o Nacional chama-se agora “Chá de Caxinde”, o Tropical continua com o mesmo nome. O Mercado de Quinaxixe, situado no Largo do Quinaxixe, que já tinha sido chamado, não sei por que bulas, Largo dos Lusíadas e depois, Largo da Maria da Fonte (!)
continua fechado e a fazer uma falta enorme. A Livraria Lello nem chega a ser uma pálida chama do que foi, mas há-de arribar.
A antiga Câmara, sobre a Mutamba, de onde não saem nem onde chegam machimbombos, é agora o Palácio do Governo da Província de Luanda.
E o povo? O povo é um povo orgulhoso, que quer ter voz activa, que se assume como uma velha civilização, ainda que diferente. Antigas tradições estão a ser recuperadas, mesmo ao nível daquilo que se chama “as melhores famílias”: o alambamento (festa em que o noivo entrega à família da noiva uma espécie de dote ou arras - quem se lembra de “Arras por foros de Espanha? – e tanto maior quanto mais importante ele se quiser fazer ver). Os nomes antigos começam a tornar-se comuns, como Nfulu para menina (quer dizer “bonita”) ou Landas, nome masculino que significa “sábio”. Há muitas crianças, graças a Deus, as mulheres vestem com bom gosto, são bonitas, bem feitas, uma tentação para quem vem sozinho… Os homens são vaidosos, capricham no vestuário e gostam de trazer os sapatos reluzentes de graxa.
Malange, Kibaxi, Viana, Úcua, Sumbe, Gabela, muito envelhecidas porque o seu povo veio para Luanda e não mostra vontade de voltar. O sul, com o seu clima mais ameno, está a crescer mais ordenadamente e está de encher o coração.
Hei, minha gente Africana, chegou? Eu nunca me canso de falar destas terras.

O que faço por aqui?

Pôr de sol Africano, num santuário de embondeiros


Depois de percorridos mil caminhos
Para chegar a mim,
Descobri que a rota mais directa
Era sair de mim.
Muitos me perguntaram, curiosos,
“África, porquê e em que nome?
Não vês perto de ti tantos desejosos
Tantos também com Fome?”
Lembrei-me então da parábola
Em que Jesus falou das migalhinhas
Que ao cair da mesa dos eleitos
Alimentavam as bocas pobrezinhas.
Procurei, pois, fazer algo no meu espaço
Procurei dar o meu Tempo, um Bem imperecível
Mas ninguém aceitou o meu regaço,
Nem precisou do meu ombro disponível.
Quem me procurou não precisava
E a quem me ofereci não aceitou.
E África a clamar, dentro de mim,
Mais uma vez, bem alto, me chamou,
Como uma Mãe a gritar pelo filho ausente.
Tive mesmo de lhe dizer “Presente”
E vim, e fui, e vim.
Que faço? perguntam
Sigo as regras que eu própria estabeleci:
Faço o que sei, onde for preciso,
Pois esse é o trabalho que escolhi.
Numa comunidade terrivelmente pobre,
Onde terei que ser pobre também.
Não posso nem quero ser diferente,
Eles são meus Filhos, eu sou Mãe.
Aprendo e ensino a fazer Pão
Com inesperados ingredientes;
Construímos o forno, em união,
Preparamos a terra e as sementes.
Descubro em cada dia uma nova oferta
Que o Senhor me traz sem a pedir
E procuro manter a alma aberta
Para aprender a melhor amar e a sentir.
Outras vezes, procuro humanizar
Tudo o que está associado à Dor
E sinto uma alegria singular
Por cada novo gesto de um velho Amor.
“Mas o que fazes? Perguntam outra vez
E outra vez respondo sem mentir.
Faço o que é preciso em cada vez,
Faço o que me pedem sem pedir.
O que me dá mais Alegria e mais Calor
É trabalhar com mulheres e com crianças.
Gosto de sentir-lhes a cabeça no regaço,
que procurem sempre o meu Abraço,
E encho esse abraço de esperanças.
Gosto de ajudar as mulheres em seu labor.
Porque a Mulher Africana é heroína
Desde que o sol se levanta, de manhã.
São os seus ombros, ainda que menina
Que carregam as sementes do Amanhã.
A Mulher Angolana, se eu mandasse,
Teria uma estátua em cada rua.

terça-feira, 13 de maio de 2008

Será que isto serve de resposta?

Adivinhem o que isto é, antes de lerem. Aposto que não haverá muitos que acertem à primeira...

Amigos,
Hoje vou deixar a Senhora Ministra em paz e responder por este meio a todos os que me perguntam o que faço. Já enviei fotos com meninos a quem ensino, antes de mais, a ser meninos, em Viana, já mandei fotos com um grupo de mulheres de Quibaxi, onde cozinhámos em conjunto o que havia, arranjámos remédios, falámos da necessidade de espaçar as gravidezes, etc. Neste momento estou em Luanda, por acaso muito bem instalada (parece férias...), com o mar a 20 metros de um lado e a 100 metros do outro. Estou a dar 4 horas de formação por dia a pessoas sem habilitações, que fazem trabalhos hospitalares indiferenciados, e a quem procuro instilar a noção de humanização. Porque é de uma necessidade estrondosa. No dia 26 vou para uma Província que ainda não está definida, ajudar a formar mobilizadores. Para isso, escrevi o ano passado um livrinho, cuja edição foi paga por uma empresa angolana, e do qual transcrevo o ponto 5.6., Higiene pessoal e Higiene do Ambiente. Mobilizadores são pessoas mais expeditas que trabalham comigo e depois ficam responsáveis pela implementação do que aprenderam, em termos de saúde, higiene, alimentação, vida familiar, economia doméstica, etc. nas suas comunidades

5.6. Higiene pessoal e higiene do ambiente
A Higiene ajuda a prevenir as doenças, a conservar a saúde e a impedir o contágio de doenças infecciosas. Quando falamos de higiene, estamos a falar da higiene da pessoa, da roupa, dos alimentos, da casa e do quintal, se o houver. Com as crianças, praticamente desde que nascem, deve haver todo o cuidado: fraldas limpas, biberões bem lavados, roupas limpas e próprias para a temperatura, comida bem cozinhada e livre de micróbios, moscas, etc. Tome banho sempre que puder; se não puder, lave a cara, os pés e os braços todos os dias, de manhã e à noite. Use sabão azul. Lave os dentes depois de comer. Ensine o se filho a fazer tudo isto.
Use roupa lavada, por dentro e por fora, lave os alimentos antes de os cozinhar e lave as mãos muitas vezes. Estes são outros cuidados que deve ter.
Construa uma espécie de torneira com um garrafão e uma mangueira ou como se mostra na figura. (Não pude pôr aqui a figura, fica para a próxima...). Não tussa nem espirre para cima dos alimentos e das outras pessoas e não mexa em alimentos com feridas a descoberto. Cubra os cortes ou feridas que tiver.
A nossa casa deve ser arejada, estar sempre bem varrida, sem buracos por onde possam entrar ratos, cobras e insectos. O lixo atrai as moscas e as águas sujas chamam os mosquitos. Varra o seu pátio e enterre o lixo como foi dito antes. Queime folhas de eucalipto, nime, laranjeira, limoeiro ou outras ervas ou folhas do mato com bom cheiro, porque além de perfumarem a casa afastam os mosquitos. Quando lavar a louça, é melhor deixá-la a escorrer do que secar com panos. Mas cubra-a por causa das moscas e outros animais.
Uma das maneiras de termos realmente higiene no lugar onde vivemos é termos latrinas, se não pudermos ter retretes.
Uma latrina deve ser construída perto de casa mas nunca a menos de uns 20 a 25 metros de qualquer local onde haja água, para não estragar a água. Pode fazer-se com chapas de zinco, tijolo, blocos e cobrir o tecto com o que for mais fácil e útil ao mesmo tempo. A fossa da latrina deverá ter uns três metros de fundo por um de abertura. Um bidão velho, metido no solo e depois coberto também pode servir. Pense na cobertura da fossa, onde vai fazer o buraco para as fezes caírem dentro dela. O buraco não pode ser muito grande por causa das crianças e arranje uma tampa com alça para levantar e baixar.
De vez em quando deite um pouco de terra ou cinzas para cima das fezes. As cinzas vão afastar as moscas e o mau-cheiro e ajudam a formar estrume que depois vai tornar a terra mais rica e produtiva. Ensine as crianças a usar a latrina, a limpar-se e a ter cuidado depois: lavar as mãos. Ensine as meninas a limparem-se da frente para trás, porque assim evita a passagem dos micróbios para a vagina. A saúde, sua e dos seus filhos, é aquilo que, para si, deve ter mais valor.
Ajude-nos a ajudá-lo, a si e à sua comunidade.
Aprenderam alguma coisa? Poiséu aprendi a construir latrinas, fornos e coisas assim, para poder ensinar. Sabem, ninguém me ensinou isso na Universidade. Mas eu sempre pensei que a universidade era para nos ensinar a pensar e a agir. A fazer, aprendemos depois, na Vida. Meus Queridos, façam o favor de ser felizes!

segunda-feira, 12 de maio de 2008

Sugestões para a Senhora Ministra da Educação

Senhora Ministra da Educação,
Excelência,

Estou a escrever-lhe de Luanda, Angola, e creio que a distância física a que nos encontramos me dá a objectividade necessária para lhe dar umas pequenas ideias. Fartei-me de comprar livros para aprender a fazer xaropes com plantas, a descobrir as últimas ervas comestíveis, a ver o que se pode dizer e fazer para humanizar pessoas a quem as necessidades prementes de viver, paradoxalmente, desumanizaram. Foi nesse afã que tentei encontrar uma obra com dicas para Ministros da Educação, mas a procura deve ser pequena, porque não encontrei nada, depois de buscar neste mundo e no outro. No entanto, fortalecida com este sentimento africano de que os seniores valem por si só e têm o respeito de todos como “mais velhos”, atrevo-me a pedir-lhe autorização para lhe enviar algumas conclusões a que cheguei nesta já longa vida de mestra e aprendiz, assim como algumas sugestões.
E além disso, com estas, os Amigos da minha Caixinha de Afectos vão ficar a saber que estou bem e me recomendo. Ah, se a Senhora Ministra não se importasse, faria aqui um pequeno desvio só para dar uma Abraço especial ao Existente Instante (a Senhora sabe que nós, os bloguistas, aproveitamos para nos crismarmos e eu acho este nome de uma poesia imensa, embora não seja o único). Pois, meu Querido Existente Instante, foi a surpresa mais bonita que recebi, assim que me consegui organizar em termos de Net. O que não foi fácil… Mas o facto de teres interrompido a tua suspensa espera para me mandares um abraço foi um verdadeiro presente. Desculpem os outros Afectos da Caixinha, mas eu sempre apreciei a parábola do Filho Pródigo e encontrei uma vaga similitude entre as situações…
Primeiro, Senhora Ministra, queria sugerir-lhe que pusesse alguém do Ministério a ler blogues. Vai ver a categoria de Professores que tem e vai fazer-lhe bem. Porque eu tenho cá uma impressão de que nos Ministérios se esquece como é a Vida real. Por isso, eu concordo com a Avaliação. Mas AVALIAÇÃO como deve ser, para separar (e premiar) os cavalos dos burros. Não para humilhar nem vender formações esquisitas, como já começa a aparecer.
Depois, queria dizer-lhe que considero que a Educação é o mais importante Ministério do Governo, porque é na Educação que está o futuro. Poderia e deveria bater o pé nas reuniões, falar grosso e fazer-se valer. Mas para isso precisaria de ter o que não tem: uma quantidade de gente capaz (Professores, claro) por detrás, a dar-lhe apoio. Sabemos que tem o apoio do Primeiro-Ministro, mas olhe que nem sempre “vale mais ser Ministra por um dia do que Professora toda a Vida”, que me perdoe D. Luísa de Gusmão.
Lembre-se de que ninguém sensato faz obras de fundo em casa com os móveis e a família lá dentro. Se o faz, é barafunda na certa e as obras não acabam em bem. E se os obreiros não estiverem consigo, nunca mais chega a lado nenhum.
Não siga aquele dito (não é ditado) que refere que "antes faça mal do que se estrague". Em Educação é mais do que perigoso - pode ser criminoso.
Feche para balanço, como fazem as empresas, e seja realista. Como não se pode fazer tudo ao mesmo tempo (nem se deve), comece pelo princípio: reorganize completamente o ensino pré-primário e o 1º ciclo. Para fazer essa reorganização, não convoque uma comissão muito grande. Grande nau, grande tormenta. Quando há muita gente, a responsabilidade dilui-se. Escolha poucos, mas bons.
A maior parte dos membros dessa pequena comissão haveria de ser composta por professores desse nível escolar, embora deva ter alguns outros elementos para ter uma visão externa e de conjunto, com especial realce para os que vão pegar nas crianças no ciclo segionte.
Ouça os Pais e os Professores, o que não quer dizer forçosamente que tenha que ouvir os sindicatos. (Manterei esta opinião até ver os sindicatos defenderem outra coisa que não sejam direitos, sem se pronunciarem sobre deveres). Mesmo no caso dos Pais, desconfie dos dirigentes de Associações de Pais "profissionais". (A maior parte das vezes estão mais interessados no facilitismo do que na Educação dos seus filhos e educandos).
Quando remodelar (porque um dia lá terá que ser…) aqueles órgãos intermédios, que, muitas vezes, só andam a empatar-se uns aos outros, não "devolva" os técnicos que os constituem à Escola. Deveria dar-lhes possibilidade de escolherem se querem mesmo voltar. A Senhora Ministro sabe muito bem que muitos deles se transformaram nisso porque não gostavam de ser professores.
Assim, aqueles que demonstrassem não ter, de facto, perfil para educar, para formar, poderiam ganhar o mesmo e ficar numa espécie de limbo, a fazer umas coisas que têm que ser feitas e ocupam pessoas mais válidas. Por exemplo, fazer as estatísticas, confirmar os dados dos concursos dos professores, etc….
Dos programas do ensino pré-primário faria obrigatoriamente parte a aprendizagem de regras simples como cumprimentar, responder ao cumprimento, agradecer, pedir por favor, sentar-se quando a tarefa assim o exigir, partilhar e ser feliz.
A regra acima obriga a fazer um exame aos educadores para verificar até que ponto estão aptos e dispostos a fazer cumprir o programa definido, mas obrigatoriamente com Amor e Alegria. Nesse caso, seja exigente, porque estes são os verdadeiros alicerces. E como a oferta é maior (pelo menos, parece) do que a procura, quem não servir que vá fazer outra coisa.
Mande avaliar as Escolas Superiores de Educação. Quantos dos seus mestres já estiveram em situação normal de aula de crianças com que vão trabalhar os seus pupilos?
Pense em impor uma regra derivada da situação acima: todos os professores de professores deveriam dar aulas um ano nos níveis para que preparam os futuros professores. Para que não se repita aquela anedota “tu não sabes e eu já me esqueci”.
Quando os pais fecharem as escolas a cadeado, faça cumprir a lei, pois julgo que se incorre em duas faltas: actuação abusiva sobre bens do Estado e impedimento do exercício das acções para educar, que são obrigatórias até ao fim do 3º ciclo, pelo menos por agora.
Aliás, não se preocupe muito com estas acções ou com as greves. Preocupe-se com o que lhes está na origem e, se houver fundamento, seja Grande e corrija os erros. Não há nada que se pague mais caro do que erros em Educação e a prova está aí à frente de quem quiser ver.
Não permita que haja pessoas a “ensinar” que digam "há-des", "tu fizestes" ou "póssamos" e que não gostem de ler. Nem de sorrir.
Senhora Ministra, não quero abusar do seu tempo, mas ainda tenho mais no meu baú de Avó. À disposição de V. Exa. despeço-me com os mais respeitosos cumprimentos, Maria do Carmo Cruz

PS. Desculpe não levar imagem mas estou com uns problemazitos...

sexta-feira, 9 de maio de 2008

Deixem dizer-vos hoje

Era uma vez uma Pessoa que descobriu que não poderia viver sem Amor (talvez porque soubesse o que era). Mas ela tinha Amor à sua volta: dos Filhos, dos Amigos, e ainda de tanta outra gente que ela já não sabia destrinçar se eram Filhos, se Amigos. Mas faltava-lhe alguma coisa: a Escola, especialmente uma Escola viva e, de uma forma quase dolorosa, o convívio com os jovens, os Alunos.
Faz o que pode para colmatar esse vazio e uma das vias que usa é visitar a sua última Escola. Lá, sem o saber, recebeu um presente imenso: disseram-lhe que “se fosse ao terrear era capaz de encontrar gente com as preocupações dela”. E até iria encontrar muitas grelhas de avaliação, porque o José Matias Alves (“lembras-te?”, perguntaram-lhe então) era o “dono do blogue”. Bem, a necessidade das grelhas não vem ao caso, até porque não tem nada a ver com Professores.
E essa vossa Amiga foi ao terrear e apaixonou-se por uma quantidade de gente: primeiro, o Zé, que conhecia, mas superficialmente, de outras guerras. Depois, em catadupa, a Fátima André, o Raul do Sorriso Imenso, a Anabela do Tâmega, a Teresa do Lindo Nome, o Existente Instante, a Isaura das partilhas, a Renard que a vê lendo-a, a Teresa de Dusseldorf, a Elsa do retrato sinestésico, a Rosário que perdeu o ânimo (momentaneamente, espera-se) e até, sempre com tanto gosto, o cumpadre do Oeste. E depois, quando notou que poderia estar a perturbar os blogues por onde se andava a aninhar, ela resolveu criar o seu próprio blogue.
Essa Mulher feliz sou eu, a mesma menina que não teve a boneca que pediu no seu primeiro Natal. O que só prova que tudo pode mudar para melhor (Zé, esta conclusão é para juntar à tua parábola dobre a justiça da Justiça). Mas é para todos que estou a escrever. É a todos que quero agradecer a porta que abriram para eu entrar, as boas vindas com que fui recebida, as vossas palavras sempre embaraçosamente gentis. Como já disse à Isaura, o meu corpo, objecto físico, vai partir, mas o meu espírito, múltiplo e infinito porque é uma chispa do Espírito que o criou, fica convosco mesmo indo comigo.
Vou ter, certamente, menos tempo para reflectir e partilhar as minhas reflexões convosco. Ou não… Afinal, nada é definitivo! Mas vou ver-vos todos os dias, vou sentir-me não só a Amiga mas também a orgulhosa Mãe, Irmã, Avó (lembremo-nos dos Corações Adolescentes do Raul e especialmente da Vera e também do Maracujá da Anabela), de todos vós. E Colega, mas assim mesmo, Colega, com letra grande. A sentir as vossas alegrias, tristezas e angústias
Quero deixar-vos uma mensagem de Esperança. Aliás, quero devolver-vos, acrescentada, a Esperança na Educação que me deram e que tão profundamente vos agradeço. As coisas estão feias, reconheço. As dificuldades são muitas, não duvido. As deserções doem, eu sei. A falta de reconhecimento pela função do Professor é injusta, sinto-o na minha carne também.
Mas, mesmo assim, eu julgo que os Professores são a última Esperança deste Portugal que se estilhaça em coisas mesquinhas. Nós, Professores, nunca usámos a força que temos, em comunhão (como no dia dos 100.000) para revolucionar. E precisamos de ser revolucionários. Não só por uma Avaliação justa. Não só por nós, mas pelos nossos jovens, todos, mesmo os que nos desesperam (esses mais do que ninguém), pelos que não têm maneiras, pelos que são grosseiros, violentos, indiferentes.

Vocês todos, aqui nomeados, são a minha Esperança no Futuro dos meus netos. E esse é, para mim, o melhor elogio que vos posso deixar.
Um abraço apertado da Avó Pirueta.
PS. Por me orgulhar disso, aqui vos mando mais alguns nomes por que sou conhecida: Mãe Bom-Dia, Mãe Descomplica, Irmã. São só alguns…


quinta-feira, 8 de maio de 2008

Um dia tive seis anos e não sabia...

Um dia tive seis anos e era véspera de Natal.
Alguém me perguntou onde é que poria os meus sapatos.
Os meus sapatos? Os meus únicos sapatos, de pano, castanhos?
“ - Ah, disseram-me, não sabes, não faz mal.
Podes pô-los em qualquer lugar,
Porque o Menino Jesus há-de adivinhar.”
E para que queria o Menino Jesus os meus sapatos?
Eu só tinha aquele par…
E depois, o que haveria de calçar para levar para a Escola?
“ - Não te preocupes, Menina. Ele é que tos vai encher
Daquilo que o teu coração quiser.”
“ - Sim? Então, uma boneca, pode ser?
Não tenho uma boneca. Só quero uma boneca!”
“ - Sim, esta noite, dorme bem,
Porque Ele não gosta de acordar quando vem
E gosta de dar quando ninguém vê.”
“ - Ai, sim? Então porquê?”
“ - Porque Ele é Jesus, Filho de Deus, é Deus e nosso Irmão.”
Ai, com que alvoroçado coração
Me fui deitar naquela noite longa.
Fechei os olhos com força, com vontade,
E de manhã acordei para a verdade:
Os meus sapatos estavam lá, como os deixei,
Vazios.
Procurei no quarto todo, era tempo do calor
Mas os meus ossos estavam frios.
Esta recordação apenas para lembrar
Que é preciso cuidado ao prometer
Porque depois se espera receber.