O José Matias disse-me, em comentário, que tinha tido acesso a Luanda, via You Tube e que tinha ficado impressionado. Esperaria informações minhas.
Gostaria de poder responder a todos, provavelmente muitos mais do que o Zé, presumo eu (que sou muito presumida…) mas não sei concretamente qual o vídeo em causa. Fui ver o que havia, sob o título genérico de “Luanda, You Tube) e o que me apareceu de mais recente (data de 13 de Abril) é apenas uma parte ínfima de uma Luanda inexistente. Falta naquela reportagem, com um belo fundo musical, dizer que a baía não está assim, o banco de Angola perdeu a imponência entre as muitas construções de que só está defendido pela Marginal. Falta mostrar os bairros: o Cazenga, a Sambizanga, o Marçal, o Rangel, o Terra Nova, todos os velhos musseques agora superlotados (e promovidos a bairros) mas sem estruturas básicas mínimas.
Mas então por que falo de uma gaiola dourada? Porque eu considero que, embora conheça a realidade real, a verdadeira, para a encontrar tenho que sair da gaiola dourada em que me meto e me metem quando aqui estou. Seja a trabalhar nas mais longínquas comunidades das províncias do interior, quer seja num comunidade próxima de Luanda, apesar de viver sem as chamadas “comodidades” (uma cama, banho, electricidade, variedade de víveres), toda a minha gente me tenta preservar do Mal. E o que é o Mal? São os possíveis assaltos, as pedinchices profissionais, o contacto com pessoas reconhecidas como hostis à presença de brancos, de portugueses, de cristãos, um por um ou por atacado. Guardada, mimada, protegida, como uma Mamã Grande, sei, no entanto, o que se passa. Sei da prepotência de algumas autoridades, do descaminho de bens enviados, da necessidade de “comprar” alguns direitos que, como direitos, são gratuitos na sua essência. Mas também sei dos que lutam pela sua gente, pela sua saúde, por melhor qualidade de vida, que aceitam com uma gratidão que quase me envergonha tudo o que podemos ensinar. Porque, como já disse, a minha “ajuda” consubstancia-se, essencialmente, em ensinar o que sei. E estou sempre disposta a aprender para ensinar o que não sei mas é preciso saber. Porque as minhas possibilidades de acesso ao conhecimento e informação são infinitamente superiores à deles. E ainda porque só por acaso é que eu não sou um deles e perante o meu Criador, serei, certamente, menor que muitos deles.
Neste momento em Luanda, trabalhando com jovens no sentido de os preparar para lidar com pessoas em situação de fragilidade (doença, especialmente sida, velhice, pobreza extrema, orfandade, etc.), estou numa gaiola ainda mais dourada: tenho um bom quarto, banho, electricidade, alimentação variada, INTERNET (Aleluia!), o mar para me acalmar a 20 metros de casa e para eu mergulhar ao domingo a 150m. Quando vou à cidade (estou na Ilha de Luanda, para perceber a situação, o Google Earth ajuda muito), vou de carro com alguém (mas ainda só fui uma vez tratar de um assunto numa gráfica). Tenho aqui tudo, dentro da minha gaiola… Até estranho! É claro que tenho muito, muito que fazer: 4 a 5 horas de formação sobre a tal humanização dos cuidados (que já veio preparada de Portugal), atendimento de pessoas que me querem falar das suas dúvidas, dos seus problemas, dos seus sonhos. Pessoas, sempre jovens, a quem tenho e quero instilar auto-confiança, auto-estima, respeito pelo estudo e pelo trabalho, em especial. Tenho que ajudar em problemas de traduções, de aulas, de corrigir textos, de fazer pontuações. E ao pé de casa há uma escola básica grande, de onde muitos jovens já descobriram que há por perto uma Mãezinha que lhes pode dar umas explicadelas de Matemática e Português…
Mas isso não me inibe, até porque entre Fevereiro e Março estive um pouco mais de fora da gaiola, de saber que Luanda é um exemplo muito real e completo de como uma cidade pode conviver, lado a lado, em dois mundos completamente antagónicos. Creio poder afirmar sem erro que Luanda é, hoje, a cidade mais cara do mundo! É a cidade com o trânsito mais caótico e demorado que se pode imaginar, pois não se pode dizer que haja rede oficial de transportes públicos, há umas carrinhas azuis e brancas, os candongueiros, que levam as pessoas em condições por vezes bastante precárias. Até porque o seu número é enorme e os motoristas julgam-se os donos das ruas. Apenas a reduzidíssima velocidade exigida pelo volume de trânsito justifica que, apesar dos muitos acidentes, haja poucos feridos graves e ainda menos mortos, felizmente. Aqui, tudo parece andar “malembe, malembe” (devagar, devagarinho)
Os hotéis estão cheios a 101%... e o seu preço é o mais alto do mundo. Não há vagas. Porquê? Aterram diariamente no aeroporto dezenas de aviões cheios, de pessoas que precisam de ficar em algum lugar! Vêm pessoas para pesquisar negócios grandes, pequenos, médios. Vêm pessoas à procura de mudar de vida, de emprego, de horizontes. Vêm pessoas para fazer a manutenção dos equipamentos que Angola comprou em Portugal, na Alemanha, na Rússia, em todo o mundo. Os meus colegas de almoço são 4 engenheiros checos com que me vou entendendo com o inglês deles. Vem gente boa, vem gente oportunista, vem gente de toda a qualidade e procura o seu nicho nesta Babel.
Nunca, em lugar nenhum, vi a ostentação e a pobreza (não falo de miséria, que também há, mas isso, para mim, é outra coisa) tão co-existentes lado a lado. Nunca encontrei tanta gente capaz de ajudar por pura gratuitidade ao pé de quem nos quer multar por tirarmos uma fotografia de um local em que tal é permitido (depois a multa resolve-se a “conversar”, sendo que “conversar” é um eufemismo). Há violência? Há, sim. Primeiro, a “violência” do incómodo pelo pedir constante das crianças, que mais tarde se transforma em quase extorsão e, depois,, se não encarreirarem, acaba em gangue. Mas nada que eu possa, em sã consciência, achar mais visível do que em outros países. Pelo contrário.
E depois, temos sempre aquela ideia de que Angola é tão rica e, no entanto, está tão demorada a melhoria do padrão de vida: os sistemas de saúde, de transporte e, especialmente, porque está na base de tudo, a Educação, dizemos todos, deveriam já ter atingido um melhor nível. Mas a paz é recente e o dinheiro não compra o conhecimento! É preciso tempo para formar pessoas e isso é a maior dificuldade.
Todavia, eu continuo irremediavelmente apaixonada por Luanda, por Malange, por Viana, pelo Úcua, por Kibaxi, pelo Rio Kuanza, pela Barra do Dande, pelo Mussulo, pelo Cabo Ledo, pelas estradas e picadas, por estas gentes todas, pobres e ricos, bons e menos bons, porque quero acreditar que, de facto, a maior parte das vezes, “o Homem é o Homem e a sua circunstância”.
Vou contando. Zé, para ti, em especial, o pedido: identifica-me o acesso. E fica a saber que se eu tivesse que escrever uma carta ao Menino Jesus só sobre a “minha África”, Senhor meu, que tarefa imensa!
quinta-feira, 22 de maio de 2008
terça-feira, 20 de maio de 2008
Carta ao Menino Jesus...aos soluços (3º Soluço)

Menino Jesus, lá estive a ouvir a pequena, são coisas de coração jovem, penso que a nossa conversa de pé de embondeiro a ajudou. Obrigada por me teres mandado o Espírito Santo. Mas, continuando, chegou a altura de Te pedir que nos dês mais capacidades intelectuais. É urgente, porque parece que somos quase todos um tanto apoucados. Pelo menos a Português e a Matemática. A não ser assim, de quem é a culpa? Entretanto, deixa-me interromper esta lista de pedidos para te agradecer o que inspiraste ao Dr. Nuno Crato quando ele disse que nós não somos menos capazes mas que temos uma grande tendência de seguidismo para modernices pedagógicas que não dão em nada. Também achei que ele tinha razão ao dizer que é, principalmente, a incapacidade de saber falar, ler escrever e interpretar Português que causa as desgraças da Matemática. Eu sei que o senhor causa engulhos a muita gente, mas, na minha, acho que ele neste caso tem razão.
Portanto, apesar de saber que estou a pedir muito, atrevo-me a mais isto: dá-nos uma boa Ministra da Educação, sensata, que saiba ouvir e que não desconfie praticamente de todos os professores. Como pode alguém amar uma obra e desprezar os operários? Dá-nos, meu Menino, Professores competentes e, se possível, “fascinantes”. Se quiseres ver qual é a diferença, dá uma vista de olhos às aulas e aos bloguistas da minha caixinha de Afectos. Aí, no que diz respeito a bons Professores, Tu, Divino Mestre, sabes bem que não basta saber: é preciso amar o que se faz, ter entusiasmo (ter Deus dentro de si, que é o que quer dizer, etimologicamente, diziam os gregos). Não é para qualquer um. Sabes, às vezes, reflectindo na Tua Vida e nos Teus amigos, acho que os professores precisavam de ter a impulsividade de Pedro, o Amor de João e o pragmatismo de Paulo. Que achas? Terei razão? Além disso, temos uma língua maravilhosa e destruímo-la sempre que podemos. As orações que os homens compuseram para te louvar, Senhor, são mais belas em Português, mas se não pões mão nele, um dia destes começamos o Pai-Nosso com um ”É assim” e terminamos com um “prontos”, em vez de “Amém”.
Voltemos aos portugueses em geral. Olha que até parece má-vontade de Teu Pai, a Primeira Pessoa da Santíssima Trindade! Deu-nos um Portugal lindo (embora nós tenhamos feito os possíveis para o tornar feio, na maior parte dos casos onde metemos as mãos), deu-nos um clima fantástico, mas achou que já era o suficiente e esqueceu-se do Povo. Nascemos um bocado cansados, duvidamos antes de vermos e acreditamos em coisas que nem podemos garantir que existam. Olha, já que estou a pedir, então dá trabalho aos desempregados e vontade de trabalhar a todos, torna os empresários mais socialmente envolvidos, inspira-os a fazerem os seus negócios com rectidão. E não te esqueças de uma habilidadezinha que faça fechar as fábricas de armamento e outra que dê um enjoo natural e eficaz pelo tabaco. Tens é que pensar numa alternativa para quem fica sem trabalho, mas haverá impossíveis para Ti?
Acho que a lista vai longa e está na hora de acabar. Posso pedir mais uma coisinha? Senhor, mata a Fome do Mundo. Toda a Fome. Primeiro, a fome-fome. Depois a fome que o homem tem do Bem, tantas vezes sem o saber. A fome de Amor, a fome de Saber, a fome do Belo, a fome da Alegria, a Fome de Ti. Amem.
Desculpa o atrevimento, mas eu confio no Teu Perdão. Tua, Carmo
Voltemos aos portugueses em geral. Olha que até parece má-vontade de Teu Pai, a Primeira Pessoa da Santíssima Trindade! Deu-nos um Portugal lindo (embora nós tenhamos feito os possíveis para o tornar feio, na maior parte dos casos onde metemos as mãos), deu-nos um clima fantástico, mas achou que já era o suficiente e esqueceu-se do Povo. Nascemos um bocado cansados, duvidamos antes de vermos e acreditamos em coisas que nem podemos garantir que existam. Olha, já que estou a pedir, então dá trabalho aos desempregados e vontade de trabalhar a todos, torna os empresários mais socialmente envolvidos, inspira-os a fazerem os seus negócios com rectidão. E não te esqueças de uma habilidadezinha que faça fechar as fábricas de armamento e outra que dê um enjoo natural e eficaz pelo tabaco. Tens é que pensar numa alternativa para quem fica sem trabalho, mas haverá impossíveis para Ti?
Acho que a lista vai longa e está na hora de acabar. Posso pedir mais uma coisinha? Senhor, mata a Fome do Mundo. Toda a Fome. Primeiro, a fome-fome. Depois a fome que o homem tem do Bem, tantas vezes sem o saber. A fome de Amor, a fome de Saber, a fome do Belo, a fome da Alegria, a Fome de Ti. Amem.
Desculpa o atrevimento, mas eu confio no Teu Perdão. Tua, Carmo
Carta ao Menino Jesus ... aos soluços (2º Soluço)
O que precisamos de Ti, de Ti que conheces os nossos mais íntimos pensamentos, que tens contados até os cabelos da nossa cabeça, que nos perdoas ainda antes de termos pecado, tão grande é o Teu Amor, é explicar-nos que o Amor é algo tão belo e tão perfeito que não se pode avaliar com dinheiro. Aliás, não há dinheiro que compre o Amor. Mas seria o Amor pela coisa pública que nos daria bons e verdadeiros políticos e governantes e não esta gentinha que só pensa em si própria. E nem a si ama, ou pelo menos é o que parece pelas figuras tristes que fazem, pelo ridículo a que se prestam. Dá-nos, pois, bons governantes. O Amor terminaria com a solidão dos velhos, pobres e doentes. O Amor não permitiria que se fizesse humor com o sofrimento e a deficiência. O Amor evitaria que fosse preciso haver Casas Pias ou Casa do Gaiato. O Amor acabaria com palavras como “guerra” e “fome”.
O Amor pela Verdade não poria o Natal a começar em Outubro, como se tivesses sido um impaciente prematuro. Porque nasces inteiro todos os dias, sempre que nós agimos como Tu o farias. Bem, mas agora, em Teu nome, ainda fico mais ofendida quando querem fazer de Ti um prematuro. É que, por estes tempos, até os verdadeiros prematuros terão vergonha de o ser. Para ninguém pensar que eles também fazem parte de uma famosa metáfora. Além disso, também te matam antes do tempo. Até a Páscoa, a Passagem da Tua vida terrena, através da Morte, para a Ressurreição, qualquer dia estamos a vender ao quilo, como amêndoas e pão-de-ló e ainda mais os ovos de chocolate, porque somos muito bons a aprender coisinhas assim, que não interessam “nem ao Menino Jesus”, como a gente diz, invocando o Teu nome em vão.
Senhor, faz-nos aprender o valor do Tempo, a usar o Tempo, a dar Tempo ao Tempo. É uma das maiores graças que nos podes dar. Jesus, Tu que discutias com tanto tino e profundidade aos 12 anos, com os estupefactos doutores da Lei, não tens à mão um pouco de sensatez para distribuir pelos nossos doutores de agora, de leis e de outras coisas? A sensatez também é uma forma de Amor, muito necessária em outras circunstâncias. Por exemplo: já viste como é que os portugueses estão endividados? E como continuam a endividar-se alegremente? E não achas, Senhor, uma traição social que os senhores do dinheiro recorram a tantas formas sedutoras para tentarem os pobres portugueses, levando-os a querer mais e sempre mais?
Agora, um aspecto melindroso. Nem sei bem como Te hei-de falar disto. Bem, o melhor é ir a direito e dizer claramente a que me quero referir: a sexualidade. Meu Jesus, a questão põe-se e só queria pedir-Te que pusesses um pouquinho de pudor na cabeça das pessoas. Não confundas, por favor, este pedido com qualquer intenção, da minha parte, de estar do lado dos que defendem “vícios privados, públicas virtudes”. Sei quanto abominas a hipocrisia, talvez o pecado que mais Te magoe. Mas, Senhor, um pouco mais de vergonha, menos exibicionismo, mais castidade verdadeira, tudo isso deveria, certamente, transformar-se num Amor mais amplo, que a todos envolveria sem ninguém excluir. E protege os pequeninos, Senhor, porque parece não haver quem os guarde nem ensine para o verdadeiro afecto.
(Agora, imagina, é alguém que diz que precisa de me falar em particular. Já marcou duas vezes hora e duas vezes faltou, mas não é preciso perdoar setenta vezes sete?)
O Amor pela Verdade não poria o Natal a começar em Outubro, como se tivesses sido um impaciente prematuro. Porque nasces inteiro todos os dias, sempre que nós agimos como Tu o farias. Bem, mas agora, em Teu nome, ainda fico mais ofendida quando querem fazer de Ti um prematuro. É que, por estes tempos, até os verdadeiros prematuros terão vergonha de o ser. Para ninguém pensar que eles também fazem parte de uma famosa metáfora. Além disso, também te matam antes do tempo. Até a Páscoa, a Passagem da Tua vida terrena, através da Morte, para a Ressurreição, qualquer dia estamos a vender ao quilo, como amêndoas e pão-de-ló e ainda mais os ovos de chocolate, porque somos muito bons a aprender coisinhas assim, que não interessam “nem ao Menino Jesus”, como a gente diz, invocando o Teu nome em vão.
Senhor, faz-nos aprender o valor do Tempo, a usar o Tempo, a dar Tempo ao Tempo. É uma das maiores graças que nos podes dar. Jesus, Tu que discutias com tanto tino e profundidade aos 12 anos, com os estupefactos doutores da Lei, não tens à mão um pouco de sensatez para distribuir pelos nossos doutores de agora, de leis e de outras coisas? A sensatez também é uma forma de Amor, muito necessária em outras circunstâncias. Por exemplo: já viste como é que os portugueses estão endividados? E como continuam a endividar-se alegremente? E não achas, Senhor, uma traição social que os senhores do dinheiro recorram a tantas formas sedutoras para tentarem os pobres portugueses, levando-os a querer mais e sempre mais?
Agora, um aspecto melindroso. Nem sei bem como Te hei-de falar disto. Bem, o melhor é ir a direito e dizer claramente a que me quero referir: a sexualidade. Meu Jesus, a questão põe-se e só queria pedir-Te que pusesses um pouquinho de pudor na cabeça das pessoas. Não confundas, por favor, este pedido com qualquer intenção, da minha parte, de estar do lado dos que defendem “vícios privados, públicas virtudes”. Sei quanto abominas a hipocrisia, talvez o pecado que mais Te magoe. Mas, Senhor, um pouco mais de vergonha, menos exibicionismo, mais castidade verdadeira, tudo isso deveria, certamente, transformar-se num Amor mais amplo, que a todos envolveria sem ninguém excluir. E protege os pequeninos, Senhor, porque parece não haver quem os guarde nem ensine para o verdadeiro afecto.
(Agora, imagina, é alguém que diz que precisa de me falar em particular. Já marcou duas vezes hora e duas vezes faltou, mas não é preciso perdoar setenta vezes sete?)
Carta ao Menino Jesus … aos soluços… (1º Soluço)

Meu Querido Menino Jesus,
Desculpa vir alterar a pacatez desta fase do ano, em que faltam ainda 7 meses para Te celebrarem de uma forma que não acredito ser do teu agrado, mas és a minha última esperança. Sei que deves estar admirado por receber uma carta… Afinal, agora a maior parte das crianças nem sabe que Tu nasceste entre os homens, que mamavas no seio de Tua Mãe, dormias e choravas, um bebé como os outros. E que viveste até aos 30 anos como os outros judeus, trabalhando, rindo e sofrendo, até ao momento em que decidiste receber o Baptismo de João, foste para o deserto meditar e começaste a pregar o Amor como única Lei. Eles não sabem que nasceste da forma mais humilde imaginável, de acordo com os quatro Evangelhos e a visão que S. Francisco de Assis, o Louco de Deus, teve desse momento, ao criar o presépio. Agora só sabem de um velhinho bonacheirão, vestido de vermelho e que viaja num trenó puxado por sete renas, a quem chamam o Pai Natal. Sem desprestígio para o pobre e generoso Bispo Nicolau, que muitas vezes se deve lamentar no Teu ombro por tanta loucura, bem sabes que é apenas mais uma americanice. Tem paciência. Também Te digo que, se calhar, é uma sorte: como algumas crianças agora são educadas a quererem tudo sem esforço, acho, meu Bom Jesus, que até a Ti faltaria a paciência para tantos e tão desenfreados pedidos.
Menino Jesus, resolvi escrever-te porque sinceramente só em Ti posso ver alguma esperança para receber aquilo que Te quero pedir. Nada de concreto, em espécie ou substância, mas Tu és, precisamente, o Mestre capaz de dar o que precisamos. És o Único, aliás. Porque, meu Menino, eu quero pedir-Te bastantes coisas, mas para Portugal. Se puderes dar o que para nós peço, alguma coisa me há-de chegar a mim.
Então, deixa-me lá fazer a minha lista e não Te admires se achares que junto no mesmo saco coisas importantes com outras que o podem parecer menos. Mas também Tu soubeste receber com igual coração tanto os cordeirinhos, o leite e os queijos dos pastores como o ouro, incenso e mirra dos Magos.
Olha, para começar, Senhor, precisamos de brio. Sabes que descobri que há muita gente que não sabe sequer o que é que significa “brio”? Descobri-o, porque tenho a mania de dizer muitas vezes, especialmente àquelas pessoas que nem para aquecer querem trabalhar, que “quem tem brio, não tem frio”. Coisas que se diziam dantes, quando ainda andavas pelo mundo. Precisamos de brio, pois, de uma boa porção de amor-próprio, de muito amor pelos outros. Isso sei eu que nos podes dar, pois Tu és o Amor em si mesmo: “Não há maior Amor do que dar a vida pelos Amigos”.
(Se não Te importas, interrompo aqui, porque tenho ali uns jovens que precisam de saber lidar com a Dor. Podes dar-me uma ajudinha?)
Desculpa vir alterar a pacatez desta fase do ano, em que faltam ainda 7 meses para Te celebrarem de uma forma que não acredito ser do teu agrado, mas és a minha última esperança. Sei que deves estar admirado por receber uma carta… Afinal, agora a maior parte das crianças nem sabe que Tu nasceste entre os homens, que mamavas no seio de Tua Mãe, dormias e choravas, um bebé como os outros. E que viveste até aos 30 anos como os outros judeus, trabalhando, rindo e sofrendo, até ao momento em que decidiste receber o Baptismo de João, foste para o deserto meditar e começaste a pregar o Amor como única Lei. Eles não sabem que nasceste da forma mais humilde imaginável, de acordo com os quatro Evangelhos e a visão que S. Francisco de Assis, o Louco de Deus, teve desse momento, ao criar o presépio. Agora só sabem de um velhinho bonacheirão, vestido de vermelho e que viaja num trenó puxado por sete renas, a quem chamam o Pai Natal. Sem desprestígio para o pobre e generoso Bispo Nicolau, que muitas vezes se deve lamentar no Teu ombro por tanta loucura, bem sabes que é apenas mais uma americanice. Tem paciência. Também Te digo que, se calhar, é uma sorte: como algumas crianças agora são educadas a quererem tudo sem esforço, acho, meu Bom Jesus, que até a Ti faltaria a paciência para tantos e tão desenfreados pedidos.
Menino Jesus, resolvi escrever-te porque sinceramente só em Ti posso ver alguma esperança para receber aquilo que Te quero pedir. Nada de concreto, em espécie ou substância, mas Tu és, precisamente, o Mestre capaz de dar o que precisamos. És o Único, aliás. Porque, meu Menino, eu quero pedir-Te bastantes coisas, mas para Portugal. Se puderes dar o que para nós peço, alguma coisa me há-de chegar a mim.
Então, deixa-me lá fazer a minha lista e não Te admires se achares que junto no mesmo saco coisas importantes com outras que o podem parecer menos. Mas também Tu soubeste receber com igual coração tanto os cordeirinhos, o leite e os queijos dos pastores como o ouro, incenso e mirra dos Magos.
Olha, para começar, Senhor, precisamos de brio. Sabes que descobri que há muita gente que não sabe sequer o que é que significa “brio”? Descobri-o, porque tenho a mania de dizer muitas vezes, especialmente àquelas pessoas que nem para aquecer querem trabalhar, que “quem tem brio, não tem frio”. Coisas que se diziam dantes, quando ainda andavas pelo mundo. Precisamos de brio, pois, de uma boa porção de amor-próprio, de muito amor pelos outros. Isso sei eu que nos podes dar, pois Tu és o Amor em si mesmo: “Não há maior Amor do que dar a vida pelos Amigos”.
(Se não Te importas, interrompo aqui, porque tenho ali uns jovens que precisam de saber lidar com a Dor. Podes dar-me uma ajudinha?)
Algumas histórias reais
Gostaria de partilhar convosco um sorriso multisignificativo ao contar-vos uma história de que tive conhecimento directo e ainda há pouco. Digamos que foi em Mumemo, Moçambique. Aqui vai ela:
A partir do ano lectivo de 2005, os alunos têm que ter aulas de Educação Musical no ensino básico e, entretanto,houve alguém, entretanto sem trabalho, que se prontificou a dar essas aulas. Perguntaram-lhe se ele estava preparado e ele disse que sim. Até se admirou com a pergunta. Afinal, na opinião dele, quem é que não estaria preparado para dar uma disciplina tão agradável? E lá iniciou as aulas, com grandes cantorias, que se ouviam em todo recinto da Escola, por sinal bem grande e que foi totalmente construída e equpada pelo governo espanhol.
Ora acontece que, para facilitar a vida aos poucos professores que há para tantos alunos, o programa já vem com planificações: nesta aula dá-se isto, na seguinte ensina-se aquilo, e assim por diante. Até que um dia a directora lhe perguntou se ele já tinha começado a ensinar a escrever e a ler na pauta. Se já tinha dado as notas. Pauta? O que era uma pauta? Parecia até uma palavra feia. Não, não tinha ensinado nada sobre essa tal pauta, de que ele nunca tinha ouvido falar... E sobre as notas, então isso não era só no fim do período? Ainda agora tínhamos começado o ano já queriam notas? E assim lá se foi um professor de música à viola.
É que o pobre pensava que a pauta era aquela folha que se preenche no fim de cada período, com as classificações obtidas, vulgo "notas". E para cantar não era preciso muito mais do que ter voz, mesmo que desafinada
Esta história, por acaso, fez-me pensar em o que é que aconteceria em Portugal se também procurássemos saber o que certos mestres o que andam a ensinar. Provavelmente, não nos espantaríamos de encontrar igualmente professores de música que não conheciam a pauta de lado nenhum, com o devido respeito pelos que sabem...
Porque, de facto, não podemos fingir que não sabemos que muita coisa vai mal entre os professores...
PS. O sorriso multisignificativo quer dizer que não é de troça: é do risível da situação a que se junta uma certa tristeza por tal circunstância poder ainda ocorrer.
A partir do ano lectivo de 2005, os alunos têm que ter aulas de Educação Musical no ensino básico e, entretanto,houve alguém, entretanto sem trabalho, que se prontificou a dar essas aulas. Perguntaram-lhe se ele estava preparado e ele disse que sim. Até se admirou com a pergunta. Afinal, na opinião dele, quem é que não estaria preparado para dar uma disciplina tão agradável? E lá iniciou as aulas, com grandes cantorias, que se ouviam em todo recinto da Escola, por sinal bem grande e que foi totalmente construída e equpada pelo governo espanhol.
Ora acontece que, para facilitar a vida aos poucos professores que há para tantos alunos, o programa já vem com planificações: nesta aula dá-se isto, na seguinte ensina-se aquilo, e assim por diante. Até que um dia a directora lhe perguntou se ele já tinha começado a ensinar a escrever e a ler na pauta. Se já tinha dado as notas. Pauta? O que era uma pauta? Parecia até uma palavra feia. Não, não tinha ensinado nada sobre essa tal pauta, de que ele nunca tinha ouvido falar... E sobre as notas, então isso não era só no fim do período? Ainda agora tínhamos começado o ano já queriam notas? E assim lá se foi um professor de música à viola.
É que o pobre pensava que a pauta era aquela folha que se preenche no fim de cada período, com as classificações obtidas, vulgo "notas". E para cantar não era preciso muito mais do que ter voz, mesmo que desafinada
Esta história, por acaso, fez-me pensar em o que é que aconteceria em Portugal se também procurássemos saber o que certos mestres o que andam a ensinar. Provavelmente, não nos espantaríamos de encontrar igualmente professores de música que não conheciam a pauta de lado nenhum, com o devido respeito pelos que sabem...
Porque, de facto, não podemos fingir que não sabemos que muita coisa vai mal entre os professores...
PS. O sorriso multisignificativo quer dizer que não é de troça: é do risível da situação a que se junta uma certa tristeza por tal circunstância poder ainda ocorrer.
domingo, 18 de maio de 2008
Será uma premonição?

Bem, é em inglês, mas é bem representativo...
Esta foto foi tirada em Kibaxi em Março. Com o pleno consentimento do próprio. Creio que, mesmo a brincar, dá para assustar um bocadinho. Ou será que basta o som das palavras? A ver vamos, como diz o cego...
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em defesa da língua,
valor da Educação
Porque hoje é Domingo e eu gosto das Pessoas
O que eu desejo pra você Desejo primeiro que você ame,
E que amando, também seja amado.
E que se não for, seja breve em esquecer.
E que esquecendo, não guarde mágoa.
Desejo, pois, que não seja assim,
Mas se for, saiba ser sem desesperar.
Desejo também que tenha amigos,
Que mesmo maus e inconsequentes,
Sejam corajosos e fiéis,
E que pelo menos num deles
Você possa confiar sem duvidar.
E porque a vida é assim,
Desejo ainda que você tenha inimigos.
Nem muitos, nem poucos,
Mas na medida exacta para que, algumas vezes,
Você se interpele a respeito
De suas próprias certezas.
E que entre eles, haja pelo menos um que seja justo,
Para que você não se sinta demasiado seguro.
Desejo depois que você seja útil,
Mas não insubstituível.
E que nos maus momentos,
Quando não restar mais nada,
Essa utilidade seja suficiente para manter você de pé.
Desejo ainda que você seja tolerante,
Não com os que erram pouco, porque isso é fácil,
Mas com os que erram muito e irremediavelmente,
E que fazendo bom uso dessa tolerância,
Você sirva de exemplo aos outros.
Desejo que você, sendo jovem,
Não amadureça depressa demais,
E que sendo maduro, não insista em rejuvenescer,
E que sendo velho, não se dedique ao desespero.
Porque cada idade tem o seu prazer e a sua dor e
É preciso deixar que eles escorram por entre nós.
Desejo por sinal que você seja triste,
Não o ano todo, mas apenas um dia.
Mas que nesse dia descubra
Que o riso diário é bom,
O riso habitual é insosso e o riso contínuo é insano.
Desejo que você descubra,
Com o máximo de urgência,
Acima e a respeito de tudo, que existem oprimidos,
Injustiçados e infelizes, e que estão à sua volta.
Desejo ainda que você afague um gato,
Alimente um cuco e ouça o joão-de-barro
Erguer triunfante o seu canto matinal
Porque, assim, você se sentirá bem por nada.
Desejo também que você plante uma semente,
Por mais minúscula que seja,
E acompanhe o seu crescimento,
Para que você saiba de quantas
Muitas vidas é feita uma árvore.
Desejo, outrossim, que você tenha dinheiro,
Porque é preciso ser prático.
E que pelo menos uma vez por ano
Coloque um pouco dele
Na sua frente e diga "Isso é meu",
Só para que fique bem claro quem é o dono de quem.
Desejo também que nenhum de seus afitos morra,
Por ele e por você,
Mas que se morrer, você possa chorar
Sem se lamentar e sofrer sem se culpar.
Desejo por fim que você sendo homem,
Tenha uma boa mulher,
E que sendo mulher,
Tenha um bom homem
E que se amem hoje, amanhã e nos dias seguintes,
E quando estiverem exaustos e sorridentes,
Ainda haja amor para recomeçar.
E se tudo isso acontecer,Não tenho mais nada a te desejar.
(Original de Victor Hugo adaptado por Vinícius de Morais)
Desejo, ainda, com todas as fibras do meu Querer
Que vos permitam ser o que desejam,
sem pesos nem medidas falsas e inúteis,
isto é, Professores,
Homens, Mulheres, Cidadãos, de corpo inteiro
(Original da Avó Pirueta, adaptado pelo meu Amor por tudo o que Deus fez)
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